Canta, canta uma esperança

Por Camila de Ávila

Sancionada em 28 de agosto de 1979, a Lei da Anistia beneficiou mais de 100 presos políticos, concedeu para 150 banidos do Brasil o retorno seguro e permitiu que 2000 exilados fossem repatriados. Na chegada ao país, os aeroportos colocavam em alto e bom som a canção “O bêbado e a equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc, em seus megafones na voz de Elis Regina, como foi dito no texto deste blog, Escuta Só, intitulado “Amor: um sentimento de anistia”.  No fim dos anos 1970 e início dos anos 1980, a canção falou sobre muita coisa. A volta para casa e a capacidade de novamente ser um indivíduo livre estava nas letras das músicas e, além de lembrar de manchas torturadas, começaram a tratar de esperança. O jornalista Arthur Xexéu, em texto publicado no livro “MPB – A Alma do Brasil”, com organização de Ricardo Cravo Albin, afirma que “a música brasileira tornou-se a trilha sonora dos que sonhavam com a volta dos exilados e com a chegada de tempos mais amenos”.

EscutaSo1

O disco “Journey to Dawn”, lançado em 1979, por Milton Nascimento trazia em seu repertório algumas canções muito fortes. As três versões de Pablo (lembrando que este é o nome do filho de Bituca, que foi criado longe do pai devido a ameaças dos tempos bicudos. Milton falou sobre esse fato no quadro “O que vi da vida” do dominical Fantástico), Maria Maria e “Unecounter – Canção da América”, parceria com Fernando Brant.  “Canção da América”, como é mais conhecida, foi escrita para o amigo sul-africano de Milton, o produtor musical Ricky Fataar. Bituca fez a letra em inglês e Fernando Brant em português. Considerada um hino para a amizade, a canção fala de exílio.

“Mas quem cantava chorou
Ao ver seu amigo partir
Mas quem ficou no pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou”.

Jorney to dawnA música narra a despedida de amigos, da tristeza da partida, do sofrimento da separação. Mas deixa claro a esperança do reencontro em data, sem previsão, mas que vai acontecer.

“Qualquer dia, amigo
Eu volto a te encontrar
Qualquer dia, amigo
A gente vai se encontrar”

Bituca escreveu a canção para este amigo que o fez sentir em casa quando estava gravando “Journey to Dawn”, em Los Angeles. O artista carioca mais mineiro que se pode conhecer diz que em Los Angeles as pessoas são frias e Ricky Fataar tinha o aconchego nos braços. Mas, depois ele sumiu e Milton perdeu o contato com o produtor. Parece que Bituca não fez a música pensando em anistia, ditadura ou questões políticas. Mas a canção coube como uma luva para o momento, afinal de contas, os amigos estavam voltando. Mas, apesar de ser comemorada como um golpe contra o regime militar, a Lei da Anistia também serviu aos interesses do governo, pois impediu que oficiais militares fossem levados a julgamento por crimes de tortura e mortes.

Foi em 1979, que Chico Buarque lançou o disco Vida. A canção título do LP mostra o questionamento de um indivíduo que deseja mais da vida, mas entende que o que foi feito até aquele momento foi importante. A felicidade tão buscada pode estar ao lado, ou até já foi reconhecida em tempos de luta.

“Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Toquei na ferida
Nos nervos, nos fios
Nos olhos dos homens
De olhos sombrios
Mas, vida, ali
Eu sei que fui feliz”

Chico Vda

Outro ponto dessa canção é que se reconhece que é preciso se recolher para ir mais longe. “(…)Nem que todos os barcos/Recolham ao cais(…)”. Está nesse disco também a canção “Fantasia”, que tempos depois foi inserida no compacto Terra, que vinha no livro de mesmo nome do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, com prefácio do escritor português José Saramago, em 1997. A música é carregada de esperança de voltar a ser alguém com liberdade para de fato ser na rua, na praça, sem esconder.

“Canta a canção do gozo
Canta a canção da graça
Canta mais
Preparando a tinta
Enfeitando a praça”.

Terra_Sebastiao_Salgado

elis 1980Apresentando novos compositores, como era o costume, Elis Regina lançou no disco de 1980, intitulado “Elis”, a música “Nova Estação”, do carioca Thomas Roth e do mineiro Luiz Guedes (1949-1997). Já com o sentimento de renovação no título, a letra da música fala do despertar da esperança sem deixar de esquecer o que foi sentido e sofrido e que ainda estava rondando. A canção plantava nos ouvidos da população o desejo de querer ver a luz da manhã.

