Coisa de pele preta

Porque coisa de preto é coisa muito boa

Por Camila de Ávila

Conhecido como o poeta do samba, Jorge Aragão é, para mim pelo menos, o cara que mais levanta a autoestima do povo preto. E o mais legal disso tudo é que ele usa o ritmo do povo preto, o samba, para fazer isso.  Mara o que? Vilhoso! Mais um dia 20 de novembro está aí. E é ainda necessário lembrar de se ter consciência negra no Brasil (porque a data se refere ao dia da morte de Zumbi dos Palmares). Em 2020, a coisa ficou feia (não vou dizer que ficou preta, porque não uso o famigerado termo). Fomos assassinados na ruas em frente às câmeras. Fomos deixados sem ar por mais de oito minutos. Entraram na nossa casa e fuzilaram nossos filhos. Fomos espancados até a morte em uma grande rede de supermercados. Como sempre. Mas, em 2020, gritamos e dissemos que não aceitaremos.

A #ondanegra que se ergueu com a #BlackLivesMatter (#vidaspretasimportam em bom português) contagiou o mundo e não se pode deixar parar. Como cantou a Estação Primeira de Mangueira no carnaval campeão de 2019 (escute aqui), “na luta é que a gente se encontra”. Lembrando Jorge Aragão, mencionado no início do texto, o exemplo do elevador, utilizado na canção “Identidade” (escute aqui): “Elevador é quase um templo/Exemplo pra minar teu sono/Sai desse compromisso/Não vai no de serviço/Se o social tem dono, não vai”. É isso! Quando se aceita o lugar menor, vai só se diminuindo, e sua vida passa a ter menos valor. Não! Não pode deixar isso acontecer. Preto de alma branca não existe e a pessoa preta não tem que ceder sua vez, seu lugar, seu espaço para ninguém. Por mais que isso é o que foi feito, dito e nos ensinado.

Fizemos isso em toda nossa vida, especialmente na história da construção do Brasil. Mangueira alertou para isso. “Tem sangue retinto pisado atrás do herói emoldurado”. Quem lutou, de fato, foi o preto e o índio, e o nome dessas pessoas de cor e originárias foram sublimadas da história. Assim não dá!

É importante entender como a canção ajuda na construção da identidade de um povo. Sabemos que a música brasileira é muito forte na formação cultural do nosso país. Digo isso porque a canção ocupa, muitas vezes, o lugar de um professor. Graças à música, a história da Revolta da Chibata é presente. Elis Regina imortalizou “O mestre-sala dos mares”, de João Bosco e Aldir Blanc (escute aqui) e não deixa esquecer as “rubras cascatas que jorravam nas costas dos santos entre cantos e chibatas”. Por causa da música, percebemos que o entendimento do lugar que é destinado para o preto é correndo atrás de bola ou fugindo da polícia (“Partido Alto”, de Chico Buarque). Só assim ele vai ser notícia. Ah, não!

Mas é também, com a ajuda da música, que esse espaço está mudando. Cantar traz esperança e afirmação, e o rap (ritmo do preto norte-americano), assim como o samba, tem feito esse trabalho de afirmar a identidade preta. Quando se ouve Djonga, rapper mineiro (que orgulho de saber que esse cara é mineiro), cantar: “Se cada um é um universo/Quem salva uma vida salva um mundo inteiro/Seja protagonista da sua história/Pega a folha e muda o roteiro/Minha gente cruzou o mar a força com mão branca/Cruzei voando com a força da minha palavra”, sabe o que acontece na cabeça do menino preto e pobre? Empoderamento, força, resistência e autoestima. Os versos são da canção “Oto patamá”, de Djonga (escute aqui)

Em uma linda e tocante live no instgaram de outro rapper mineiro, o Flávio Renegado, o jornalista e escritor (fofo) Laurentino Gomes, autor da trilogia de livros que falam da história do Brasil, “1808”, “1822” e “1889”, e do livro “Escravidão”, afirmou que há que se entender que o Brasil é um país racista e que o preconceito que fere a estrutura organizacional é muito forte e sempre velado. Ele disse que há aquela coisa de o branco não dizer palavras ofensivas, porque isso alguns não são capazes, mas na hora de escolher um funcionário, se prefere sempre a pessoa com o tom de pele mais clara. A minha pergunta é: alguém tem dúvida disso?  Já respondo: tem sim. Tem gente que acha que racismo é mimimi. Tem gente que responde a um clube de futebol, que no twitter postou a #vidasnegrasimpostam, com a pergunta: que dia que minha vida branca vai importar?

A questão para os apreciadores do pensamento de Morgan Freeman (que disse que para o racismo deixar de existir é só parar de falar nele), é que nós, pretos, morremos por sermos pretos. Nós somos preteridos (em trabalho, em amizade, em relacionamento romântico) por sermos pretos. Isso não é mimimi. Flávio Renegado e Elza Soares bem explicam em “Negão, negra”, de Flávio Renegado e Gabriel Moura (escute aqui), que “Sempre foi luta/Sempre foi porrada/Contra o racismo estrutural/Barra pesada”.

Então, não é parando de falar que o racismo vai acabar. É falando, gritando a existência desse pensamento pobre que ele vai acabar. Eu acho que não verei o fim do racismo. Mas tenho esperança. Não dá para fugir dessa coisa de pele, como disse Jorge Aragão e Acyr Cruz em “Coisa de Pele” (escute aqui). A força dos nossos tantãs e a excelência do nosso rap não deixam negar que coisa de preto é coisa muito boa!

