Abertura 75 e outros mais

Por Ricardo Frei

Ao longo dos dois últimos meses nos decidamos a contar a história de uma época, de eventos, que proporcionaram um impulsionamento na produção da canção popular brasileira. Aquilo que Zuza Homem de Mello nomeou como a “Era dos Festivais” ajudou a consolidar ainda mais nossa tradição cancional, além de criar um dos enquadramentos mais importantes de nossa história musical: a MPB. A fórmula compositor popular + TV + plateia ficou consagrada. Por ser uma fórmula de sucesso, perdurou. Foram várias as tentativas que recorreriam ao prestígio daqueles certames para construir audiência midiática e, claro, carreiras. Nestes últimos conteúdos do mês, faremos uma lista que cita vários outros festivais menos conhecidos, onde se arriscaram grandes artistas da história da música. Foi também por lá que canções consagradas ganharam nossos ouvidos. Vamos lá!

Zé Ketti participou do III Festival Nacional da Música Popular Brasileira, entre junho e agosto de 1968, evento promovido pela TV Excelsior Rio. Sua samba “Você passa, eu acho graça”, dele e de Carlos Imperial estava entre as vencedoras, conquistando o quinto lugar.

O Festival Abertura, promovido pela Rede Globo, entre os meses de janeiro e fevereiro de 1975, contou com a participação de Jards Macalé, Djavan, Carlinhos Vergueiro, Clementina de Jesus, Lecy Brandão, Hermeto Pascoal, Walter Franco, Jorge Mautner, Alceu Valença, Geraldo Filme dentre outros. Os três primeiros lugares ficaram com as canções “Como um ladrão” (Vergueiro), Fato Consumado (Djavan) e Muito Tudo (Walter Franco). Hermeto Pascoal levou o prêmio de melhor arranjo. Clementina, de melhor intérprete.

O I Festival Universitário de Música Popular Brasileira, promovido pela TV Cultura de São Paulo, ocorreu entre os meses de abril e maio de 1979. Entre os participantes do certame estavam: Arrigo Barnabé, o grupo Premeditando o Breque, Mario Aydar, Celso Viáfora.  Arrigo, com sua canção “Diversões Eletrônicas”, faixa número 3 do seu celebrado álbum Clara Crocodilo, ficou com o primeiro lugar, seguido pela composição “Brigando na Lua”, defendida pelo Premê.

O Festiva 79 de Música Popular foi promovido pela TV Tupi e ocorreu entre os meses de novembro e dezembro do ano de 1979. A primeira eliminatória trouxe nomes como Marku Ribas, Diana Pequeno, Moreira da Silva, Jards Macalé, Caetano Veloso e Jorge Ben. Na segunda eliminatória, participaram Alceu Valença, Jackson do Pandeiro, Oswaldo Montenegro, Zé Ramalho, Kleiton e Kledir, Boca Livre, Mário Adnet. Na terceira e última, tivemos Elba Ramalho, Guilherme Arantes, Paulinho Boca de Cantor, Arrigo Barnabé, Dominguinhos, Fagner, dentre os artistas participantes. “Maria Fumaça” (Kleiton e Kledir), “Tira os óculos e recolhe o homem” (Moreira e Jards), “Sabor de Veneno” (Arrigo) foram finalistas. Mas as vencedoras foram “Quem me levará sou eu” (de Dominguinhos, interpretada por Fagner), “Canalha” (Walter Franco) e “Bandolins” (Oswaldo Montenegro). A curiosidade fica por conta da canção “Dona culpa ficou solteira”, de Caetano, interpretada por Jorge Ben, que ficou pelo caminho e sequer classificou para final.

Continua …

Os outros festivais

Por Ricardo Frei

Já tratamos aqui de vários personagens e histórias que marcaram os festivais da canção. Sempre tentamos trazer um outro olhar, uma outra abordagem para uma fase da história da canção brasileira tão conhecida e tão estudada. Falamos de Chico, Caetano, Vandré, Edu, Dori, Nana, Nara, Elis e tantos outros artistas que frequentaram os certames e deram sentido ao que chamamos até hoje de Música Popular Brasileira. Queremos hoje iniciar uma série de postagens que buscam destacar outros festivais e outros nomes que tiveram importância especial para história da nossa música popular. Num espaço como este, que busca construir conteúdos relevantes, que pretende ser um lugar de memória, não poderíamos deixar de fora esses outros festivais.

