Funk du Soleil!

Por Ricardo Fei

Ao dedicarmos todo o mês de março para falarmos das possíveis interseções entre funk e samba, não pretendemos, claro, artificialmente estabelecer relações inexistentes. Passa por um exercício de comparação entre gêneros da canção popular que, de alguma forma, viram-se alçados ao posto de identificadores culturais. Se o samba passou por esse processo durante os anos 1930, sob os auspícios de Vargas, podemos perceber que o funk experimenta algo parecido, mesmo sem apoio estatal algum. A hipótese de que existe algo em comum entre samba e o funk ocasionou experimentos de Djs de bailes importantes nos idos de 1990.


Há ainda quem não tenha se deparado com a força de signo identitário do funk. Duvidam mesmo. Pois bem! Peço licença para trazer um relato. No último fim de semana, o Cirque de Soleil exibiu-se na cidade de Belo Horizonte. O ponto culminante do espetáculo, aquele que lhe deixa sem fôlego, que prepara o encerramento da apresentação, é constituído de várias acrobacias numa parede de escaladas, onde acrobatas voaram, zuniram, levaram a emoção do espectador ao paroxismo sob o som do … funk!

Ouça os funks dos anos 1990: https://youtu.be/Sh-jJ8Jv-aM.


Qual funk? Qual samba?

Por Ricardo Frei

Foi em uma noite, numa boate da capital paulista, durante show de Johnny Alf, que Vinícius de Moraes bradou a frase que o acompanharia pra sempre: “São Paulo é o túmulo do samba”.  De fato, a frase saiu em meio a uma discussão travada entre o poeta e um grupo que dava de ombros para a apresentação do cantor e pianista carioca. O rompante, capturado por um jornalista que ali estava, foi retirado de contexto e publicado nas capas de jornais e revistas no dia seguinte. A reclamação, que havia sido direcionada a uma audiência etilicamente dispersa, passou a ser interpretada como um problema de origem, algo atávico, que comprometeria o gênero ao corromper seu DNA malandro e carioca. E, para reforçar, o problema nunca foi do samba, mas de uma turma específica que incomodou o poeta. Isso instigou uma rivalidade postiça entre sambas e sambistas cariocas e paulistas. Vinícius seguiu se penitenciando do destempero, e os sambas não deixaram de nascer em São Paulo. Pelo contrário, legou-nos artistas do quilate de Geraldo Filme, Adoniran Barbosa (parceiro de Vinícius), Paulo Vanzolini. O samba de São Paulo, naturalmente (ou seria culturalmente?), trazia consigo particularidades. O principal argumento da diferenciação entre os sambas diz respeito às suas origens e espaços de circulação dentro das cidades. Enquanto o samba carioca nasceu no morro, na favela, gestado na Pequena África, sob os auspícios das Tias Baianas, o paulista parece ter surgido na primeira década do século XX, envolvido com as festas das colheitas de café, apontando assim para uma tradição rural que se mistura aos cantos e batuques de trabalho afro-brasileiros. Tem algo de caipira no samba paulista! Ainda, pela própria conformação da cidade, os sambistas de São Paulo viram seus espaços de circulação restringidos numa cidade que assumia a identidade de metrópole, cosmopolita, com foco no trabalho e no progresso. Enquanto isso, o sambista carioca seguiu tempos afora sob os auspícios da malandragem, contando com espaços formais e informais para circular sua melodias e poesias afro-baianas-cariocas.

Há também distinção do funk carioca e do paulista. Distinção existente mais pela incorporação de temáticas e estilos do que qualquer outra coisa (polêmica ou não). Enquanto o funk carioca, em seu percurso histórico, mesmo experimentando alterações importantes na sua estrutura rítmica e lírica, mantém sua estética quase intacta, em São Paulo e Santos surge a primeira vertente do funk fora dos limites carioca. Se no Rio de Janeiro as temáticas sexuais (explícitas ou não) e os Proibidões se destacam nessa história, São Paulo faz surgir o Funk Ostentação. Neles, os cantores não partem de uma experiência ligada ao universo da favela, nem fundamenta sua lírica por meio de erotismo ou do crime, mas flerta com o universo do consumo de bens caros, como carros, relógios, acessórios e roupas de grifes. Bem ao estilo gangsta rap, que se consagrou nos anos 1990 nos Estados Unidos. MC Guimê  e Kondzilla são dois de seus principais nomes. Paulistas e cariocas, contudo, de mãos dadas, vivíssimos, abraçaram igualmente o universo pop para alavancarem audiência, carreiras e cachês sedutores.