“Despertar sem medo
Enganar a dor
Disfarçar essa mágoa
Que anda solta no ar
Ter que acreditar
No regresso da estação
Como o sol volta a brilhar
Com as chuvas de verão”.

“Mas como perdoar a quem não cometeu falta ou delito, e, não os cometendo, foi castigado? Se teu nome é perdão, deve este ser pedido às vítimas da injustiça e o arbítrio? Em vez de compaixão, neste caso, a anistia precisava ser um ato de arrependimento seguido de reconhecimento público e proclamação da justiça. O perdão cabe ao ofendido. E há muitos ofendidos e humilhados que, sem culpa, tiveram de pagar pelo crime que não perpetraram”, diz o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902 -1987) em texto publicado no Jornal do Brasil em 1979, e lido por Maria Bethânia no show do repertório do disco “Álibi” (mencionado nos textos do Escuta Só “Deixe-o...” e “Amor: um sentimento de anistia”). O que estava acontecendo nas letras das canções populares do período era que a música estava se enchendo de esperança e desejando

“Semear a terra
Certo de colher
Da semente, o fruto
Depois descansar”.

Amor: um sentimento de anistia.

Por Ricardo Frei

Foi com a voz potente e já consagrada de Elis Regina, distribuída em seu álbum Elis, Essa Mulher (1979), que a canção O Bêbado e a Equilibrista se transformou numa ode à anistia política no país. Alçada à condição de hino, a canção é assinada por João Bosco e Aldir Blanc, que nunca esconderam a proposta inicial do samba: homenagear Chaplin e seu mais contundente personagem, Carlitos. João havia elaborado harmonia e linha melódica que citava e comentava a canção Smile.  Aldir, após encontro com Chico Mário e Henfil, tocado com a condição de Betinho, irmão exilado daqueles dois, costurou a homenagem original ao mote da anistia. O Bêbado, enlutado e zonzo de tanta noite e dor, se enlaça com a Esperança, que procura ficar aprumada numa corda bamba política pela qual desfila os desejos de liberdade.


Vinil Elis, Essa Mulher – Acervo IMMUB.

De fato, o Bêbado e a Equilibrista, desde então, foi conduzida ao posto de samba primeiro daquele enredo possível e almejado. Merece mais do que os ligeiros comentários dessas mínimas linhas. Outras canções, porém, cederam seu tecido sonoro ao tempo e carregaram vozes que por distintas formas de dizer, disseram também sobre a anistia. Uma particularmente chamou-nos atenção por ter sido calada.

Em pesquisa sobre canções que lidaram com o tempo e com o tema, deparamo-nos com um repositório documental que se constitui como um espaço de referência histórica: o site Documentos Revelados. Ao vasculhar seu acervo nos deparamos com a letra censurada de uma canção que falava diretamente do movimento de anistia. Contrariando espíritos afoitos que apostariam na autoria da canção como sendo de Chico, Caetano, Gonzaguinha ou outro autor identificado e marcado pelo cerco dos censores, Anistia, Uma questão de Amor foi censurada e, digo, trazia em sua designação de autoria o seguinte compositor: Tim Maia.

Tim, naqueles idos, já havia deixado sua fase Racional para trás e acabado de lançar um de seus principais álbuns, o Tim Maia Disco Club, sucesso de 1978. Em 1979, o artistas submete a canção Anistia aos censores, que prontamente propõem o veto. Segundo a argumentação do Serviço de Censura de Diversões Públicas, a obra estaria vetada por ser “um apelo a favor da anistia” e por apresentar “os punidos” como “seres indefesos”. Ainda, por tratar o ato punitivo como “valentia demodê”, como arbitrariedade, enquanto os exilados “seriam seres injustiçados”, o que poderia tornar a sociedade sensível àqueles “subversivos”.

A letra de Tim Maia pede liberdade e justiça aos “irmãos” expulsos de seu lugar. Aponta para fragilidade da estrutura ditatorial, há muito abalada. Pede que se deixe o egoísmo no fundo do abismo. Tece um panfleto poético contundente, sem refrão, a favor da paz, que se encerra na seguinte frase:  “anistia já foi dito é questão de amor”.