Os Afro-sambas

De 1966 e de 1995, além da beleza do canto, há a louvação da cultura religiosa preta

Em 1962, o diplomata, poeta, compositor, cantor e crítico de cinema Vinícius de Moraes conheceu o violonista Baden Powell. Estava para nascer uma das mais profícuas e belas parcerias da música brasileira popular, “Os Afro-Sambas” (1966). Nada planejado, o acaso fez com que este encontro, de dois gigantes da música brasileira, se tornasse emblemático e o resultado deste encontro é cantado, gravado, recebe releituras e novas interpretações. Uma das interpretações mais bonitas dos Afro-sambas, e o único disco, além do original, que apresenta todas as canções do álbum de Baden e Vinícius é da cantora Mônica Salmaso e Paulo Belinatti, de 1995. Em tempos de #vidasnegrasimportam, nada melhor que falar de um disco pioneiro no que tange falar das religiões de matriz africana.

Baden e Vinícius em momento de criação

Quando entrou a década de 1960 Vinícius de Moraes ganhou o LP Sambas de Roda e Candomblés da Bahia. Depois de ouvir o disco o poeta sentiu que algo novo estava aparecendo em sua vida, uma nova música, uma nova poesia, uma nova forma de ver a vida, por meio da religião afro-brasileira. O poeta ficou profundamente emocionado com álbum. O Poetinha, apelido de Vinícius, mostrou o disco para o seu parceiro Baden Powell. Em 1962, o violonista vai para Bahia acompanhar a cantora Sylvia Teles numa turnê. Lá ele conhece o capoeirista Canjiquinha que o leva para terreiros, rodas de capoeira e mostra para Baden os cânticos de candomblé com todo seu batuque, sonoridade ímpar e beleza envolvente. Obviamente o virtuose fica fascinado com o que viu e ouviu. E, de acordo com pesquisa do musicólogo Ricardo Cravo Albin, percebe leve semelhança entre o canto dos orixás e o canto gregoriano, que estava estudando.

Quando volta da viagem, Baden procura Vinícius e ambos compõem a canção Berimbau. Ao perceberem que estavam diante de algo interessante, se trancaram por dois meses na casa de Vinícius, e saíram com as oito canções que compõem os Afro-Sambas. Em 1966 os artistas entram em estúdio e é a primeira vez na história da música nacional em que há numa gravação o som de instrumentos típicos de candomblé como atabaques, bongô, agogô e afoxé com outros da música tradicional como flauta, violão, sax, bateria e contrabaixo se unem.

Depois de 29 anos, a cantora paulistana Mônica Salmaso se junta ao violonista Paulo Bellinati e gravam da forma mais simples possível, somente voz e violão, os Afro Sambas de Vinícius e Baden. A ideia de fazer Mônica regravar a obra máxima de Vinícius e Baden juntamente com Bellinati foi do produtor musical Eduardo Gudin. Em texto no encarte do disco o produtor diz, “Quando ouvi Mônica Salmaso pela primeira vez senti que esses Afro-Sambas deveriam ser gravados pela sua voz. Achei que Baden gostaria de ouvir.” O trabalho do violonista Baden ganhou novos arranjos de Bellinati que, de acordo com Gudin, colocou “seu violão perfeito à disposição do universo musical de Baden, que só um violonista poderia entender.”

Ouvir a mesma obra em versões diferentes e tão bonitas faz com que se pergunte: Quem apresenta a versão mais próxima do sentimento que o autor quis passar na canção. O próprio autor, ou o intérprete que percebe algo mais profundo?

O disco de 1966

Sobre o disco de 1966

Este álbum pode ser considerado um novo marco na história da música brasileira pelo fato de fundir elemento da sonoridade africana ao samba. No DVD “Vinícius” de Miguel Faria Jr., o cantor e compositor Edu Lobo afirma que este disco é um desenvolvimento da Bossa Nova, a evolução do estilo criado por João Gilberto e que teve seu advento em 1958.

A cantora e compositora Maria Bethânia, no mesmo filme, “Vinícius”, de Miguel Faria Jr., também ressalta a beleza do encontro de Baden e Vinícius. Ela afirma que pela primeira vez na história da música brasileira se falou de forma clara e profunda de algo que faz parte da vida do brasileiro. “O encontro dele com Baden eu acho que é tão forte como o encontro dele com Tom. Porque foi um outro universo que ele explorou que talvez os dois tinham explorado de maneira mais profunda na nossa música. Porque sempre era uma coisa meio ‘de ladinho’, essa coisa de africano. E eles fizeram para valer, com aquela qualidade insuperável dos dois, o talento.”

A importância deste álbum vai além da música brasileira. O “Afro-Sambas” é importante para a cultura nacional de um modo religioso, já que se tratava de um diplomata, ou seja, um homem de reconhecido intelecto, falando sobre religiões com base africana que até hodiernamente são tratadas com desrespeito, medo e preconceito. Na contra capa do disco de 1966 Vinícius de Moraes, de forma brilhante, percebeu o valor do trabalho e escreveu: “Essas antenas que Baden tem ligadas para a Bahia e, em última instância para a África, permitiram-lhe realizar um novo sincretismo: carioquizar dentro do espírito do samba moderno, o candomblé afro brasileiro dando-lhe ao mesmo tempo uma dimensão mais universal (…) nunca os temas negros de candomblé tinham sido tratados com tanta beleza, profundidade e riqueza rítmica (…) é esta sem dúvida a nova música brasileira e a última resposta que da o Brasil, esmagadora à mediocridade musical em que se atola o mundo. E não digo na vaidade de ser letrista dos mesmos; digo-o em consideração a sua extraordinária qualidade artística, à misteriosa trama que os envolve: um tal encantamento em alguns que não há como sucumbir à sua sedução, partir em direção ao seu patético apelo”.