BlackSambaFunk

Por Ricardo Frei

Se a gestação do samba aconteceu nos cômodos da Pequena África no Rio de Janeiro, o funk carioca (FC) experimentou a prenhez na cena constituída por bailes que vibravam ao som de hip hop e outro tipo de funk, ambos americanos.  A cena Black dos anos 70, movida a Soul Music, de alguma forma sulcou um caminho que indiretamente nos levaria ao exemplar carioca da década seguinte. Se encontramos Maxixe, Lundu, Modinha no código genético do Samba, encontramos o Miami Bass e toda uma apropriação da cultura musical afroestadunidense associados à origem do funk carioca . Afora serem tributárias de uma ancestralidade africana, samba e funk são cultivados, elaborados e ressignificados nos morros, nas “senzalas” citadinas que o percurso da sociedade brasileira fez surgir.

Nas letras capturadas por melodias e células rítmicas, que variaram ao longo do tempo, as duas tradições oferecem-nos a fala de um lugar semi-interditado, o retrato sonoro de realidades estranhas ao asfalto, um lugar ocupado por vozes que exibem os seus desejos, fantasias, verdades e angústias. O samba já foi alvo de ações que se diziam a favor de uma “assepsia” cultural, francamente preconceituosa e sabotadora. Vingou e transformou-se em signo de resistência, em emblema cultural. Há pouco, numa prestigiada casa legislativa, discutia-se lei de cerceamento ao FC movida por uma espécie de déjà vu “higienista” tresloucado. Vai vendo! E as interseções não param por aí …

Desde que o Samba é Funk …

Coisa de gente pobre, do morro, da favela. Trincheira na luta por visibilidade social. Traços comuns que unem histórias distintas. Sobrevivência, sucessos e ressignificações. Volt Mix, Tamborzão, Beatbox. Maxixe, Partido Alto, do Estácio. Termos e particularidades que marcam as histórias do Funk e do Samba, ambos cariocas. Repressão e preconceitos presentes em investidas, inclusive de ordem legal, contra essas formas populares de criação musical. Os próximos conteúdos do Escuta Só! trazem as aproximações, distanciamentos e possíveis afinidades entre dois dos maiores fenômenos culturais, identitários, musicais expressos por meio de melodia, letra e ritmos poderosos.

ps: a partir da próxima semana, o blog do Escuta Só! passará sua hospedagem para o Medium . Todo o conteúdo postado até aqui também poderá ser acessado lá. Eis nosso futuro novo endereço: https://medium.com/@escutasompb

Cintilâncias futuristas, mudanças à vista.

Por Ricardo Frei

O tempo nos impregna de ideias. Os ventos circulam fazendo esbarrar em nós sua direção e força. Os ânimos nos guiam. E as palavras são capturadas para uso contínuo de um vocabulário de época. Tudo isso compõem a trama literária e musical que “ouviservamos” naqueles tempos de abertura política. Momentos que excederam o ano de 1979. O espírito da época foi cultivado antes e além. Tomando então a canção como testemunha do tempo, podemos dizer de várias temporalidades, de visões distintas, de expressões ora mais densas e dramáticas, ora efusivas e luminosas capazes de se fazerem soar por aí.

Optamos por trazer a este último conteúdo sob o mote da anistia um álbum portador de desejos felizes, brilhantes, que sem ignorar a angustia do exílio, a saudade, a escuridão política prestes a se dissolver em feixes iluminados, quis entregar ao universo fluídos bons, festivos e dançantes.

Gilberto Gil é o responsável por lançar Realce no mundo. O disco é de 1979 e encerra a trilogia “RE”: Refazenda, Refavela e Realce. Ponto de síntese, Realce (escute aqui) exibe o exercício de um compositor que envereda por culturas distintas, processando seus traços e os tornando próprios e particulares.

Já em Refavela, lançado em 1977, Gil se entregou ao movimento de uma geração black inspirada pelo orgulho e poder negros que se amplificava nos Estados Unidos deste a década de 1960. Dois anos mais tarde, tocado pelo desdobramento musical da Soul Music do Norte, Gilberto Gil nos apresenta Realce, disco e canção envolvidos por arranjos e composições afinados com os tempos da discotèque.

