Por Ricardo Frei

Se a gestação do samba aconteceu nos cômodos da Pequena África no Rio de Janeiro, o funk carioca (FC) experimentou a prenhez na cena constituída por bailes que vibravam ao som de hip hop e outro tipo de funk, ambos americanos. A cena Black dos anos 70, movida a Soul Music, de alguma forma sulcou um caminho que indiretamente nos levaria ao exemplar carioca da década seguinte. Se encontramos Maxixe, Lundu, Modinha no código genético do Samba, encontramos o Miami Bass e toda uma apropriação da cultura musical afroestadunidense associados à origem do funk carioca . Afora serem tributárias de uma ancestralidade africana, samba e funk são cultivados, elaborados e ressignificados nos morros, nas “senzalas” citadinas que o percurso da sociedade brasileira fez surgir.

Nas letras capturadas por melodias e células rítmicas, que variaram ao longo do tempo, as duas tradições oferecem-nos a fala de um lugar semi-interditado, o retrato sonoro de realidades estranhas ao asfalto, um lugar ocupado por vozes que exibem os seus desejos, fantasias, verdades e angústias. O samba já foi alvo de ações que se diziam a favor de uma “assepsia” cultural, francamente preconceituosa e sabotadora. Vingou e transformou-se em signo de resistência, em emblema cultural. Há pouco, numa prestigiada casa legislativa, discutia-se lei de cerceamento ao FC movida por uma espécie de déjà vu “higienista” tresloucado. Vai vendo! E as interseções não param por aí …