Em 1990 Baden Powell gravou novamente o álbum “Os Afro-Sambas” acompanhado pelo Quarteto em Cy, mas sem Beth Faria que canta na versão de 1966. Os arranjos originais foram mantidos procurando obter apenas uma melhor qualidade sonora.

Mônica Salmaso e Paulo Bellinatti

Mônica Salmaso e o Afro-samba

No disco gravado por Mônica Salmaso, há somente a voz da cantora, que estava gravando seu primeiro disco, acompanhada do violão de Paulo Bellinati. Os arranjos e a produção também são de Bellinati e o disco foi idealizado por Eduardo Gudim. Este álbum é o único que tem a série das oito canções juntas, além da versão original, e da regravação de Baden em 1990 em homenagem a Vinícius de Moraes.

A ideia de gravar “Os Afro-sambas” surgiu da cabeça do compositor e produtor musical Eduardo Gudim. A produção do disco ficou à cargo de Paulo Bellinati, assim como os novos arranjos, na qual a melodia original de Berimbau foi alterada para ajustar melhor à harmonia com a música Cordão de Ouro, de Paulo Bellinati. Ele também modulou uma quinta abaixo da tonalidade original. Segundo Bellinati o desafio de recriar os afro-sambas foi o de “realçar a linguagem musical de Baden e Vinícius com uma letra contemporânea sem descaracterizar a obra original.”

Os Afro-Sambas de Salmaso e Bellinati se transformou num disco delicado, no qual a interpretação dos artistas é o mais importante. Trata-se, segundo o próprio Bellinati de uma disco “essencial, transparente, sem recursos de play-back nem dobras em multicanal. Violão e voz puros. Um duo em recital,” afirma.

O samba que dá

Por Camila de Ávila

O preto na música brasileira e a dor da escravidão

Graças a Deus está se levantando uma #ondanegra. Isso mesmo. Uma onda negra que tem como objetivo reconhecer o povo preto no seu devido lugar. Seu espaço conquistado com muita luta, suor e sangue (e bota sangue nisso). Mas há um lugar em que o povo preto tem a atenção (além do esporte), na música. Desde muito tempo, a música feita pelo povo preto é a canção que embala o país. O samba e todas as suas derivações, o funk e todas as suas derivações, foram criados pelo povo preto, marginalizado e vítimas de olhares desconfiados, julgamentos precipitados, falta de respeito e balas de fuzis. O povo preto construiu esse país. O povo preto canta e é cantado. Há uma canção que fala muito vem da saga do preto, desde África até aqui. “Yá yá Massemba” , de Roberto Mendes e Capinam.

Gravada no disco Brasileirinho, de Maria Bethânia (escute aqui), lançado em 2003. “Yá yá Massemba” também está no DVD com o repertório do referido disco executado ao vivo. Há uma gravação de Maria Bethânia dividindo o microfone com um dos compositores da música, o santamarense Roberto Mendes. No disco Mama Kalunga (escute aqui), lançado em 2015, de Virgínia Rodrigues, cantora lírica baiana, há um belíssimo registro da referida canção.

Escuta só - Monategem Massemba

A música narra a saga de um negro vindo da África dentro do navio. Esse preto, que canta a canção, diz que a noite é funda, calunga (que pode significar grande mar e espíritos com grande sabedoria. Um preto velho), ou seja, misteriosa. Fala da distância da viagem que traz o balanço do navio como um alentador, algo que batuca e ensina o ritmo da semba, que é um gênero de música e de dança tradicional de Angola, que tem como um dos passos de sua coreografia a umbigada. Durante a viagem, no porão do navio negreiro esse preto é transformado de um homem livre, para um ser escravizado. Quando enfim chega no porto o navio pari os pretos que são obrigados a esquecer a identidade, a religião e o desejo. Mas o coração do preto não é preso. É livre e bate no fundo do cativeiro e faz viver a liberdade por meio do samba que bate fundo no peito.

Outra forma de viver a sua liberdade é por meio da religião. Por aqui, os pretos para continuarem a rezar pelos seus orixás e entidades sagradas os disfarçaram de santos católicos. Os pretos inteligentes, criativos, fortes e espertos criaram um dos mais belos encontros de religiões, o sincretismo. São Jorge é Ogum, Santa Bárbara e Iansã, Sant’Ana é Nanã, Oxumarê é São Bartolomeu, Iemanjá e Nossa Senhora e por aí vai… Na letra da canção, quando fala em iorubá, clama pelos santos: “Kawo kabiecile kawo. Okê arô oke” (Permita-nos olhar para Vossa Alteza Real!” Salve o grande Caçador!”). Na canção o preto também afirma que vai lutar, vai sair da situação, vai “baixar no seu terreiro”. Em português afirma sua admiração pelas forças da natureza que podem ajudar o na luta pela liberdade e no clamor pela justiça: “Epa raio, machado, trovão. Epa justiça de guerreiro”. Importante lembrar que o Grande caçador pode ser Oxossi, que é o deus guerreiro, que carrega o machado.

É importante ressaltar a importância do samba. Para se distanciar da dor, o preto samba. Como afirma Caetano Veloso em sua beleza “Desde que o samba é samba”, “samba é pai do prazer, o samba é filho da dor, o grande poder transformador”. Vinícius de Moraes também afirmou a origem triste do ritmo em “Samba da benção”, quando diz que  “o samba é a tristeza que balança”. No seu refrão, “Yá yá Massemba” ovaciona a força do samba ao mesmo tempo que chora e lava suas dores. “Dor é o lugar mais fundo, o umbigo do mundo, é o fundo do mar” (a dor é o ponto central do mundo). “É oceano sem fim, sem amor, sem irmão. Ê kaô quero ser seu tambor” (Muita dor, solidão e o desejo de ser o instrumento de seu deus).

