Por Ricardo Frei

Já dissemos aqui no Escuta Só sobre como o acrônimo MPB se efetiva como identificador de um produto artístico e musical na década de 1960. Como é possível perceber, os festivais traziam, sem abreviação, o termo Música Popular Brasileira em seus títulos. Naquele momento, parecia mesmo ser uma tarefa mais simples identificar o que era e o que não era uma música brasileira de cunho popular. Em suma, para ser popular e brasileiro naquele momento, os “árbitros” e estetas recorriam a alguns parâmetros. Para compor o universo da MPB, a canção e os artistas, dentre outras coisas, precisavam deixar evidente sua inspiração nacionalistas diante das influências estrangeiras que invadiam nossos ouvidos. Também era necessário deixar evidente seu vínculo com a produção do universo do samba, tomando como marco fundamental as transformações da década de 1920, e ainda admitir alguns elementos regionalistas (o frevo, as cirandas, o baião) como signo de um olhar integrador das manifestações consideradas como legítimas do povo brasileira. Estava colocado aí o chamado projeto nacional popular. A dificuldade encontrada nas décadas seguintes para identificar o que seria a tal MPB, na verdade, apenas mostra a dinâmica das rotulações e das modificações estéticas/comerciais que qualquer atividade própria de uma cultura experimenta ao longo do processo histórico. O popular, até então, não dizia de uma facilidade de acesso ao conteúdo da obra, nem mesmo a uma espécie de índice de consumo. Ao longo do tempo a MPB se transformou. A pergunta sobre o que define a tal MPB persiste como algo de difícil resposta. Podemos, contudo, dizer que a MPB hoje é uma sigla que carrega consigo a história de triagens e misturas orientadas por um projeto original de se fazer canções. Para se considerar um cantor de MPB não basta rotulações próprias, tags ou autodeclarações (embora tais estratégias sejam legítimas). Cada vez mais, parece que a forma que temos de associar um artista e sua obra ao universo da MPB passa por uma identificação de associações e influências históricas que sejam capazes de incorporar traços das produções que originariamente surgiram com os sambas do início do século XX, foram transformadas pela Bossa Nova, ganharam voz nos certames televisivos da década de 1960, misturaram-se com as coisas daqui e de alhures via Tropicália e, enfim, seguiram em frente. A cada década experimentamos uma nova MPB, que atualiza e garante a importância daquelas canções de festivais como referências necessárias ao vigor da nossa música popular.