Em 1967, o segundo FIC (Festival Internacional da Canção), promovido pela TV Globo, ajudou a estruturar a carreira de Milton Nascimento, que classificou três canções de sua autoria: “Travessia”, “Morro Velho” e “Maria, Minha Fé”. Milton já era considerado a grande revelação mesmo antes de iniciado o festival, que sofreu uma espécie de boicote dos principais nomes da MPB, por conta de uma interferência política na escolha das canções. Houve uma debandada como forma de protesto. Assim, o II FIC polarizou as atenções com o Festival da Record, que acolhia os principais nomes dos festivais até então.

Porém, isso não quer dizer que o festival da Globo estivesse totalmente esvaziado de compositores e cantores, então, prestigiados. Além das canções de Milton, contou com a presença de Pixinguinha e Hermínio Bello de Carvalho, com “Fala Baixinho”. Chico Buarque, como convidado especial, também concorreu com “Carolina”. E o baiano Gutemberg Guarabira, junto com os integrantes do grupo Manifesto, fez a plateia se entusiasmar com a canção “Margarida”, a grande vencedora da fase nacional. Ah! O FIC tinha fases nacionais e internacionais. Nesta última, fazia parte do júri nomes como o de Quince Jones e Henri Mancini, por exemplo. “Margarida” ficou em primeiro lugar na fase nacional (e em terceiro na Internacional). “Travessia”, de Milton, ficou em segundo. Chico ficou em terceiro com “Carolina”. E Vinícius de Moraes alcançou o quarto lugar com “Fuga e Antifuga”, dele e de Edino Krieger. A grande vencedora da fase nacional quase não é lembrada, embora seu compositor e intérprete tenha ganhado estrada ao lado, primeiramente, do trio Sá, Rodrix e Guarabira, e, depois, com a famosa dupla Sá e Guarabira. Mas o grande vencedor deste concurso foi mesmo Milton, que além de ter sido o artista mais premiado do festival, viu sua carreira ascender, projetando-se tanto no mercado interno, quanto no estrangeiro, com o lançamento de Courage em 1968.

Mais festivais quase esquecidos … é o que você terá por aqui nas próximas postagens!

MPB

Por Ricardo Frei

Já dissemos aqui no Escuta Só sobre como o acrônimo MPB se efetiva como identificador de um produto artístico e musical na década de 1960. Como é possível perceber, os festivais traziam, sem abreviação, o termo Música Popular Brasileira em seus títulos. Naquele momento, parecia mesmo ser uma tarefa mais simples identificar o que era e o que não era uma música brasileira de cunho popular. Em suma, para ser popular e brasileiro naquele momento, os “árbitros” e estetas recorriam a alguns parâmetros. Para compor o universo da MPB, a canção e os artistas, dentre outras coisas, precisavam deixar evidente sua inspiração nacionalistas diante das influências estrangeiras que invadiam nossos ouvidos. Também era necessário deixar evidente seu vínculo com a produção do universo do samba, tomando como marco fundamental as transformações da década de 1920, e ainda admitir alguns elementos regionalistas (o frevo, as cirandas, o baião) como signo de um olhar integrador das manifestações consideradas como legítimas do povo brasileira. Estava colocado aí o chamado projeto nacional popular. A dificuldade encontrada nas décadas seguintes para identificar o que seria a tal MPB, na verdade, apenas mostra a dinâmica das rotulações e das modificações estéticas/comerciais que qualquer atividade própria de uma cultura experimenta ao longo do processo histórico. O popular, até então, não dizia de uma facilidade de acesso ao conteúdo da obra, nem mesmo a uma espécie de índice de consumo. Ao longo do tempo a MPB se transformou. A pergunta sobre o que define a tal MPB persiste como algo de difícil resposta. Podemos, contudo, dizer que a MPB hoje é uma sigla que carrega consigo a história de triagens e misturas orientadas por um projeto original de se fazer canções. Para se considerar um cantor de MPB não basta rotulações próprias, tags ou autodeclarações (embora tais estratégias sejam legítimas). Cada vez mais, parece que a forma que temos de associar um artista e sua obra ao universo da MPB passa por uma identificação de associações e influências históricas que sejam capazes de incorporar traços das produções que originariamente surgiram com os sambas do início do século XX, foram transformadas pela Bossa Nova, ganharam voz nos certames televisivos da década de 1960, misturaram-se com as coisas daqui e de alhures via Tropicália e, enfim, seguiram em frente. A cada década experimentamos uma nova MPB, que atualiza e garante a importância daquelas canções de festivais como referências necessárias ao vigor da nossa música popular.

O primeiro de Vandré.