Roberto Mendes e Capinam ao fim da canção deixam claro que a cor preta é ponto central de início do sofrimento, abriga a dor, e o transforma em samba, que é o ritmo do preto e é a tristeza que balança. Mas a canção não termina triste. O preto não traz a tristeza no seu olhar e nem no seu sorriso que representa a felicidade, como cantou o grupo Fundo de Quintal. A esperança está na vontade da sabedoria e do aprendizado. “Vou aprender e ler. Para ensinar meus camaradas”.

 

 

 

 

Sincretismo na música

Por Camila de Ávila

O Brasil tem em seu cerne a miscigenação. Coisa mais linda que enriquece muito a sua cultura. Uma das mais importante e intensas formas de expressão da miscigenação está no sincretismo religioso, e na música brasileira, especialmente no samba, é que esta característica parece de forma muito clara. A canção Oxossi, de Roque Ferreira, (escute aqui) é o que me vem à cabeça como melhor exemplo. “Na Bahia é São Jorge/ No Rio, São Sebastião/ Oxóssi é quem manda/ Na banda do meu coração”. Mas, há que se lembrar de que as entidades do candomblé ou umbanda não eram cantadas de maneira aberta e clara até o nascimento do, a meu ver, a obra prima de Vinícius e Baden: Os Afro-sambas.

A importância deste álbum, lançado em 1966, vai além da música brasileira. O “Afro-Sambas” é importante para a cultura nacional de um modo religioso, já que se trata de um diplomata, ou seja, um homem de reconhecido intelecto, falando sobre religiões com base africana que até hodiernamente são tratadas com desrespeito, medo e preconceito. Na contra capa do disco de 1966 Vinícius de Moraes, de forma brilhante, percebeu o valor do trabalho e escreveu: “Essas antenas que Baden tem ligadas para a Bahia e, em última instância para a África, permitiram-lhe realizar um novo sincretismo: carioquizar dentro do espírito do samba moderno, o candomblé afro brasileiro dando-lhe ao mesmo tempo uma dimensão mais universal (…) nunca os temas negros de candomblé tinham sido tratados com tanta beleza, profundidade e riqueza rítmica (…) é esta sem dúvida a nova música brasileira e a última resposta que da o Brasil, esmagadora à mediocridade musical em que se atola o mundo. E não digo na vaidade de ser letrista dos mesmos; digo-o em consideração a sua extraordinária qualidade artística, à misteriosa trama que os envolve: um tal encantamento em alguns que não há como sucumbir à sua sedução, partir em direção ao seu patético apelo”.

vinícius e baden

As canções dos Afro-sambas são Canto de Ossanha, Canto de Xangô, Bocochê, Canto de Iemanjá, Tempo de Amor, Canto do caboclo Pedra Petra, Tristeza e Solidão e Lamento de Exu. A gravação foi feita em quatro dias produzido por Roberto Quartin, que era o proprietário da etiqueta Forma, e arranjos do maestro Guerra Peixe. Segundo Luiz Américo este disco é antológico na história da música brasileira. “Gravado nos dias 3, 4, 5 e 6 de janeiro de 1966, o disco conta com a participação do Quarteto em Cy e com um coro misto formado por amadores ligados por amizade aos autores, aliás como bem definiu Vinicius, um “coro da amizade” pois a intenção apesar dos arranjos elaborados, era dar um tratamento simples, despojado e espontâneo a gravação. Nesse coro estão presentes Eliana Sabino, filha do escritor Fernando Sabino, Bety Faria, iniciando sua carreira artística no teatro e na dança, Tereza Drumond, namorada de Baden, Nelita, então esposa de Vinicius, Dr. César Augusto Parga Proença, psiquiatra e o medico Otto Gonçalves Filho”.

Vamos falar mais sobre os Afro-sambas e canções nacionais que apresentam o sincretismo religioso…

Peguem Elis

Por Camila de Ávila

A perseguição da ditadura a Elis se deu logo depois de uma entrevista concedida por ela durante uma turnê pela Europa. Na Holanda, Elis disse que o Brasil estava sendo “governado por gorilas. Sem querer ofender os gorilas, claro”. Depois do fim da turnê Elis voltou ao Brasil e logo foi chamada para depor. Negou tudo.

Para não ser presa e ter paz com seu filho João Marcello, que ainda era uma criança, Elis “aceitou” cantar nos jogos militares, a Olimpíada do Exército em 1972. Por conta disso, o jornal “Os Pasquim” não perdoou a cantora e fez o seu enterro. Esse episódio nunca foi muito explorado, surgiu com força na biografia de Júlio Maria “Nada será como antes” e no filme “Elis”, dirigido por Hugo Prata. A película oferece muito destaque para o episódio e deixa no ar a sensação de que Elis foi duramente perseguida. É importante afirmar que durante a ditadura qualquer artista da chamada mpb era perseguido e vigiado. Porém, todas as análises que já li sobre a vida de Elis, mostram que a cantora foi uma voz importante na luta, mas não uma cantora engajada de forma intensa (talvez até por medo). Longe de ser uma mulher alienada, acho que isso nem cabia na personalidade da Pimentinha, mas parece que vivia sua vida sem muitas aventuras políticas. Vejo Elis entrando na luta contra o regime, de forma mais intensa, quando gravou “O bêbado e a equilibrista”, de Aldir Blanc e João Bosco, em 1979. O que me parece é que ela preferia cantar canções com críticas mais veladas, não tão claras e objetivas, mas sem deixar de criticar e contestar o regime. De 1977, “Cartomante” (escute aqui), de Ivan Lins e Victor Martins, é uma canção que exemplifica claramente a forma “velada” (só os imbecis da censura que não sacavam) de se botar a boca no mundo.