Víamos ali um nordestino a ostentar sua história, suas raízes, unidas à espécie de Tecnopop que daria o tom da música praticada ao longo dos anos 1980. A pluralidade escancarada de Gil incentivou leituras apenas festivas e feéricas principalmente do hit que dá nome ao álbum. Contudo, mesmo num momento mutuofágico de consumir e devolver traços culturais diversos a um público que não estava mais restrito às fronteiras brasileiras, Gil não deixou de lado sua postura crítica, mesmo que em forma de Disco Music. É o que revela seu Manifesto Realce:

Realce, uma maneira de dizer
a luz geral.
Denominar o brilho anônimo,
como um salário mínimo
de cintilância
a que todos tivessem direito.

Como a noite de discotèque
após o dia de trabalho.

Realce, uma maneira de dizer
o bem-estar.
Denominar o prazer coletivo,
o êxtase do simples
caminhar contra o vento
de qualquer um.

Como o domingo de futebol
após a semana da fábrica.

Realce, uma maneira de dizer
o Deus louvar.
Denominar o santo sem altar,
como nos templos profanos
dos terminais de trens e aviões,
onde todos estão pra nada,
indo ou vindo para tanta coisa.

Realce, cada um por si,
Deus por todos.

Nas palavras de Gil, a canção Realce é um naco de cintilâncias necessário àqueles que se viam submetidos a uma ordem política e econômica perversa. Um salário mínimo de prazer. E essas prefulgências musicais serviam não apenas como alento, mas também como anúncio otimista de que tempos melhores viriam.  Exilados estavam então não somente políticos, ativistas, intelectuais, artistas, religiosos, mas também o tempo da felicidade, da festa, todos ávidos por uma anistia ampla, geral e irrestrita. E os primeiros anistiados foram os ouvidos, que puderam fruir a atitude, o posicionamento político sem o tom taciturno e austero próprios das canções que pediam liberdade e anistia. Em Realce (disco e canção), estava tudo lá, mas em forma de festa, misturada à fidelidade que Gil ostenta às suas raízes nordestinas. Tem samba? Tem! Tem garota do barbalho também! Tem até superhomem, meninas marinas baianas, negras, rubro-negras, o candomblé, Caymmi e Bob Marley. Tem Bahia, fé, alegria e valentia em seu disco-rebento.

Assim, depois de muita luta, sob várias formas e em diferentes trincheiras, Gil, embalado pelo seu interesse por meditação e filosofia oriental, conclui e declara que agora, uma vez tudo feito, resta-nos confiar na “ação da não ação”:

Não se incomode
o que a gente pode, pode
o que a gente não pode, explodirá
a força é bruta
e a fonte da força é neutra
e de repente a gente poderá

Em Realce, a esperança e a confiança, antes na corda bamba de sombrinha, samba sob a inspiração disco e a benção de um eterno Deus Mu dança.

É ver terminar tanta espera

Por Ricardo Frei

Enfim, aquela gente que partiu num rabo de foguete, começava a voltar. Inclusive, Betinho (1935-1997), o irmão do Henfil (1944-1988), sociólogo e ativista que personificou na trama poética da canção todos aqueles que se viram obrigados a partir. Iluminava-se o insistente breu de uma noite que já durava anos.  Os feixes que amplificavam a claridade incidiam convictos no solo do Brasil e pavimentavam o fim da escuridão democrática.

A paisagem musical daqueles instantes de 1979 fizera soar grandes clássicos. Contudo, a canção, página aberta a confissões e berros, mensageira generosa de inconfidências, estava ali pronta para ter seus elos de melodia e letra acionados por qualquer portador que por ela quisesse dizer.

Foi o que fez Chico Mário (1948-1988), outro dos irmãos de sangue de Henfil e Betinho, ao lançar Terra, seu primeiro disco. Era 1979 e a anistia já se percebia no ar, como aquele cheiro de conversa na beira de fogão que Chico nos faz sinestesicamente sentir com sua canção Exílio:

Adeus, minha terra
Adeus, este chão
Cheiro de conversa, beira de fogão
Roça, vento a casinha, abençoou
Minha vida todinha suas redes
Embalou

 (…)

Adeus, companheiros
De vida neste mundo
Não saio por que quero
Voltarei, me desespero
Se choro, choro mudo
Engolindo o coração
Mas a vida passageira, leva minha aflição.