Por Ricardo Frei

O primeiro festival da canção de âmbito nacional foi organizado e exibido pela TV Record no ano de 1960. Ganhou o nome de Festa da Música Popular. A vencedora foi “Canção do Pescador”, de autoria de Newton Mendonça. Newton, parceiro de Tom Jobim em clássicos da bossa nova, tal como “Samba de uma nota só”, “Desafinado” e “Meditação”, morrera, aos 33 anos, havia pouco mais de um mês. O certame inaugural quase não é lembrado. Quem retoma o fôlego para consolidação do prestígio dos festivais é a TV Excelsior, que em 1965 lançou o      I Festival Nacional da Música Popular Brasileira da TV Excelsior, cuja vencedora foi nada mais, nada menos que “Arrastão”, canção de Edu Lobo e Vinícius de Moraes, interpretada por Elis Regina. No ano seguinte, o II Festival da TV Excelsior viria a premiar um dos principais cartazes da era dos festivais e, também, um dos mais polêmicos: Geraldo Vandré.

As eliminatórias aconteceram nas cidades de Guarujá (palco do primeiro festival em 1960), Porto Alegre, Recife, Ouro Preto e Ipanema. Foi em Ouro Preto que a cantora Tuca defendeu a canção Porta Estandarte, autoria de Vandré. Classificada para a final ganhou o certame batendo canções de compositores que viriam a se firmar como grandes nomes da MPB. Boa Palavra, de Caetano Veloso, e Cidade Vazia, de Baden Powell, interpretado por Milton Nascimento, por exemplo, ficaram respectivamente em quinto e quarto lugar geral do concurso.

Este foi o primeiro passo para Vandré se tornar uma referência da música brasileira nos anos 1960. Nas palavras de Zuza Homem de Mello: “de todos os participantes do II Festival da Excelsior, quem mais se beneficiou foi inegavelmente Geraldo Vandré. Seu desejo de fazer canções identificadas com os anseios e os valores culturais do povo de seu país passou a ser viável e, principalmente, reconhecido (…) Em suma, Vandré passou a encarnar, por um período, o compositor dos festivais, aquele que dizia o que as torcidas queriam ouvir”. E essa sintonia entre Vandré, festival, público e clima de opinião estava tão bem alinhada que em defesa de Vandré e de uma arte politicamente engajada, o festival, um dia, vaiou Chico Buarque e, imagine, Tom Jobim.

Edu Lobo: o maior “cartaz”.

Por Ricardo Frei

É curioso pensar que, dentre os vários artistas que firmaram seus “cartazes” por meio da participação em festivais, Edu Lobo permaneça como um dos menos conhecidos do público geral. Filho do jornalista e compositor Fernando Lobo, amigo de Vinícius de Moraes, Edu formou-se sob forte influência da bossa nova e das escutas afetivas de uma Recife da infância, onde passava suas férias escolares. Sua carreira profissional se inicia na década de 1960 atrelada em boa medida às peças teatrais e ao movimento politicamente engajado que se colocava como desdobramento dos princípios bossanovísticos. Suas canções fizeram parte da trilha sonora de peças como Arena Conta Zumbi, Os Azeredos Mais os Benevides, Opinião, Deus lhe Pague, Berço do Herói, obras escritas por autores que abertamente militavam contra a ditadura militar. Isso competiu de maneira direta para que Edu entrasse no rol dos músicos politicamente engajados. Foram estes músicos que ocuparam, sobremaneira, o palco dos festivais. E Edu pode ser considerado como um dos personagens mais importantes dessa fase da MPB. Dentre os vários artistas que passaram pelos festivais, Edu Lobo está entre os mais assíduos e importantes, ao lado de Chico e Vandré.  Se somarmos todos os festivais das TVs Excelsior, Globo, Record e Rio, entre 1965 e 1968, auge das competições, apenas o II Festival Nacional de Música Popular Brasileira da TV Record (1966) e o III Festival Internacional da Canção da TV Globo (1968) fizeram as finalíssimas sem contar com uma canção de Edu Lobo. Neste último não foram classificadas para as finais as canções “O Sonho” (Egberto Gismonti) e “Maré Morta” (Edu Lobo e Ruy Guerra), tomadas como injustiçadas pela crítica. Em outras duas oportunidades foi o ganhador da Viola de Ouro: Arrastão (Edu Lobo e Vinícius de Moraes) venceu o I Festival Nacional da Música Popular Brasileira (TV Excelsior, 1965) e Ponteio o III Festival da Música Popular Brasileira (TV Record, 1967). “Memória de Marta Saré” (Edu Lobo e Guarnieri) levou o segundo lugar – júri popular e especializado – no IV Festival da Música Popular Brasileira (TV Record, 1968). E, assim, não seria exagero dizer que Edu foi o maior “cartaz” dos festivais dos anos 1960. Tornou-se ídolo jovem antes mesmo de experimentarmos aquilo que passou à história como a “Chicolatria”. Foi alvo de fofocas, teve a vida invadida por colunistas sociais.  Jornais de época apontavam: “Edu Lobo é o nosso Bob Dylan”. Com uma personalidade forte, e avesso a tudo isso, mudou-se para o exterior para estudar composição e regência. Assim, construiu uma pausa estratégica em sua carreira. Retoma seu prestígio com a produção de trilhas para teatro, formando com Chico Buarque a dupla de compositores, para muitos, perfeita!