Enterro De Elis Pasquim

Mas Elis já foi censurada. Em sua última entrevista, concedida para o programa “Jogo da verdade”, da TV Cultura, em 5 de janeiro de 1982, 14 dias antes de sua morte, Zuza Homem de Mello perguntou se ela teve alguma música que queria gravar e não pode, ou que estava gravada e teve de ser retirada. Ela respondeu: “Muitas. Não só isso, porque daria certo trabalho aos departamentos jurídicos das gravadoras. Como canções retiradas do disco por motivos de força maior e alheios completamente à vontade, digamos: motivos de censura, falemos mais claramente. Quer dizer: um certo tipo de comportamento foi imposto, né? Importado ou implantado, não vem ao caso. Auxiliado por esse esquema e por ene outras coisas, e por um outro tipo de preocupação momentânea que a gente tinha, como reconquista de uma série de coisas perdidas e que das quais a gente fazia muito caso, que eram muito importantes para gente que fossem mantidas ou que as recuperássemos. Essa manutenção da música mais ao acesso da população, essa coisa se diluiu um pouco, na realidade de distanciou um pouco do grande público, que na realidade não tem o mesmo tipo de preocupação que nós tínhamos numa certa hora de rever nosso amigos, de reter nossos amigos, de brigar por uma série de coisas que nós julgávamos importante. Nós éramos de uma outra geração que foi criada em função dessas coisas todas e nos sentíamos castrados porque não tínhamos essas coisas todas e tínhamos que brigar para que elas voltassem. Era importante essa briga pra gente. Isso fez de uma certa forma que a gente se afastasse de uma linguagem mais clara, até porque ela não podia, em hipótese alguma, ser usada. Então a gente ficou usando meias palavras, ficou andando por cima de bêbado e de equilibrista”.

A luta pela classe e a defesa do intérprete

Por Camila de Ávila

O que é muito forte em Elis, e isto aparece em todos os relatos sobre a sua vida que já li, era a sua preocupação com classe musical. A cantora sempre se preocupou com as formas de reconhecimento e pagamento de seus músicos. Em 1978, Elis criou a Associação de Músicos e Intérpretes (ASSIM). Elis observava a injustiça que acontecia em detrimento aos direitos dos músicos. Muitas vezes, ao gravar discos, os instrumentistas eram obrigados a abrir mão de seus direitos na autoria das gravações. Elis compreendia que a indústria fonográfica, preocupada demais com o lucro, esqueceu de cuidar e celebrar o fazer artístico, deixando de entender que o produto é o artista e não a bolacha de acetato. No início de 1982, apenas 14 dias antes de sua morte, a cantora já percebia e defendia o trabalho do intérprete.

Elis em entrevisa 3

Elis era uma lutadora pela liberdade criativa dos músicos e, por isso rompeu com a indústria fonográfica. Na entrevista, mencionada no parágrafo anterior, para o programa Jogo da Verdade, da TV Cultura, o jornalista Maurício Kubrusly, perguntou sobre a relação das gravadoras com os artistas em sua trajetória artística. “Eu acho que hoje é mais difícil se fazer um disco. Porque a prepotência ganhou outros nomes. Ganhou o nome de marketing, ganhou o nome de merchandising, ganhou nomes ingleses, quando na realidade o que existe é prepotência e exacerbação”, respondeu Elis. Ela questionava sobre o real entendimento desses homens de negócios sobre o fazer musical. “Quer dizer: são pessoas que ficam sentadas em seus escritórios vivendo de coletânea de dados que se são imperfeitas para ‘ene’ áreas, imagina para a área da sensibilidade”, explicou.

Elis na entrevista
A cantora fez duras críticas à indústria da música no início da década de 1980, apontando para a falta de respeito para com o trabalho do artista, que conhece de verdade o público e trabalha com a criatividade e sensibilidade. Elis afirma que há do detrimento do fazer artístico em relação ao lucro pelo lucro. “Quando na realidade, a gente que tá em contato com o público, diariamente, a gente sabe até que ponto o público tá saturado de um determinado tipo de música, quando tá carente de outro tipo de música. E as pessoas, me parecem que primam pela necessidade do círculo do elefantinho, quer dizer: o elefantinho segura com a tromba o rabo do elefantinho que está na frente, e assim vai até fechar o circuluzinho dos elefantinhos. Não existe muita preocupação com criatividade, porque cifrão não é uma coisa que se cria do dia para o outro. Cifrão existe desde assírios, babylônios e etc e tal. O cifrão é o mesmo, muda só a caligrafia, por exemplo aqui é CR, no outro lugar é US mas o S é sempre cortado. E na realidade o que as gravadoras querem é sempre o S cortado, é o produto final desse troço todo”, atesta a artista.

A falta de conhecimento das gravadoras para com o real produto também foi mostrado por Elis nessa resposta a Maurício Kubrusly. “Inclusive existe uma inversão, quer dizer: as gravadoras pensam que o seu produto é o disco, que se não tiver o artista é uma bolacha preta com um furo dentro, no centro. Você coloca na vitrola, um disco sem um artista dentro, não tem nada, não tem nem som. E por mais estranho que seja o som, é produzido pela verdadeira mercadoria da gravadora, pelo verdadeiro produto da gravadora que é o artista. E parece que há uma certa relutância em se aceitar isso. Que o artista é uma pessoa. E que essa pessoa é o produto final que eles vão ganhar os seus S cortados. Existe uma certa inversão de valores”. A cantora reconhecia seu lugar privilegiado na indústria e no mercado fonográfico. “Há poucas pessoas no país, há pouquíssimas pessoas no país que tem certa autonomia. Eu posso dizer que eu tenho autonomia porque eu sou muito mais impertinente e petulante que eles todos, até arrisco um pouco no jogo da conversa, no ping-pong onde se colocam os dados na mesa. Eu arrisco um bocado”, observa.

