Por Ricardo Frei

Entender a disputa entre Jovem Guarda e O Fino da Bossa, sem querer aqui assinalar se tal disputa era postiça, comercial, estética ou algo que o valha, ajuda-nos a entender um dos acrônimos mais mal compreendidos da cultura brasileira: MPB. Vivia-se um tempo de divisões políticas intensas, que acabavam sendo reproduzidas no campo das artes através de discursos, posturas e embates estéticos. O Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE era um dos instiladores dessa contenda. Ao definir o que era popular e nacional, o CPC, por exclusão, acabava por alinhar tudo aquilo que não cabia nessas duas definições como algo a ser rechaçado pelos artistas e pelo consumo consciente de bens culturais. Isso porque se não era nacional-popular só poderia ser algo importado de culturas outras. Algo que oferecia riscos iminentes à cultura do povo, esta prestes a ser corrompida por uma espécie de invasão estrangeira. No âmbito musical, os artistas que se alinhavam à tradição da música popular brasileira (com minúsculas) renovada pela Bossa Nova, seriam espécie de guardiães desse traço cultural. Enquanto isso, a Jovem Guarda, ao incorporar a estética jovem, rock’n roll, era entendida – por aquilo que Caetano chamou de patrulha ideológica – como o outro lado da moeda (no caso, um dólar!). Os festivais da canção dos anos 1960 foram espaços ocupados, sobretudo, para a divulgação da produção musical nacional-popular (o que não impediu Roberto Carlos, Mutantes, dentre outros de participarem do certame). Ali se celebrava a Moderna Música Popular Brasileira. Os Festivais incorporaram o termo e ajudaram a instituir o acrônimo MPB. Portanto, para falar de MPB (com maiúsculas) precisamos pensar no tempo ao qual estamos nos referindo. A MPB originária foi aquela gestada no Fino da Bossa e apresentada aos corações, ouvidos, olhos e mentes pelas telas de TV. Depois disso, MPB passou a significar coisas diversas. Uma palavra-valise capaz de receber um sem número de significados ao sabor das circunstâncias. Por ora, vamos aqui propor uma leitura para a MPB nos anos 1960: diz sobre a obra daqueles artistas aliados a um projeto nacional-popular de cultura, que se colocavam como herdeiros da Bossa Nova, do samba e dos regionalismos. O resto … era Jovem Guarda.
Ilustrações Sonoras 1: Arrastão (Vencedora do Festival da Canção de 1965)
Ilustração Sonora 2: A Estrada e o Violeiro – de Sidney Miller com Nara Leão (Melhor Letra do Festival de 1967)
Ilustração Sonora 3: Ponteio (Vencedora do Festival da Canção de 1967)





