Neste LP, Chico Mário cantou o exílio, mas também sua redenção. O sonho virtualizado no reencontro poético exibe-se em relatos que nos convidam a participar e comungar um estado de alegria, de euforia. Os dobrados das bandas, signo de uma rigidez marcial, entregavam-se festivos à cidade amanhecida de esperança na canção Bandeiras ao Alto:

A cidade amanheceu
Em festa a banda
Tocava o dobrado
O povo correndo, apaixonado
Sentiam no peito
Coragem e medo.

Bandeiras ao alto é dia
Bandeiras ao alto é hora

Alegria geral,
Pula, grita, fala, chora.

(…)

As canções de Chico Mário talvez não façam parte de um hinário da anistia. Tampouco, encontram-se elencadas no rol das mais tocadas ou repercutidas. O que, claro, não interrompe, nem cala, sua força de missiva melódica.

O mesmo acontece com a obra pouco conhecida de Raul Ellwanger, compositor que teve relativa projeção com sua participação nas finais do festival da canção da TV Excelsior em 1968. De volta ao Brasil no ano de 1979, o cancionista e militante político gaúcho apruma sua estreia no mercado fonográfico com o disco Teimoso e Vivo. No ano seguinte, o LP é relançado para trazer participações de Wagner Tiso, Beto Guedes e de sua conterrânea Elis Regina (1945-1982). O álbum reverbera a angustia, as experiências do homem desterrado, e nos convida vasculhar a vida em exílio daquele recém-anistiado. É um testemunho que exibe as várias faces de uma mesma experiência decorrida tanto no mundo da vida, como em outro quimérico. Ao menos três canções trazem depoimentos importantes que decantam o tema sobre o qual estamos nos debruçando aqui. Teimoso e Vivo também é nome de canção, cuja teima está em vencer e resistir ao tempo, à noite, trazendo consigo a memória daqueles que quedaram no caminho:

Apesar de tudo
Sou teimoso e insisto
Sou teimoso e visto
A pele dos soldados mortos

Neste carrossel de espanto
Que carrego dentro dos olhos
Toco melodias
Que me ressuscitam

E sempre tenho que trocar as velas
Rebentadas ao vento
Com remendos colhidos
Dos violentos trapos do tempo

(…)

Te procuro lá é uma parceria de Ellwanger com o poeta e também militante político, Ferreira Gullar. Longe ficou de ser escutada aos montes. Isso, porém, não cala a voz que diz cantando. Aqui, outra abordagem revela a face de um mesmo degredo, de uma mesma cisma:

Pode mudar de país
Pode mudar de planeta
Pode mudar de nariz
Pode ir pro fundo do mar

Que eu te procuro, eu te procuro
Eu te procuro lá
Eu te procuro, eu te procuro
Eu te procuro lá

A canção O Pequeno Exilado tornou-se o grande destaque do LP. Ela trazia a presença e a voz de Elis Regina e a entregava ao proscênio sonoro da obra. A mesma Elis do Bêbado e a Equilibrista cedia de forma doce, gentil e materna seu gesto de intérprete ao acalanto de um miúdo que viveu o desterro ainda criança.  Uma homenagem de Ellwanger a Charles Metzger, filho de um casal com quem o artista conviveu durante seu exílio na Argentina:

Navegas, navegas, navegas
Lá do outro lado do oceano
Na palma da mão já carregas
Vinte mil léguas de sonhos

Seguindo o teu pai que te leva
A bordo dos teus nove anos
Pequeno exilado sem pátria
Navegas teu barco de engano
Menino crescido sem terra
Teu único plano, o primeiro
É ver terminar tanta espera
É ser cidadão brasileiro

Elis, incidentalmente, aponta a doçura onde soa melancolia e luto. Nina quem escuta, como se os pegasse no colo, embalando-os com a cantiga tão popular de Caymmi:

Boi, boi, boi
Boi da cara preta

Ainda, Elis assume o primeiro plano da interpretação como alguém que sorrindo segura a mão de uma criança e a faz seguir confiante estrada afora sob a certeza de quem conhece a história e o caminho de cor:

Vem cá conhecer nossa história
Malandros, calçadas e festas

Vozes de todos os cantos ocuparam o tecido musical para cantar canções de gritar liberdade na esperança de ver terminar tanta espera, de fazer viajar 20 mil léguas seus sonhos e fé.