Muito consciente de seu papel e lugar na indústria, Elis apontou sobre o trabalho do intérprete, que já começava a perder espaço. Como defendeu no Festival da Canção de 1967, interpretando – em que ganhou o prêmio de melhor intérprete – “O cantador” (escute aqui), de Dori Caymmi e Nelson Motta, “Cantador, só sei cantar”. “Agora, eu arrisco sempre numa situação de inferioridade, porque eu não sou uma atriz, eu sou reprodução, sou reprodutora. A matriz tem muito mais condições porque ela gera o S cortado duas vezes. Ela gera quando ela grava e quando ela edita. Então ela galopa! Ela galopa em cima de nós. Por isso que tem tanto compositor cantando, porque ele fatura na editora e fatura na gravadora. Ele fatura duas vezes. Enquanto nós somos apenas intérpretes. E não adianta ter curso universitário para intérprete. Porque eles gostam muito de “fulano é arquiteto”, “fulano…” Eles gostam de: “vejam o menino universitário aqui conosco”. E a gente fica meio assim, entendeu? Mas, no fundo, no fundo por maior que seja o curso universitário de um cantor, ele não deixa de ser ator, que usa como instrumento para se colocar perante o público a voz, musicada, cantar. Não é a prosa, é a melodia pelo verso sendo dito. A gente leva desvantagem nessa hora mas, diz que não tá morto quem peleia, né tchê. Tô aí!”.

Vale a pena ver representações de Elis?

Por Camila de Ávila

Vale sim. Mas é necessário que desligue a sua memória da cantora e não exija detalhes da vida da diva. Isso geralmente não aparece nessas representações de Elis, acredito que porque não desejam tirar a aura de mito da Pimentinha. Ela era mulher, mãe, empresária, dona de casa, motorista dos filhos, artista, cantora, lutadora pelos direitos do povo e trabalhistas, torcedora e tinha a fama de encrenqueira.

Talvez a própria Elis tenha falado dela com maior verdade por meio da canção “Essa mulher” (escute aqui), de Joyce e Ana Terra. Na música, uma mulher fala das várias facetas que possui durante o dia, o ano, a vida. Elis disse, m entrevista para a Rádio Nacional, em julho de 1979: “Eu tenho a impressão que a Joyce e a Ana conseguiram falar das artistas, das mulheres artistas, das mulheres artistas casadas, mães e mulheres de músicos de uma forma incrível. As duas são mulheres de músicos, assim como eu. As duas têm penca de filhos e a jornada dupla de trabalho, de ser dona de casa, ser mãe, ser esposa, ser artista, de ter de batalhar, e ter de segurar tudo que pinta, ter de organizar essa loucura que é você ter filho, você ter casa, você ter uma profissão e, ao mesmo tempo, ser mulher, ser menina e ser dona de casa. Ser a santa, ser a mulher e ser a menina. Essa letra eu particularmente considero, em termos de retrato da situação da mulher artista, da mulher que trabalha, independentemente de ser artista, da mulher que trabalha, que tem a sua vida somada a do seu marido sob vários aspectos, inclusive o econômico, o financeiro, quer dizer, o da batalha fora das quatro paredes do seu lar, eu acho que (a letra) a mais feliz de todas. Várias coisas a respeito de mulher já foram escritas, via de regra, por homens que conhecem a situação realmente, mas nunca viveram a situação. Quer dizer, viver na carne, passar pelas coisas, é muito mais fácil quando você se refere ao assunto, quando você tem conhecimento de causa, a coisa sai muito mais completa. Que dizer, é a história das duas, que é a minha também e que é de uma porção de gente. É de Clara Nunes, é de uma penca de mulher que canta, que trabalha”.

Elis filme

Sobre Elis há filme, peça teatral, caso especial e uma série de livros. Como curiosa que sou, li as duas biografias da cantora, “Furacão Elis”, da Regina Echeverria, e “Elis Regina – Nada será como antes”, de Júlio Maria. Livros que mencionam bem de perto Elis, também tomaram minha atenção para a leitura como “Verdade Tropical”, de Caetano Veloso, “A era dos festivais – uma parábola”, de Zuza Homem de Mello, a biografia de Chico Buarque “Para seguir minha jornada”, de Regina Zappa, e “Noites tropicais” de Nelson Motta. Agora estou fazendo a leitura de “Elis – Uma biografia musical”, de Arthur de Faria, e algumas outras publicações em que são narrados episódios históricos com a presença da Pimentinha. Elis não era uma pessoa fácil. Não era uma mulher que se rebaixava e, quando o assunto era sua carreira, ela não media as suas ações para conquistar êxito. Claro que essas atitudes da cantora surgem de forma muito pequena, ou não aparecem nas recriações de sua vida.

Vamos falar do filme Elis. Não vou ficar aqui falando da atuação e forma como Andreia Horta recria a cantora, realmente está igual e chega a assustar. “Foi muito trabalho. Eu tinha muito material, desde quando ela tinha 23, 24 anos. As primeiras entrevistas filmadas na França, até as últimas entrevistas, especiais de TV. Eu tinha material do corpo dela com 23 até os 36 (anos), o que que foi mudando, o que que foi ganhando. Para uma atriz era um banquete de belezas e possibilidades. Eu sonhei por muito tempo em fazer Elis. No fim da faculdade eu já pensava, mas achava que seria impossível. Eu fazia muita publicidade no período da faculdade e uma vez eu tava com o cabelo assim (curto como o de Elis), e fui fazer um teste e o diretor disse: nossa! Como você parece a Elis. E eu pensei: não tô louca! Meu desejo pode se realizar”, lembrou.