E não é a única canção de 1979 que relaciona amor e liberdade. Outras duas gravações também o fazem a sua maneira. Canções de grande sucesso e importância para os estertores da década de 1970 que vieram do universo do samba. Uma delas, composta por um dos sambistas mais censurados daquele período. Ney Lopes teve quase 80 músicas censuradas, seja por crivo político ou moral. É de sua lavra, combinada à do parceiro Wilson Moreira, o sucesso Senhora Liberdade, samba que projetou a carreira de Zezé Mota como cantora. São vários os trechos que podem, por força de interpretação, dado as contingências históricas, deixar-nos compreender que o amor e seus sentimentos correlatos se tornam palavras prontas para serem ocupadas por reivindicações, pelo próprio sentimento que pairava pelos ares de 1979:

Abre as asas sobre mim
Oh! Senhora liberdade
Eu fui condenado
Sem merecimento
Por um sentimento
Por uma paixão

Não vou passar por inocente
Mas já sofri terrivelmente
Por caridade
Ó liberdade
Abre as asas sobre mim

Outro samba que faz coro responsivo ao tema e ao campo sensível das canções acima é Sonho Meu. Composta por Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho foi premiada como melhor música do ano de 79. As vozes de Bethânia e Gal levaram a canção para o rádio, dando visibilidade ao samba, fazendo com que ele ecoasse para além do universo restrito do subúrbio carioca. Em sua face poética, revela que o tal sonho, dotado de sua liberdade de cruzar espaço e tempo, manda buscar “quem mora longe”. A noite, a madrugada fria, tão relacionada aos tempos sombrios de ditadura, traz a melancolia e as mágoas de amor. A boca do vento, contudo, faz dançar as flores, mas também sonhar um sonho que devolve ao seu lugar aquele que se encontra distante e apartado de suas paixões.

Sonho meu, sonho meu
Vai buscar que mora longe
Sonho meu
Vai mostrar esta saudade

Sonho meu
Com a sua liberdade
Sonho meu
No meu céu a estrela guia se perdeu

A madrugada fria só me traz melancolia
Sonho meu
Sinto o canto da noite
Na boca do vento

Fazer a dança das flores
No meu pensamento
Traz a pureza de um samba
Sentido, marcado de mágoas de amor

Um samba que mexe o corpo da gente
E o vento vadio embalando a flor
Sonho meu

É claro que se faz aqui um exercício interpretativo, que alude à capacidade que as canções, em sua existência autônoma, em sua face aberta aos sentidos e fruições, têm de enredar a história, de se apropriar e ser apropriada por leituras e apetites instalados em quem a escuta e canta. E isso nos autoriza fazer as relações, deduções e inferências acima. Mais! Entende-se que a canção brasileira estabelece um foro de discussão pública, uma espécie de Ágora melódica, onde sua trama musical e poética convoca e estimula outras canções ao diálogo. A professora e pesquisadora Heloísa Starling, ao pensar a relação entre a canção e a vida republicana no Brasil, afirma que o cancioneiro popular “reflete muito bem a dimensão do mundo público, expressa os sentimentos que transitam do espaço privado para o espaço público”. Afirma também que “toda vez que a gente fala da canção popular brasileira moderna, sempre vai encontrar dentro dela aquilo que está sendo gestado na rua.” A rua pedia por amor, por caridade, de um jeito esperançoso, a volta dos tempos solares, dos tempos regidos por uma senhora liberdade.

Escute as canções aqui:

Senhora Liberdade: https://www.youtube.com/watch?v=3Cl1cBnnHqk

Sonho Meu: https://www.youtube.com/watch?v=KvyQNKrRKXg

*https://www.documentosrevelados.com.br/repressao/policia-federal/parecer-da-censura-para-a-musica-de-tim-maia-anistia-uma-questao-de-amor/

Deixe-o…

Por Camila de Ávila

“A cena foi uma pancada no meu coração. A emoção tomou conta de mim e as lágrimas correram meu rosto. A música tinha tomado outra conotação a partir dali. Virava o hino dos exilados. É assim que é vista hoje, pra meu regozijo. E é assim que pensam que ela foi feita, para a minha satisfação. O que mostra que o destino das canções não está em nossas mãos. Elas são o que elas quiserem ser, acima dos motivos porque foram feitas.” Essas palavras são do compositor Paulo César Pinheiro, se referindo a como a canção “Tô Voltando” (escute aqui) teve seu entendimento alterado de forma espontânea pela população, em 1979.