Tony e a BR-3

Tony e a BR-3

Por Ricardo Frei

Dos festivais televisivos da década de 1960, surgiu aquilo que chamamos de MPB. Ali estava uma espécie de segunda geração da Bossa Nova, que acrescentou aos elementos estéticos da inovação proposta por João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, pitadas de regionalismos, um punhado de política, outro tanto de aspectos de uma posição crítica nacional-popular. Engana-se quem pensa que não havia ali lugar para manifestações outras que não essas ligadas ao universo do samba e dos regionalismos brasileiros. A própria Tropicália, desde dentro, utilizou os festivais para propor sua forma alegórica e crítica de reinventar a canção, de fazer soar as relíquias do Brasil, recorrendo a sonoridades do pop e do rock internacionais. Depois de uma década de festivais, já no ano de 1970, o V Festival da Canção da TV Globo teve como vencedora a canção “BR-3”. O intérprete: um homem de um metro e noventa e quatro centímetros de altura, cabelo black power, que ocupou o palco com um presença absolutamente contrastante com aquela dos adeptos do recato bossanovístico: Tony Tornado. Sua exuberância também o distinguia dos happenings tropicalistas. Sua voz soava o gospel, o soul e o funk norte americanos. O corpo e seu jeito de dançar (mimetizando James Brown) estavam em absoluta sintonia com o seu gesto vocal. A música havia sido oferecida a Simonal e também a Tim Maia, mas foi depois de escutar Tony como crooner em um inferninho de Copacabana que Tibério Gaspar, um dos autores de “BR-3”, escolheu quem defenderia a canção no palco do festival. Tony saiu vencedor. E uma composição inspirada no soul americano, sem pretensões políticas, foi ovacionada por uma plateia entusiasmada, que dois anos antes vaiara – nada mais, nada menos – que Chico Buarque e Tom Jobim, por entenderem “Sabiá” como uma obra menos politizada do que a “Pra Dizer que Não Falei das Flores” de Vandré. Eram sinais de um tempo fechado que parecia se abrir, ao menos musicalmente, frente às vozes que vinham de longe.

Nova MPB: outro nível de vínculo.

Por Ricardo Frei

A Nova MPB, essa que surge com o no início dos anos 2000, traz algumas particularidades que nos ajuda a compreender por que tipo de renovação a MPB, aquela surgida nos 60´s, anda experimentando. Um traço fundamental é que o mainstream já não figura como o grande responsável por alavancar aquelas carreiras. É pela via independente, inspirados, sobretudo, na forma como a chamada vanguarda paulista se consolidou no fim dos anos 1970, que essa geração se lança. Rômulo Fróes, espécie de porta-voz não oficial da Nova MPB, diz em várias entrevistas que ser independente é um traço mais importante para aqueles músicos do que qualquer referência estética. Não que ela inexista. Ela aparece em outro traço marcante da obra destes novos emepebistas: o diálogo criativo com a tradição da música popular. E este diálogo se dá muito francamente não apenas com a vanguarda já citada, mas também com o gesto tropicalista original. Isso que pode ser francamente percebido nas regravações, na composição de repertório, tal como na mix de influências musicais que soam nas canções. Além disso, também revelam outro nível de vínculo que extrapola a mera influência. Muitos dos nomes que integram a Nova MPB são filhos de outros nomes consagrados sob o acrônimo em sua versão mais antiga. É o caso, por exemplo, de Dani Black, filho de Tetê Espíndola; Anelis Assumpção, filha de Itamar Assunção; Tulipa Ruiz, filha de Luiz Chagas (Banda Isca de Polícia); Mariana Aydar, filha de Mário Manga (Premê); Tim Bernardes, filho de Maurício Pereira (Os Mulheres Negras) e por aí vai …

Novo renovo.