Hermila Guedes elis

Há que se destacar também a interpretação de Caco Ciocler como César Camargo Mariano que é incrível. Ele absolveu a postura de Mariano, o jeito tímido e firme do músico e arranjador está lá com Ciocler. É bem legal.

No caso especial “Por toda minha vida” sobre a cantora, Hermila Guedes interpretou a Pimentinha de forma visceral. Como deve ser. Afinal de contas Elis era uma força da natureza.

laila elis

Não se pode deixar de falar de “Elis – a musical”, estrelado na sua primeira temporada pela talentosíssima atriz Laila Garin. É possível uma Elis “nascer” de olhos verdes? Laila vira Elis no palco e assusta tamanha a semelhança. Será? Ou a gente que fica tão enfeitiçado pela saga da cantora que enxerga na atriz todas as feições de Elis? Não estou aqui diminuindo o trabalho de todas que interpretaram a cantora, mas é claro que uma figura tão emblemática como foi e é Elis, ainda nos fascina, comove e provoca sentimentos que não sabemos nomear.

O grande problema das recriações de Elis é a nossa memória. Muitos daqueles personagens estão, de fato, vivos, ou estão muito presentes na lembrança cultural do Brasil. Elis morreu em 19 de janeiro de 1982, são 37 anos. Eu nunca vi a Elis, quando ela morreu eu era uma bebezinha. Mas eu sei como ela era, andava, falava, gesticulava e cantava porque Elis era uma artista midiática e aí está o problema. Queremos e insistimos em exigir uma pessoa igual. Ou pior, acreditamos tão fortemente em Elis que pensamos que ela não pode ser “refeita”. Elis é vista como uma deusa (cantando sim, mas, na realidade, uma pessoa complexa e bem difícil).

Quando se termina de ler, ver ou ouvir alguém “fazendo” Elis, ou contando a sua história  é impossível ficar alheio, sem sentir um misto de amor com ódio, admiração e raiva. Sempre me pergunto: que figura foi essa que passou como raio pelo mundo e deixou toda essa comoção?

Sob os meus olhos, assistir essas recriações de Elis é muito bom. Você lembra as canções, mata um pouquinho da saudade da cantora morta aos 36 anos que, mesmo amando os filhos e a música, perdeu-se no caminho da vida talvez por ser intensa demais. Mas como ela mesma disse em entrevista concedida para o programa Jogo da Verdade, da TV Cultura, 14 dias antes de morrer: “A gente dá o tiro quem mata é Deus”.

Instrumento: voz

Por: Camila de Ávila

A cantora Elis Regina foi a primeira a registrar na Ordem dos Músicos a voz como instrumento. O que, atualmente, é uma questão, já que o trabalho do intérprete não é tão valorizado. Sua extensão vocal é de meso-soprano e a artista, que fumava e bebia, pouco perdia a voz.


O que vou contar a aqui é a história da gravação da canção “Velha roupa colorida” (escute aqui), composta por Blechior. A canção está no disco “Falso Brilhante”, gravado em 1976, em São Paulo, sob a direção de produção de Mazzola e direção musical e arranjos de César Camargo Mariano. O álbum trazia as canções do espetáculo homônimo (que falamos no texto anterior). “Falso Brilhante” é o décimo quarto álbum de estúdio de Elis Regina. O disco figura na lista dos 100 maiores discos da música brasileira segundo a revista Rolling Stones. Mas e aí? Pois é, como disse no parágrafo acima, Elis quase nunca ficava rouca. Mas depois de quatro dia seguidos fazendo o referido espetáculo, com até duas sessões por dia, as cordas vocais da gaúcha se cansaram e Elis ficou com a voz um pouco debilitada. Digo um pouco porque a “Velha roupa colorida” foi gravada num take só.

João Marcello Bôscoli, filho mais velho de Elis contou no programa Música Brasileira, no dia 12 de março de 2007, sobre a gravação do disco. Elis e Cesar Camargo Mariano, que era o coautor e produtor musical do espetáculo, decidiram gravar o disco com as canções do show logo após a apresentação de domingo. Sendo assim, todo equipamento sonoro e os instrumentos dos músicos foram desmontados e levados de São Paulo, onde o espetáculo era apresentado, para o Rio de Janeiro. No dia seguinte, na segunda-feira, Elis e os músicos viajaram e chegaram cedo ao estúdio da Phonogram, na Barra da Tijuca. Todas as canções foram gravadas “ao vivo”, ou seja, todos os artistas executando a canção ao mesmo tempo. Dez canções do espetáculo, que contava com 43 músicas, fazem parte do disco, que foi gravado entre segunda e quarta-feira.

De acordo com a biografia “Elis Regina – Nada será como antes”, de Júlio Maria, lançada em 2015. Elis chegou no estúdio rouca dos espetáculos do fim de semana. “Aos que tentaram alertá-la dos perigos de se forçar tanto as cordas vocais, ela tranquilizava: ‘Não se preocupe, não é a voz que canta’”. Mazzola, produtor do disco, posicionou muito bem os microfones em cada instrumento para não vazar o som. As músicas todas saiam de primeira, mas a voz de Elis ficava a cada hora mais rouca, segundo o autor da biografia. “Já andava pela zona que antecede o sumiço”. A canção “Velha roupa colorida”, de notas mais agudas seguidas por uma levada blues com a voz bem rasgada estava prestes a ser gravada. Mas Elis não tava dando conta e Mazzola sugeriu que a deixasse por último.