A história da música é bem diferente. Na segunda metade da década de 1970, foi realizado no Rio de Janeiro o Projeto Pixinguinha em que João Nogueira, Sérgio Cabral e Maurício Tapajós cantavam e bebiam no palco contando histórias de algumas canções da música brasileira. O projeto deu tão certo que viajou para outras capitais, especialmente as do Nordeste do país. Acontece que eles ficavam muito tempo fora e em determinado momento a saudade de casa bate e este “banzo” acometeu Maurício Tapajós. Quando enfim a turnê estava acabando, começou a dedilhar no violão uns acordes e cantava a frase “Tô voltando”. Ele ligou para Paulo César Pinheiro, mostrou o esboço da canção e disse: “O que você acha parceiro?”. Paulo respondeu: “Acho ótimo, gordo. Tô indo para aí. Ainda aguenta mais um uísque?”. A letra saiu fácil, pois o sentimento de saudade também já havia sido sentido por Pinheiro. A canção virou propaganda de cerveja, de refrigerante, de futebol e de carro. A primeira e mais famosa versão da canção está nos disco “Pedaços”, da cantora Simone, lançado em 1979.

Simone - Disco pedaços

Hora da história

Em 1979, depois de longo período de uma severa ditadura em que a liberdade de pensamento foi tolhida e cerca de dez mil brasileiros foram exilados, especialmente em 1968, quando foi decretado do Ato Institucional nº 5 (AI5), e muitos artistas, jornalistas e intelectuais foram perseguidos, presos, torturados e mortos, o então presidente do país, o último militar, João Figueiredo, subiu ao poder com a luta pela anistia nas ruas. Em 1978, já haviam sido criados os Comitês Brasileiros de Anistia e o desejo era de uma anistia ampla, geral e irrestrita (que se tornou o lema da manifestação cunhado pelo jurista Aloysio Tavares Picanço (1922-2015) quando votou a favor do parecer elaborado pela OAB pela anistia política). Rapidamente, a expressão ganhou as ruas, cartazes e faixas.. Figueiredo implantou a abertura lenta e gradual. Na luta pela volta dos exilados estavam mulheres e homens, estudantes, intelectuais, religiosos, trabalhadores das fábricas e do campo, artistas, advogados, familiares e amigos de pessoas vítimas de perseguição por motivos políticos. Foram organizadas manifestações públicas, debates, distribuição de panfletos, cartazes, abaixo-assinados, lançamento de livros e visitas aos presos políticos. É claro que as canções não estariam de fora dessa luta. Uma parte do meio artístico mobilizou-se no período, a poeta Ana Cristina Cesar (1952-1983), a Ana C. escreveu. “Você sabe que o país está começando a se sacudir, há manifestações pelo menos estudantis nas capitais, apoio escrito e professores, MDB, mães de pessoas. (…) Mal ou bem estou lá, me cagando de medo”.

A primeira canção

Uma das primeiras canções que tocou no assunto de exílio foi a vencedora e vaiada no Festival da Canção de 1968, “Sabiá” (escute aqui), de Chico Buarque e Tom Jobim (1927-1994). Numa clara inspiração no poema “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias (1823 – 1864), os compositores já externavam o desejo da volta para casa, que seria uma sociedade justa. Lembrando que Chico se autoexilou na Itália em 1969, depois de ter sido ameaçado e persuadido na polícia por inúmeras vezes.

Nesse período da história brasileira, as canções eram como personagens. Como não se podia falar o que queria e não havia a liberdade de expressão, os artistas (como ainda ocorre, já que até o artista plástico chinês Ai Weiwei afirma “Tudo é arte. Tudo é política”), falavam pelo povo, ou não. Já que, como já falado no início do texto, a população se apropriava da obra dando-lhe nova conotação. A música “Sonho meu” (escute aqui) de Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho, é outro exemplo. Quando diz: “Vai buscar quem mora longe, sonho meu…”. A música foi gravada em 1979 por Maria Bethânia e Gal Costa no disco Álibi.

O exílio atual

Recentemente, o deputado federal do PSOL Rio de Janeiro e ativista da causa LGBT Jean Wyllys se exilou em país não divulgado. O político estava recebendo ameaças contra sua integridade física, sua vida e contra seus familiares. E essa violência se tornou mais intensa depois do assassinato ainda não resolvido de Marielle Franco, vereadora do PSOL do Rio de Janeiro, também ativista da causa LGTB e uma exímia lutadora em prol das minorias. Em dezembro de 2018, a antropóloga e professora da UNB Débora Diniz também foi forçada a deixar o país para se proteger contra ameaças de morte devido às suas ideias de igualdade de gêneros e descriminalização do aborto.

