Amor: um sentimento de anistia.
Por Ricardo Frei

Foi com a voz potente e já consagrada de Elis Regina, distribuída em seu álbum Elis, Essa Mulher (1979), que a canção O Bêbado e a Equilibrista se transformou numa ode à anistia política no país. Alçada à condição de hino, a canção é assinada por João Bosco e Aldir Blanc, que nunca esconderam a proposta inicial do samba: homenagear Chaplin e seu mais contundente personagem, Carlitos. João havia elaborado harmonia e linha melódica que citava e comentava a canção Smile. Aldir, após encontro com Chico Mário e Henfil, tocado com a condição de Betinho, irmão exilado daqueles dois, costurou a homenagem original ao mote da anistia. O Bêbado, enlutado e zonzo de tanta noite e dor, se enlaça com a Esperança, que procura ficar aprumada numa corda bamba política pela qual desfila os desejos de liberdade.

Vinil Elis, Essa Mulher – Acervo IMMUB.
De fato, o Bêbado e a Equilibrista, desde então, foi conduzida ao posto de samba primeiro daquele enredo possível e almejado. Merece mais do que os ligeiros comentários dessas mínimas linhas. Outras canções, porém, cederam seu tecido sonoro ao tempo e carregaram vozes que por distintas formas de dizer, disseram também sobre a anistia. Uma particularmente chamou-nos atenção por ter sido calada.
Em pesquisa sobre canções que lidaram com o tempo e com o tema, deparamo-nos com um repositório documental que se constitui como um espaço de referência histórica: o site Documentos Revelados. Ao vasculhar seu acervo nos deparamos com a letra censurada de uma canção que falava diretamente do movimento de anistia. Contrariando espíritos afoitos que apostariam na autoria da canção como sendo de Chico, Caetano, Gonzaguinha ou outro autor identificado e marcado pelo cerco dos censores, Anistia, Uma questão de Amor foi censurada e, digo, trazia em sua designação de autoria o seguinte compositor: Tim Maia.
Tim, naqueles idos, já havia deixado sua fase Racional para trás e acabado de lançar um de seus principais álbuns, o Tim Maia Disco Club, sucesso de 1978. Em 1979, o artistas submete a canção Anistia aos censores, que prontamente propõem o veto. Segundo a argumentação do Serviço de Censura de Diversões Públicas, a obra estaria vetada por ser “um apelo a favor da anistia” e por apresentar “os punidos” como “seres indefesos”. Ainda, por tratar o ato punitivo como “valentia demodê”, como arbitrariedade, enquanto os exilados “seriam seres injustiçados”, o que poderia tornar a sociedade sensível àqueles “subversivos”.
A letra de Tim Maia pede liberdade e justiça aos “irmãos” expulsos de seu lugar. Aponta para fragilidade da estrutura ditatorial, há muito abalada. Pede que se deixe o egoísmo no fundo do abismo. Tece um panfleto poético contundente, sem refrão, a favor da paz, que se encerra na seguinte frase: “anistia já foi dito é questão de amor”.

Letra da Canção * 
Parecer do órgão censor *
E não é a única canção de 1979 que relaciona amor e liberdade. Outras duas gravações também o fazem a sua maneira. Canções de grande sucesso e importância para os estertores da década de 1970 que vieram do universo do samba. Uma delas, composta por um dos sambistas mais censurados daquele período. Ney Lopes teve quase 80 músicas censuradas, seja por crivo político ou moral. É de sua lavra, combinada à do parceiro Wilson Moreira, o sucesso Senhora Liberdade, samba que projetou a carreira de Zezé Mota como cantora. São vários os trechos que podem, por força de interpretação, dado as contingências históricas, deixar-nos compreender que o amor e seus sentimentos correlatos se tornam palavras prontas para serem ocupadas por reivindicações, pelo próprio sentimento que pairava pelos ares de 1979:
Abre as asas sobre mim
Oh! Senhora liberdade
Eu fui condenado
Sem merecimento
Por um sentimento
Por uma paixão
Não vou passar por inocente
Mas já sofri terrivelmente
Por caridade
Ó liberdade
Abre as asas sobre mim
Outro samba que faz coro responsivo ao tema e ao campo sensível das canções acima é Sonho Meu. Composta por Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho foi premiada como melhor música do ano de 79. As vozes de Bethânia e Gal levaram a canção para o rádio, dando visibilidade ao samba, fazendo com que ele ecoasse para além do universo restrito do subúrbio carioca. Em sua face poética, revela que o tal sonho, dotado de sua liberdade de cruzar espaço e tempo, manda buscar “quem mora longe”. A noite, a madrugada fria, tão relacionada aos tempos sombrios de ditadura, traz a melancolia e as mágoas de amor. A boca do vento, contudo, faz dançar as flores, mas também sonhar um sonho que devolve ao seu lugar aquele que se encontra distante e apartado de suas paixões.
Sonho meu, sonho meu
Vai buscar que mora longe
Sonho meu
Vai mostrar esta saudade
Sonho meu
Com a sua liberdade
Sonho meu
No meu céu a estrela guia se perdeu
A madrugada fria só me traz melancolia
Sonho meu
Sinto o canto da noite
Na boca do vento
Fazer a dança das flores
No meu pensamento
Traz a pureza de um samba
Sentido, marcado de mágoas de amor
Um samba que mexe o corpo da gente
E o vento vadio embalando a flor
Sonho meu

É claro que se faz aqui um exercício interpretativo, que alude à capacidade que as canções, em sua existência autônoma, em sua face aberta aos sentidos e fruições, têm de enredar a história, de se apropriar e ser apropriada por leituras e apetites instalados em quem a escuta e canta. E isso nos autoriza fazer as relações, deduções e inferências acima. Mais! Entende-se que a canção brasileira estabelece um foro de discussão pública, uma espécie de Ágora melódica, onde sua trama musical e poética convoca e estimula outras canções ao diálogo. A professora e pesquisadora Heloísa Starling, ao pensar a relação entre a canção e a vida republicana no Brasil, afirma que o cancioneiro popular “reflete muito bem a dimensão do mundo público, expressa os sentimentos que transitam do espaço privado para o espaço público”. Afirma também que “toda vez que a gente fala da canção popular brasileira moderna, sempre vai encontrar dentro dela aquilo que está sendo gestado na rua.” A rua pedia por amor, por caridade, de um jeito esperançoso, a volta dos tempos solares, dos tempos regidos por uma senhora liberdade.
Escute as canções aqui:
Senhora Liberdade: https://www.youtube.com/watch?v=3Cl1cBnnHqk
Sonho Meu: https://www.youtube.com/watch?v=KvyQNKrRKXg