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“A apreensão sobrevoava a sala quando sentiram que tinham de voltar à canção, pela última e definitiva vez. Aos músicos, Mazzola, sabendo que usaria as últimas forças de Elis, aumentou a pressão com jeito: ‘Gente, tem que ser de primeira, ok?’ Ao rapaz da técnica, apontou uma flecha: ‘Meu irmão, solta essa merda aí na hora, não errar essa porra!’ Antes de dar o ok, percebeu as luzes do letreiro que indicava ‘gravando’ apagadas no lado de fora da sala. ‘Rapaz, liga essas luzes todas aí’, ordenou. César fez a contagem e Elis entrou”. A Pimentinha gravou a canção inteira com força. A voz rouca trouxe a sensação das cantoras de blues norte-americanas. “Assim que viu chegar o fim com um tiro só, que se não matasse a música mataria a cantora, Mazzola ficou petrificado: ‘Não pode ser, a mulher cantou tudo de primeira”. Elis estava cansada e caiu sentada numa almofada e ficou quieta se recuperando em silêncio. Mazzola perguntou:
– Tudo bem, Elis?
– Tudo, você gostou?, perguntou a cantora
– Achei demais. Respondeu o produtor.
E, Elis, sendo Elis pergunta para Mazzola:
– Você acha que alguém vai gravar isso melhor que eu?

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Inventividade de Elis

Por Camila de Ávila
No post anterior, no instagram, perguntamos: O que Elis representa na música nacional?
Falso Brilhante
Elis é um frescor. Criatividade e inquietação. Foi Elis que criou uma forma diferente de apresentar a música. Em 1976, a Pimentinha estreou o espetáculo “Falso Brilhante” em que as canções do show eram interligadas de forma a contar uma história, sem de fato ser um musical. Com Falso Brilhante, Elis foi no palco uma Madonna requintada. Ela cantava e dançava, declamava e fazia o público cantar junto refletindo a letra da canção, pot-pourris musicais eram intercalados por jingles, encenações, citações instrumentais de melodias famosas. O show falava da vida do artista. O espetáculo fala da vida do artista e trazia críticas ao momento do país.

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“Dividido em dois atos, o show seguia uma linha extremamente interpretativa, cuja precursora no Brasil havia sido Maria Bethânia. A outra gigante acertara parcerias com criadores de teatro, cenógrafos, figurinistas e protagonizara apresentações recheadas de leituras de textos poéticos, mesclados à música. Elis iria além: contratou Myriam Muniz para dirigir o espetáculo; Naum Alves faria a cenografia; Lu Martin, os figurinos. A convivência com a primeira seria conturbada. Ambas mulheres de personalidade forte. Elis, que não engolia sapo de ninguém, comprou a briga”, nas letras de Caio Peçanha.

Sucesso de público, mais de 280 mil espectadores, e crítica, o espetáculo teve mais de 300 sessões e foi apresentado de entre dezembro de 1975 e fevereiro de 1977. Os shows eram realizados de quarta a domingo, sendo que em alguns fins de semana a sessão era dobrada, duas por noite.

A canção não gravada

Por Camila de Ávila

O Escuta Só falará nas próximas semanas sobre Elis Regina. Como fazemos sempre, vamos usar canções para falar da carreira e da versatilidade da cantora que ficou conhecida pelo apelido dado por Vinícius de Moraes, Pimentinha. Porém, vamos começar falando sobre uma canção que Elis não gravou.

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Uma forte característica de Elis era o de cantar o que sentia. De acordo com a biografia da cantora “Nada será como antes”, de Júlio Maria, Elis compôs uma canção que nunca foi gravada e ninguém conhece. O que a cantora fazia, depois de já ter a carreira consolidada e todo compositor desejar uma canção em sua voz, era encomendar músicas. Certa vez ela encomendou a Paulo César Pinheiro “um samba daqueles”, nas palavras do compositor no livro “Histórias das minhas canções – Paulo César Pinheiro”. E completou: “o papo você já sabe qual, né? Liga pro Aquino (Baden Powell de Aquino).
O assunto já sabido por Paulo César Pinheiro era a separação de Elis do jornalista e compositor Ronaldo Bôscoli (1928 – 1994), a quem a Pimentinha chamava de velho e com quem teve seu primeiro filho, João Marcello. “Eram ambos meus amigos. De que forma lidar com o impasse, mexer em feridas expostas, tocar sentimentos tão perigosos? Relações de amor e ódio são louça chinesa, se trincar na sua mão, a culpa é sua. É porcelana para se olhar de longe’, conta o compositor. Baden também não se fez de rogado e disse: “Pinheiro, poesia nos obriga a escrever coisas sobre os sentimentos dos outros que às vezes a gente não quer, mas se não fizer ela cobra”. Eles compuseram “Última forma” (escute aqui com MPB-4).

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A grande questão é que Elis não gostou da canção. Ela estava fazendo uma série de shows no Teatro da Praia e, ansiosa para ouvir a canção, chamou Baden e Paulo César para ir até o show e, no fim do espetáculo ir ao camarim para mostrar a música. Era 1972, e Elis já estava iniciando a sua relação com César Camargo Mariano. Eles começaram a tocar e cantar a música. “Elis foi se transformando. O sorriso inicial de curiosidade foi se contrariando e as mãos se crispando”, lembra o compositor. “Silêncio absoluto e os olhos completamente vesgos, como acontecia quando ficava nervosa. No que acabei de cantar, aquele clima pesado. Mal-estar mudo. Nenhuma palavra. Baden sentiu o drama, fechou o violão no estojo, nos despedimos deles e fomos pro bar da esquina tomar uma”, conta.

Depois de muito tempo, depois que o samba havia sido gravado por MPB4, Márcia e Elizete, Paulo César resolveu perguntar para Elis se ela não tinha gostado da canção. Eis a resposta da Pimentinha: “É bom até demais. Exagerou. Esquece”.