Escuta Só!

Por Ricardo Frei


Escuta Só!

Tome este texto como um convite que lhe permitirá vasculhar, pensar, discutir, tatear as superfícies, mas também o que há de mais recôndito nas canções brasileiras. Aqui é um lugar de se fazer soar impressões, de se deixar escutar as vozes que tomam conta das tramas poético-musicais de nossos cancionistas.

Não alimentamos pretensão alguma de desnudar o insólito, o invulgar. O que há é uma vontade de deixar as canções falarem, na certeza de que elas sempre foram ocupadas por confissões, intimidades, debates públicos, por posicionamento político, como espaço pronto para ser ocupado por distintas opiniões, querências, inquietações, desassossegos, anseios, que as transformam em testemunhos particularíssimos em forma de melodia e letra.

Por meio das canções, podemos acessar pensamentos e espaços interditados pelas rinhas sociais, e também dizer de tudo o quanto há em nossa história e cultura. A canção e seus artífices são testemunhas do tempo, da história. São vestígios prenhes de informações, segredos e revelações.

Sambas, funks, marchas, baião, música pop, rock´n roll ou essa tal de MPB. Seja qual for a filiação estética, estamos de ouvidos prontos, atentos, ativados!

Seja bem vindo ao Escuta Só!

Escuta Só

por Camila de Ávila

Head face

A música – alegria do povo é memória, sons, vozes e palavras

O Brasil é um país continental. São 518 anos de história e mais de 200 milhões de habitantes que pensam, agem, vivem, dançam e cantam de formas distintas. Por vários motivos, o Brasil deve ser entendido de forma bem singular. Somos um país miscigenado, formado por pessoas de diferentes etnias e que aqui chegaram de maneiras e com distintos objetivos. O Brasil é plural e é esse o encanto da nação. Sabe onde melhor se percebe essa pluralidade? Na música. Sim. A música brasileira é uma das mais ricas do mundo. Segundo Francisco Buarque de Hollanda, Chico Buarque, um dos mais importantes intelectuais do Brasil, “a música brasileira não exclui, assimila”. A música brasileira, como a de qualquer lugar do mundo, observa e acompanha o caminhar da sociedade, narra a história do país e é personagem, algumas vezes, principal dessa epopeia tupiniquim.

O que Chico quis dizer com isso é que o povo brasileiro, a seu modo, acolhe e aprende. O samba, como o conhecemos, não nasceu aqui, mas se transformou no que é porque recebeu e assimilou jeitos, sons e ritmos que o fizeram mais rico e nobre. Uma das principais características do samba é o seu otimismo, que é uma qualidade do povo brasileiro. Caetano Veloso e Gilberto Gil afirmam na canção “Desde que o samba é samba” que o “o samba é pai do prazer, o samba é filho da dor, o grande poder transformador”. Sobre esse verso, Sérgio Cabral, jornalista, escritor, compositor e pesquisador, percebeu e publicou em seu livro “Escolas de Samba do Rio de Janeiro” que muitas vezes os temas das canções são tristes, mas são cantados com grande alegria, como já observara o escritor, jornalista, cronista e tradutor João do Rio (1881 – 1921) que disse: “só a alma da turba consegue ligar o sofrimento e o gozo na mesma lei de fatalidade”. O samba, que é o ritmo reconhecido como a identidade nacional, é detentor de versos e harmonias que fazem chorar e passar um filme na cabeça de cada indivíduo que conhece um pouco da história do Brasil. São derivados do samba: samba-canção, samba- roque, bossa nova, axé, samba-enredo e samba de roda.

Como uma arte que pretende retratar a sociedade, a música brasileira é também plural. Temos no país múltiplos ritmos, gêneros e maneiras de se fazer música que são reconhecidas e tratadas como genuinamente brasileira (como o Brasil é uma mistura de etnias, cores, sons e culturas, pode-se entender como o genuinamente brasileiro o resultado da mescla de tudo que aqui chegou e ainda vai aterrissar). E “quem um dia irá dizer que não existe razão” nisso?  O nosso rock é muito brasileiro. Raul Seixas que o diga, pois inseriu no ritmo quente que veio dos Estados Unidos, um toque de baião, sem retirar o cerne do rock, mas o tornando um ritmo com um tempero brasileiro. O BRock, o rock nacional, apresenta características percussivas muito nossas. Além disso, nos anos 1980, o gênero ajudou a questionar, argumentar e dar voz a um grupo da sociedade que queria dizer que estava sem partido e com ilusões perdidas depois de anos de uma ditadura e uma abertura política um tanto quanto confusa.