Escute aqui as canções:

Exílio – https://www.youtube.com/watch?v=4fHz1yYvOIw

Bandeiras ao alto – https://www.youtube.com/watch?v=RKPL0oHN-A4&t=67s

Teimoso e Vivo – https://www.youtube.com/watch?v=ajgihK3FdgU&feature=youtu.be

O Pequeno Exilado – https://www.youtube.com/watch?v=xPl8UgUOZk4

Te procuro lá – https://www.youtube.com/watch?v=3ixjF8gKN5w

Amor: um sentimento de anistia.

Por Ricardo Frei

Foi com a voz potente e já consagrada de Elis Regina, distribuída em seu álbum Elis, Essa Mulher (1979), que a canção O Bêbado e a Equilibrista se transformou numa ode à anistia política no país. Alçada à condição de hino, a canção é assinada por João Bosco e Aldir Blanc, que nunca esconderam a proposta inicial do samba: homenagear Chaplin e seu mais contundente personagem, Carlitos. João havia elaborado harmonia e linha melódica que citava e comentava a canção Smile.  Aldir, após encontro com Chico Mário e Henfil, tocado com a condição de Betinho, irmão exilado daqueles dois, costurou a homenagem original ao mote da anistia. O Bêbado, enlutado e zonzo de tanta noite e dor, se enlaça com a Esperança, que procura ficar aprumada numa corda bamba política pela qual desfila os desejos de liberdade.


Vinil Elis, Essa Mulher – Acervo IMMUB.

De fato, o Bêbado e a Equilibrista, desde então, foi conduzida ao posto de samba primeiro daquele enredo possível e almejado. Merece mais do que os ligeiros comentários dessas mínimas linhas. Outras canções, porém, cederam seu tecido sonoro ao tempo e carregaram vozes que por distintas formas de dizer, disseram também sobre a anistia. Uma particularmente chamou-nos atenção por ter sido calada.

Em pesquisa sobre canções que lidaram com o tempo e com o tema, deparamo-nos com um repositório documental que se constitui como um espaço de referência histórica: o site Documentos Revelados. Ao vasculhar seu acervo nos deparamos com a letra censurada de uma canção que falava diretamente do movimento de anistia. Contrariando espíritos afoitos que apostariam na autoria da canção como sendo de Chico, Caetano, Gonzaguinha ou outro autor identificado e marcado pelo cerco dos censores, Anistia, Uma questão de Amor foi censurada e, digo, trazia em sua designação de autoria o seguinte compositor: Tim Maia.

Tim, naqueles idos, já havia deixado sua fase Racional para trás e acabado de lançar um de seus principais álbuns, o Tim Maia Disco Club, sucesso de 1978. Em 1979, o artistas submete a canção Anistia aos censores, que prontamente propõem o veto. Segundo a argumentação do Serviço de Censura de Diversões Públicas, a obra estaria vetada por ser “um apelo a favor da anistia” e por apresentar “os punidos” como “seres indefesos”. Ainda, por tratar o ato punitivo como “valentia demodê”, como arbitrariedade, enquanto os exilados “seriam seres injustiçados”, o que poderia tornar a sociedade sensível àqueles “subversivos”.

A letra de Tim Maia pede liberdade e justiça aos “irmãos” expulsos de seu lugar. Aponta para fragilidade da estrutura ditatorial, há muito abalada. Pede que se deixe o egoísmo no fundo do abismo. Tece um panfleto poético contundente, sem refrão, a favor da paz, que se encerra na seguinte frase:  “anistia já foi dito é questão de amor”.

E não é a única canção de 1979 que relaciona amor e liberdade. Outras duas gravações também o fazem a sua maneira. Canções de grande sucesso e importância para os estertores da década de 1970 que vieram do universo do samba. Uma delas, composta por um dos sambistas mais censurados daquele período. Ney Lopes teve quase 80 músicas censuradas, seja por crivo político ou moral. É de sua lavra, combinada à do parceiro Wilson Moreira, o sucesso Senhora Liberdade, samba que projetou a carreira de Zezé Mota como cantora. São vários os trechos que podem, por força de interpretação, dado as contingências históricas, deixar-nos compreender que o amor e seus sentimentos correlatos se tornam palavras prontas para serem ocupadas por reivindicações, pelo próprio sentimento que pairava pelos ares de 1979:

Abre as asas sobre mim
Oh! Senhora liberdade
Eu fui condenado
Sem merecimento
Por um sentimento
Por uma paixão

Não vou passar por inocente
Mas já sofri terrivelmente
Por caridade
Ó liberdade
Abre as asas sobre mim

Outro samba que faz coro responsivo ao tema e ao campo sensível das canções acima é Sonho Meu. Composta por Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho foi premiada como melhor música do ano de 79. As vozes de Bethânia e Gal levaram a canção para o rádio, dando visibilidade ao samba, fazendo com que ele ecoasse para além do universo restrito do subúrbio carioca. Em sua face poética, revela que o tal sonho, dotado de sua liberdade de cruzar espaço e tempo, manda buscar “quem mora longe”. A noite, a madrugada fria, tão relacionada aos tempos sombrios de ditadura, traz a melancolia e as mágoas de amor. A boca do vento, contudo, faz dançar as flores, mas também sonhar um sonho que devolve ao seu lugar aquele que se encontra distante e apartado de suas paixões.

Sonho meu, sonho meu
Vai buscar que mora longe
Sonho meu
Vai mostrar esta saudade

Sonho meu
Com a sua liberdade
Sonho meu
No meu céu a estrela guia se perdeu

A madrugada fria só me traz melancolia
Sonho meu
Sinto o canto da noite
Na boca do vento

Fazer a dança das flores
No meu pensamento
Traz a pureza de um samba
Sentido, marcado de mágoas de amor

Um samba que mexe o corpo da gente
E o vento vadio embalando a flor
Sonho meu

É claro que se faz aqui um exercício interpretativo, que alude à capacidade que as canções, em sua existência autônoma, em sua face aberta aos sentidos e fruições, têm de enredar a história, de se apropriar e ser apropriada por leituras e apetites instalados em quem a escuta e canta. E isso nos autoriza fazer as relações, deduções e inferências acima. Mais! Entende-se que a canção brasileira estabelece um foro de discussão pública, uma espécie de Ágora melódica, onde sua trama musical e poética convoca e estimula outras canções ao diálogo. A professora e pesquisadora Heloísa Starling, ao pensar a relação entre a canção e a vida republicana no Brasil, afirma que o cancioneiro popular “reflete muito bem a dimensão do mundo público, expressa os sentimentos que transitam do espaço privado para o espaço público”. Afirma também que “toda vez que a gente fala da canção popular brasileira moderna, sempre vai encontrar dentro dela aquilo que está sendo gestado na rua.” A rua pedia por amor, por caridade, de um jeito esperançoso, a volta dos tempos solares, dos tempos regidos por uma senhora liberdade.

Escute as canções aqui:

Senhora Liberdade: https://www.youtube.com/watch?v=3Cl1cBnnHqk

Sonho Meu: https://www.youtube.com/watch?v=KvyQNKrRKXg

*https://www.documentosrevelados.com.br/repressao/policia-federal/parecer-da-censura-para-a-musica-de-tim-maia-anistia-uma-questao-de-amor/

Escuta Só!

Por Ricardo Frei


Escuta Só!

Tome este texto como um convite que lhe permitirá vasculhar, pensar, discutir, tatear as superfícies, mas também o que há de mais recôndito nas canções brasileiras. Aqui é um lugar de se fazer soar impressões, de se deixar escutar as vozes que tomam conta das tramas poético-musicais de nossos cancionistas.

Não alimentamos pretensão alguma de desnudar o insólito, o invulgar. O que há é uma vontade de deixar as canções falarem, na certeza de que elas sempre foram ocupadas por confissões, intimidades, debates públicos, por posicionamento político, como espaço pronto para ser ocupado por distintas opiniões, querências, inquietações, desassossegos, anseios, que as transformam em testemunhos particularíssimos em forma de melodia e letra.

Por meio das canções, podemos acessar pensamentos e espaços interditados pelas rinhas sociais, e também dizer de tudo o quanto há em nossa história e cultura. A canção e seus artífices são testemunhas do tempo, da história. São vestígios prenhes de informações, segredos e revelações.

Sambas, funks, marchas, baião, música pop, rock´n roll ou essa tal de MPB. Seja qual for a filiação estética, estamos de ouvidos prontos, atentos, ativados!

Seja bem vindo ao Escuta Só!