Por Ricardo Frei

Definir MPB (com maiúsculas) é uma dessas tarefas difíceis. Na tradição da música popular brasileira – este termo que ao ser escrito parece sempre vir com hifens – num determinado momento, o acrônimo foi decisivo para aglutinar aspectos estéticos, comerciais e políticos. Dali em diante, como tradição que se move pelo curso da história, o termo foi, por vezes, ressignificado. Ampliou sua capacidade de suportar tendências, estilos e outras variáveis. Em determinados momentos, quando alguma de suas características de identificação fraquejou, algo apareceu como meneios de novidade e renovação. O frescor de outras condutas e elaborações conseguiram manter a tradição de pé e soando. Na entrada do século XXI, movidos por uma postura independente do mainstream, alinhados com o gesto tropicalista dos anos 1960, e movidos por produções de canções, uma geração de novos artistas, novamente, fora identificada como portadora do renovo da música brasileira. Apresento aqui outra Nova MPB, que não vê a última como antiga ou caduca, mas que se desvencilha de suas amarras para dar sentido, hoje, à tradição: Rômulo Fróes, Filipe Catto, Dani Black, J. Hooker … e mais.

Salve, Jorge!

Por Ricardo Frei

A história da canção brasileira é repleta de casos que desestabilizam (pra nossa sorte) polarizações, trespassam fronteiras, criam porosidades em redutos estéticos e sociais. Hermano Vianna chamou os agentes desse trânsito de mediadores culturais. Entendo que existiram (e ainda existem) várias formas de mediação. E uma delas é aquela que faz mestiçar a nossa tradição da música brasileira de dentro dela. Um caso dos mais exitosos é o de Jorge Ben Jor. O estilo híbrido do artista sintoniza com sua própria história. Filho de um homem carioca ligado aos ritos carnavalescos com uma mãe etíope entendeu o valor das misturas desde cedo. Como artista, encontrou um sotaque para sua guitarra que vai do samba ao rock, passando pela bossa nova. Como cantor, começou atuando em boates e circulando, ainda nos 1960, pelo Beco das Garrafas, reduto bossanovista histórico situado no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro. Ben protagonizou um acirramento de ânimos entre os finos bossanovistas e a turma da Jovem Guarda. Isso ocorreu porque o artista já tinha assinado um contrato para a participação em seis edições do programa o Fino da Bossa. Depois das primeiras aparições, após um convite de Erasmo Carlos, Ben Jor estreou na atração destinada à Jovem Guarda causando irritação e antipatia profunda nas hostes emepebistas. O rock já aparecia na forma de conduzir sua guitarra. E Jorge apenas seguiu sua forma sincrética de estar no mundo. Desfilando simpatia, para animar a festa, transitou pela Bossa, pela Jovem Guarda, pelo tropicalismo e pelo movimento Black Rio, sem nunca deixar de ser um cantor popular brasileiro. Salve Jorge!

A bossa do iê-iê-iê

Por Ricardo Frei

Quando se fala do embate entre Jovem Guarda e MPB, pode parecer que havia um ímpeto das duas partes num enfrentamento estético e comercial. De fato, ao pesquisarmos a história da música popular fica claro que ala “emepebista” mantinha uma disposição muito maior para a contenda. Justifica-se isso o fato de boa parte dos artistas da MPB terem uma relação de desconfiança com produções que não se filiavam à tradição da música brasileira. E, todos sabemos, que a Jovem Guarda se referenciava no rock´n roll, que já havia aportada em terras brasileira ainda na década de 1950, pelas vozes de Nora Ney, Betinho e Cauby Peixoto. Lembremo-nos que a MPB surge de um desdobramento daquilo que fora classificado como Bossa Nova nacionalista: um direcionamento estético e político que via na Bossa Nova influências outras, não brasileiras, que, por isso, tendiam a desvirtua-la. Daí, a prontidão em convocar a estilística da Bossa conjugando-a a ritmos regionalistas, aliados a uma temática popular, nacionalizando de uma vez aquilo que, embora tivesse raízes no samba, estava “contaminado” pela a Influência do Jazz. Contudo, pouco se diz que essa posição dos artistas nacionalistas afastou suas respectivas canções do gesto bossanovista, exatametente por recuperar dramaticidades e eloquências superadas pela arte de João Gilberto e Cia. Pois que em 1966, no apogeu da Jovem Guarda, consagrava-se o ritmo chamado de iê-iê-iê, entendido como um subgênero do rock dos Beatles, mas com mistura de traços do repertório cancional brasileiro. Dentre eles, o coloquialismo e uma forma despojada de canto falado muito próprios da … Bossa Nova. Naquele momento, quando boa parte dos emepebistas bradavam em suas canções, em tom heroico, sua cruzada nacionalista, Roberto Carlos conseguia estar mais próximo de João Gilberto do que de Paul McCartney.