Foi durante a ditadura que a música brasileira ganhou status de personagem. Os inesquecíveis festivais da canção, que foram a coqueluche dos anos 1960, 1970 e 1980, regeram o tom e o ritmo do país. Foi por causa desses eventos musicais que foi cunhada a sigla MPB, em letras maiúsculas, para definir a canção feita para esses concursos. Cheias de força, ideias e pensamentos críticos ou alienados, as canções dos festivais fizeram a história do Brasil. Contestavam, protestavam, denunciavam e narravam (ou não e até assim estava dizendo algo) os fatos do momento político, econômico e comportamental do país. Foi nesse período que a canção se mostrou tão forte, tão precisa e presente na vida da sociedade e na história do Brasil. As estudadas e ainda tão queridas e recorridas canções de protesto, que embalam hoje muitos momentos de luta do Brasil (porque o país voltou a lutar por direitos que acreditava inseridos na sociedade) foram compostas nesses anos de festivais. A música sofreu a mais pujante violência: a censura.

A música brasileira é uma amostra de cada nicho da sociedade tupiniquim. O homem do campo é representado pela sertaneja. Que até os anos 1970 era rústica, até que nela foi inserida a guitarra. Falava do homem do campo, das questões que o rodeava, depois começou a falar dos problemas do coração. A partir dos anos 2000, a música sertaneja modernizou e ganhou um timbre pop passando a se chamar “universitária”. Mas pode ser denominado como sertanejo pop, pois é a mescla dessa música pop com o arrocha (outra “criação” nacional) e elementos do funk carioca. As letras deixaram de falar do amor romântico e das questões do sertão e do campo, mas de balada, “pegação”, bebedeira, traição e farra. A entrada das duplas femininas, com canções de letra bem feministas, também é uma característica da sociedade e da sua evolução.

Atualmente um dos mais comentados e perseguidos ritmos nacionais é o funk carioca. O ritmo nasceu nos anos 1960 nos Estados Unidos, e é união do soul, jazz e rhythm and blues (R&B). No Brasil, o funk ganhou o som de instrumentos e da batida do samba. Outra grande característica do funk são as letras que retratam a realidade da população que o canta e o compõe com mestria. Junto com o funk, há uma forte corrente de rap no país, com “rinhas” dos artistas que o fazem.

EscutaSo1

A música no Brasil é muito importante. Serve como dado documental da história do país. O Brasil não é uma nação de leitores e a música cumpre o papel do livro no que tange contar sua história, a saga de seu povo, suas conquistas, guerras, lutas, cicatrizes e vitórias. O Escuta Só vai falar, cantar, tocar, ouvir e aplicar em você música. Essa expressão da arte aqui é entendida como algo que possui lastro, epopeia, personagem, lugar, cheiro, sentido e cor. É lugar de fala de uma sociedade que a compôs baseada em sua vivência. A música é história, é arte e é expressão de sentimentos. Por meio do nosso espaço, você saberá o que as canções queriam e querem te dizer, lembrar e alertar. A música é alegria e tema de carnaval:

“Vai passar …
Nessa avenida mais um samba popular
Mangueira até parece um céu no chão
É Música vestida de emoção
Com notas e acordes refletiu
Em suas cores o orgulho do Brasil
Nas ondas do Rádio
De norte a sul viajei
Num sonho dourado embarquei
Parece magia!
Vai minha inspiração
Num doce balanço a caminho do mar
Vem me trazer a canção pro mundo se encantar

Tantas emoções na verde-e-rosa
Brilham as estrelas imortais
Bate outra vez uma saudade
Lembro dos antigos festivais

Um verso me levou
Do Rock a Jovem Guarda
Fui caminhando e cantando ao luar
Com a Tropicália no olhar
Atrás do trio eu quero ver
O baile começar, e a noite adormecer
O sol nascerá, as cortinas irão se fechar
Folhas secas virão e o show vai continuar!

Meu coração é verde-e-rosa
Descendo o morro eu vou
A música alegria do povo
Chegou a Mangueira chegou”