Por Camila de Ávila
Sancionada em 28 de agosto de 1979, a Lei da Anistia beneficiou mais de 100 presos políticos, concedeu para 150 banidos do Brasil o retorno seguro e permitiu que 2000 exilados fossem repatriados. Na chegada ao país, os aeroportos colocavam em alto e bom som a canção “O bêbado e a equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc, em seus megafones na voz de Elis Regina, como foi dito no texto deste blog, Escuta Só, intitulado “Amor: um sentimento de anistia”. No fim dos anos 1970 e início dos anos 1980, a canção falou sobre muita coisa. A volta para casa e a capacidade de novamente ser um indivíduo livre estava nas letras das músicas e, além de lembrar de manchas torturadas, começaram a tratar de esperança. O jornalista Arthur Xexéu, em texto publicado no livro “MPB – A Alma do Brasil”, com organização de Ricardo Cravo Albin, afirma que “a música brasileira tornou-se a trilha sonora dos que sonhavam com a volta dos exilados e com a chegada de tempos mais amenos”.

O disco “Journey to Dawn”, lançado em 1979, por Milton Nascimento trazia em seu repertório algumas canções muito fortes. As três versões de Pablo (lembrando que este é o nome do filho de Bituca, que foi criado longe do pai devido a ameaças dos tempos bicudos. Milton falou sobre esse fato no quadro “O que vi da vida” do dominical Fantástico), Maria Maria e “Unecounter – Canção da América”, parceria com Fernando Brant. “Canção da América”, como é mais conhecida, foi escrita para o amigo sul-africano de Milton, o produtor musical Ricky Fataar. Bituca fez a letra em inglês e Fernando Brant em português. Considerada um hino para a amizade, a canção fala de exílio.
“Mas quem cantava chorou
Ao ver seu amigo partir
Mas quem ficou no pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou”.
A música narra a despedida de amigos, da tristeza da partida, do sofrimento da separação. Mas deixa claro a esperança do reencontro em data, sem previsão, mas que vai acontecer.
“Qualquer dia, amigo
Eu volto a te encontrar
Qualquer dia, amigo
A gente vai se encontrar”
Bituca escreveu a canção para este amigo que o fez sentir em casa quando estava gravando “Journey to Dawn”, em Los Angeles. O artista carioca mais mineiro que se pode conhecer diz que em Los Angeles as pessoas são frias e Ricky Fataar tinha o aconchego nos braços. Mas, depois ele sumiu e Milton perdeu o contato com o produtor. Parece que Bituca não fez a música pensando em anistia, ditadura ou questões políticas. Mas a canção coube como uma luva para o momento, afinal de contas, os amigos estavam voltando. Mas, apesar de ser comemorada como um golpe contra o regime militar, a Lei da Anistia também serviu aos interesses do governo, pois impediu que oficiais militares fossem levados a julgamento por crimes de tortura e mortes.
Foi em 1979, que Chico Buarque lançou o disco Vida. A canção título do LP mostra o questionamento de um indivíduo que deseja mais da vida, mas entende que o que foi feito até aquele momento foi importante. A felicidade tão buscada pode estar ao lado, ou até já foi reconhecida em tempos de luta.
“Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Toquei na ferida
Nos nervos, nos fios
Nos olhos dos homens
De olhos sombrios
Mas, vida, ali
Eu sei que fui feliz”

Outro ponto dessa canção é que se reconhece que é preciso se recolher para ir mais longe. “(…)Nem que todos os barcos/Recolham ao cais(…)”. Está nesse disco também a canção “Fantasia”, que tempos depois foi inserida no compacto Terra, que vinha no livro de mesmo nome do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, com prefácio do escritor português José Saramago, em 1997. A música é carregada de esperança de voltar a ser alguém com liberdade para de fato ser na rua, na praça, sem esconder.
“Canta a canção do gozo
Canta a canção da graça
Canta mais
Preparando a tinta
Enfeitando a praça”.

Apresentando novos compositores, como era o costume, Elis Regina lançou no disco de 1980, intitulado “Elis”, a música “Nova Estação”, do carioca Thomas Roth e do mineiro Luiz Guedes (1949-1997). Já com o sentimento de renovação no título, a letra da música fala do despertar da esperança sem deixar de esquecer o que foi sentido e sofrido e que ainda estava rondando. A canção plantava nos ouvidos da população o desejo de querer ver a luz da manhã.
“Despertar sem medo
Enganar a dor
Disfarçar essa mágoa
Que anda solta no ar
Ter que acreditar
No regresso da estação
Como o sol volta a brilhar
Com as chuvas de verão”.
“Mas como perdoar a quem não cometeu falta ou delito, e, não os cometendo, foi castigado? Se teu nome é perdão, deve este ser pedido às vítimas da injustiça e o arbítrio? Em vez de compaixão, neste caso, a anistia precisava ser um ato de arrependimento seguido de reconhecimento público e proclamação da justiça. O perdão cabe ao ofendido. E há muitos ofendidos e humilhados que, sem culpa, tiveram de pagar pelo crime que não perpetraram”, diz o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902 -1987) em texto publicado no Jornal do Brasil em 1979, e lido por Maria Bethânia no show do repertório do disco “Álibi” (mencionado nos textos do Escuta Só “Deixe-o...” e “Amor: um sentimento de anistia”). O que estava acontecendo nas letras das canções populares do período era que a música estava se enchendo de esperança e desejando
“Semear a terra
Certo de colher
Da semente, o fruto
Depois descansar”.








