Por Camila de Ávila
“A cena foi uma pancada no meu coração. A emoção tomou conta de mim e as lágrimas correram meu rosto. A música tinha tomado outra conotação a partir dali. Virava o hino dos exilados. É assim que é vista hoje, pra meu regozijo. E é assim que pensam que ela foi feita, para a minha satisfação. O que mostra que o destino das canções não está em nossas mãos. Elas são o que elas quiserem ser, acima dos motivos porque foram feitas.” Essas palavras são do compositor Paulo César Pinheiro, se referindo a como a canção “Tô Voltando” (escute aqui) teve seu entendimento alterado de forma espontânea pela população, em 1979.
A história da música é bem diferente. Na segunda metade da década de 1970, foi realizado no Rio de Janeiro o Projeto Pixinguinha em que João Nogueira, Sérgio Cabral e Maurício Tapajós cantavam e bebiam no palco contando histórias de algumas canções da música brasileira. O projeto deu tão certo que viajou para outras capitais, especialmente as do Nordeste do país. Acontece que eles ficavam muito tempo fora e em determinado momento a saudade de casa bate e este “banzo” acometeu Maurício Tapajós. Quando enfim a turnê estava acabando, começou a dedilhar no violão uns acordes e cantava a frase “Tô voltando”. Ele ligou para Paulo César Pinheiro, mostrou o esboço da canção e disse: “O que você acha parceiro?”. Paulo respondeu: “Acho ótimo, gordo. Tô indo para aí. Ainda aguenta mais um uísque?”. A letra saiu fácil, pois o sentimento de saudade também já havia sido sentido por Pinheiro. A canção virou propaganda de cerveja, de refrigerante, de futebol e de carro. A primeira e mais famosa versão da canção está nos disco “Pedaços”, da cantora Simone, lançado em 1979.

Hora da história
Em 1979, depois de longo período de uma severa ditadura em que a liberdade de pensamento foi tolhida e cerca de dez mil brasileiros foram exilados, especialmente em 1968, quando foi decretado do Ato Institucional nº 5 (AI5), e muitos artistas, jornalistas e intelectuais foram perseguidos, presos, torturados e mortos, o então presidente do país, o último militar, João Figueiredo, subiu ao poder com a luta pela anistia nas ruas. Em 1978, já haviam sido criados os Comitês Brasileiros de Anistia e o desejo era de uma anistia ampla, geral e irrestrita (que se tornou o lema da manifestação cunhado pelo jurista Aloysio Tavares Picanço (1922-2015) quando votou a favor do parecer elaborado pela OAB pela anistia política). Rapidamente, a expressão ganhou as ruas, cartazes e faixas.. Figueiredo implantou a abertura lenta e gradual. Na luta pela volta dos exilados estavam mulheres e homens, estudantes, intelectuais, religiosos, trabalhadores das fábricas e do campo, artistas, advogados, familiares e amigos de pessoas vítimas de perseguição por motivos políticos. Foram organizadas manifestações públicas, debates, distribuição de panfletos, cartazes, abaixo-assinados, lançamento de livros e visitas aos presos políticos. É claro que as canções não estariam de fora dessa luta. Uma parte do meio artístico mobilizou-se no período, a poeta Ana Cristina Cesar (1952-1983), a Ana C. escreveu. “Você sabe que o país está começando a se sacudir, há manifestações pelo menos estudantis nas capitais, apoio escrito e professores, MDB, mães de pessoas. (…) Mal ou bem estou lá, me cagando de medo”.
A primeira canção
Uma das primeiras canções que tocou no assunto de exílio foi a vencedora e vaiada no Festival da Canção de 1968, “Sabiá” (escute aqui), de Chico Buarque e Tom Jobim (1927-1994). Numa clara inspiração no poema “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias (1823 – 1864), os compositores já externavam o desejo da volta para casa, que seria uma sociedade justa. Lembrando que Chico se autoexilou na Itália em 1969, depois de ter sido ameaçado e persuadido na polícia por inúmeras vezes.
Nesse período da história brasileira, as canções eram como personagens. Como não se podia falar o que queria e não havia a liberdade de expressão, os artistas (como ainda ocorre, já que até o artista plástico chinês Ai Weiwei afirma “Tudo é arte. Tudo é política”), falavam pelo povo, ou não. Já que, como já falado no início do texto, a população se apropriava da obra dando-lhe nova conotação. A música “Sonho meu” (escute aqui) de Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho, é outro exemplo. Quando diz: “Vai buscar quem mora longe, sonho meu…”. A música foi gravada em 1979 por Maria Bethânia e Gal Costa no disco Álibi.
O exílio atual
Recentemente, o deputado federal do PSOL Rio de Janeiro e ativista da causa LGBT Jean Wyllys se exilou em país não divulgado. O político estava recebendo ameaças contra sua integridade física, sua vida e contra seus familiares. E essa violência se tornou mais intensa depois do assassinato ainda não resolvido de Marielle Franco, vereadora do PSOL do Rio de Janeiro, também ativista da causa LGTB e uma exímia lutadora em prol das minorias. Em dezembro de 2018, a antropóloga e professora da UNB Débora Diniz também foi forçada a deixar o país para se proteger contra ameaças de morte devido às suas ideias de igualdade de gêneros e descriminalização do aborto.
Parabéns… pelo texto e pela coragem em enfrentar tempos e opiniões tão bicudos quanto Aqueles!!!
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