Porque coisa de preto é coisa muito boa
Por Camila de Ávila
Conhecido como o poeta do samba, Jorge Aragão é, para mim pelo menos, o cara que mais levanta a autoestima do povo preto. E o mais legal disso tudo é que ele usa o ritmo do povo preto, o samba, para fazer isso. Mara o que? Vilhoso! Mais um dia 20 de novembro está aí. E é ainda necessário lembrar de se ter consciência negra no Brasil (porque a data se refere ao dia da morte de Zumbi dos Palmares). Em 2020, a coisa ficou feia (não vou dizer que ficou preta, porque não uso o famigerado termo). Fomos assassinados na ruas em frente às câmeras. Fomos deixados sem ar por mais de oito minutos. Entraram na nossa casa e fuzilaram nossos filhos. Fomos espancados até a morte em uma grande rede de supermercados. Como sempre. Mas, em 2020, gritamos e dissemos que não aceitaremos.

A #ondanegra que se ergueu com a #BlackLivesMatter (#vidaspretasimportam em bom português) contagiou o mundo e não se pode deixar parar. Como cantou a Estação Primeira de Mangueira no carnaval campeão de 2019 (escute aqui), “na luta é que a gente se encontra”. Lembrando Jorge Aragão, mencionado no início do texto, o exemplo do elevador, utilizado na canção “Identidade” (escute aqui): “Elevador é quase um templo/Exemplo pra minar teu sono/Sai desse compromisso/Não vai no de serviço/Se o social tem dono, não vai”. É isso! Quando se aceita o lugar menor, vai só se diminuindo, e sua vida passa a ter menos valor. Não! Não pode deixar isso acontecer. Preto de alma branca não existe e a pessoa preta não tem que ceder sua vez, seu lugar, seu espaço para ninguém. Por mais que isso é o que foi feito, dito e nos ensinado.
Fizemos isso em toda nossa vida, especialmente na história da construção do Brasil. Mangueira alertou para isso. “Tem sangue retinto pisado atrás do herói emoldurado”. Quem lutou, de fato, foi o preto e o índio, e o nome dessas pessoas de cor e originárias foram sublimadas da história. Assim não dá!
É importante entender como a canção ajuda na construção da identidade de um povo. Sabemos que a música brasileira é muito forte na formação cultural do nosso país. Digo isso porque a canção ocupa, muitas vezes, o lugar de um professor. Graças à música, a história da Revolta da Chibata é presente. Elis Regina imortalizou “O mestre-sala dos mares”, de João Bosco e Aldir Blanc (escute aqui) e não deixa esquecer as “rubras cascatas que jorravam nas costas dos santos entre cantos e chibatas”. Por causa da música, percebemos que o entendimento do lugar que é destinado para o preto é correndo atrás de bola ou fugindo da polícia (“Partido Alto”, de Chico Buarque). Só assim ele vai ser notícia. Ah, não!
Mas é também, com a ajuda da música, que esse espaço está mudando. Cantar traz esperança e afirmação, e o rap (ritmo do preto norte-americano), assim como o samba, tem feito esse trabalho de afirmar a identidade preta. Quando se ouve Djonga, rapper mineiro (que orgulho de saber que esse cara é mineiro), cantar: “Se cada um é um universo/Quem salva uma vida salva um mundo inteiro/Seja protagonista da sua história/Pega a folha e muda o roteiro/Minha gente cruzou o mar a força com mão branca/Cruzei voando com a força da minha palavra”, sabe o que acontece na cabeça do menino preto e pobre? Empoderamento, força, resistência e autoestima. Os versos são da canção “Oto patamá”, de Djonga (escute aqui)

Em uma linda e tocante live no instgaram de outro rapper mineiro, o Flávio Renegado, o jornalista e escritor (fofo) Laurentino Gomes, autor da trilogia de livros que falam da história do Brasil, “1808”, “1822” e “1889”, e do livro “Escravidão”, afirmou que há que se entender que o Brasil é um país racista e que o preconceito que fere a estrutura organizacional é muito forte e sempre velado. Ele disse que há aquela coisa de o branco não dizer palavras ofensivas, porque isso alguns não são capazes, mas na hora de escolher um funcionário, se prefere sempre a pessoa com o tom de pele mais clara. A minha pergunta é: alguém tem dúvida disso? Já respondo: tem sim. Tem gente que acha que racismo é mimimi. Tem gente que responde a um clube de futebol, que no twitter postou a #vidasnegrasimpostam, com a pergunta: que dia que minha vida branca vai importar?
A questão para os apreciadores do pensamento de Morgan Freeman (que disse que para o racismo deixar de existir é só parar de falar nele), é que nós, pretos, morremos por sermos pretos. Nós somos preteridos (em trabalho, em amizade, em relacionamento romântico) por sermos pretos. Isso não é mimimi. Flávio Renegado e Elza Soares bem explicam em “Negão, negra”, de Flávio Renegado e Gabriel Moura (escute aqui), que “Sempre foi luta/Sempre foi porrada/Contra o racismo estrutural/Barra pesada”.

Então, não é parando de falar que o racismo vai acabar. É falando, gritando a existência desse pensamento pobre que ele vai acabar. Eu acho que não verei o fim do racismo. Mas tenho esperança. Não dá para fugir dessa coisa de pele, como disse Jorge Aragão e Acyr Cruz em “Coisa de Pele” (escute aqui). A força dos nossos tantãs e a excelência do nosso rap não deixam negar que coisa de preto é coisa muito boa!
















