



Por Ricardo Frei

A Festa da Penha, segundo nos informa artigo do pesquisador Carlos Palombini, durante décadas só perdia em popularidade para o Carnaval. Trata-se do festejo ligado à igreja de Nossa Senhora da Penha, instalada no subúrbio carioca, próximo ao hoje denominado Complexo do Alemão. Conta-nos relatos históricos que a festa após a abolição em 1888 transformou-se num lugar, como descreveu Nei Lopes, “dos bambas, dos chorões, dos sambistas, dos blocos carnavalescos, dos concursos de música, para ser o grande polo difusor da música popular brasileira”, até os idos de 1950. Escute aqui

O professor Palombini faz mesmo uma comparação que coteja as origens do samba e do funk. Se a Casa da Tia Ciata aparece como a grande incubadora do samba em seu mito de origem, a Penha, antes tomada e ocupada por capadócios e bambas do samba, aparece como espaço mítico para o funk carioca. Mais precisamente, a quadra da Chatuba, que se tornou, nas palavras do pesquisador, a plataforma de lançamento para circulação e divulgação dos funks “proibidões” (escute aqui) com o incremento da violência armada e o esvaziamento dos frequentadores tradicionais da Penha. A analogia se estabelece uma vez que aquela Festa ocupou este espaço em tempos pretéritos. Guardada evidentemente as distinções históricas, o samba e o funk voltam a se tocar em pontos importantes para sua constituição enquanto lugar de fala, enquanto expressão cultural de realidades marginais transformadas em canção popular.

Por Camila de Ávila

O samba já foi ritmo proibido. Pelo fato de ser de negro, lascivo e marginal. Era música que não podia ser tocada e quem a tocasse era vagabundo. Há uma história interessante sobre a época em que o samba era ritmo proibido. No início do século XX quem andasse pela rua “portando” um instrumento musical era preso sob a Lei da Vadiagem, datada de 1890. João da Baiana (1887 – 1974) foi preso e teve seu pandeiro confiscado. Porém ele e sua banda foram convidados para fazer um som na mansão do senador Pinheiro Machado (1851 – 1915), mas João estava sem seu instrumento e resolveu não ir. Ao saber o motivo da ausência, Pinheiro Machado mandou comprar um novo pandeiro para João da Baiana e fez o seguinte bilhete com o objetivo de que fosse gravado no novo instrumento: “A minha admiração, João da Baiana – Senador Pinheiro Machado”. História contada nos livros “Uma história do samba – As Origens”, de Lira Neto e “Escolas de Samba do Rio de Janeiro”, de Sérgio Cabral. O preconceito com samba e com quem o faz ainda existe. A banda Fundo de Quintal, em 1993, cantou isso na canção “A batucada dos nossos tantãs” (escute aqui), do grupo Fundo de Quintal.
“Samba, eterno delírio do compositor
Que nasce da alma, sem pele, sem cor
Com simplicidade, não sendo vulgar
Fazendo da nossa alegria, seu habitat natural
O samba floresce do fundo do nosso quintal”

Como disse Ricardo Frei no post anterior: “Há pouco, numa prestigiada casa legislativa, discutia-se lei de cerceamento ao FC (funk carioca) movida por uma espécie de déjà vu “higienista” tresloucado”. A ideia estapafúrdia surgiu em 2017 e é do empresário paulista Marcelo Alonso. Ele recolheu 20 mil assinaturas de pessoas que, como ele, tem a ideia de que o funk e os bailes onde são executados “são somente um recrutamento organizado nas redes sociais por e para atender criminosos, estupradores e pedófilos a prática de crime contra a criança e o menor adolescentes ao uso, venda e consumo de álcool e drogas, agenciamento, orgia e exploração sexual, estupro e sexo grupal entre crianças e adolescente, pornografia, pedofilia, arruaça, sequestro, roubo e etc” (jornal Extra de 22/6/17). O “Rap do Silva” (escute aqui), cantado pro MC Bob Rum e composto do MC Marcinho deixa claro o preconceito que o gênero sofre hoje.
“E todo mundo dizia que era um cara maneiro
Outros o criticavam porque ele era funkeiro
O funk não é modismo, é uma necessidade
E pra calar os gemidos que existem nesta cidade
Todo mundo devia nessa história se ligar
Porque tem muito amigo que vai para o baile dançar
Esquecer os atritos deixar a briga pra lá
E entender o sentido quando o Dj detonar…”
Por Ricardo Frei

Se a gestação do samba aconteceu nos cômodos da Pequena África no Rio de Janeiro, o funk carioca (FC) experimentou a prenhez na cena constituída por bailes que vibravam ao som de hip hop e outro tipo de funk, ambos americanos. A cena Black dos anos 70, movida a Soul Music, de alguma forma sulcou um caminho que indiretamente nos levaria ao exemplar carioca da década seguinte. Se encontramos Maxixe, Lundu, Modinha no código genético do Samba, encontramos o Miami Bass e toda uma apropriação da cultura musical afroestadunidense associados à origem do funk carioca . Afora serem tributárias de uma ancestralidade africana, samba e funk são cultivados, elaborados e ressignificados nos morros, nas “senzalas” citadinas que o percurso da sociedade brasileira fez surgir.

Nas letras capturadas por melodias e células rítmicas, que variaram ao longo do tempo, as duas tradições oferecem-nos a fala de um lugar semi-interditado, o retrato sonoro de realidades estranhas ao asfalto, um lugar ocupado por vozes que exibem os seus desejos, fantasias, verdades e angústias. O samba já foi alvo de ações que se diziam a favor de uma “assepsia” cultural, francamente preconceituosa e sabotadora. Vingou e transformou-se em signo de resistência, em emblema cultural. Há pouco, numa prestigiada casa legislativa, discutia-se lei de cerceamento ao FC movida por uma espécie de déjà vu “higienista” tresloucado. Vai vendo! E as interseções não param por aí …

Por Camila de Ávila

Há uma corrente de historiadores da música brasileira que defende a ideia de que o funk é o próximo samba (não que um ritmo vai substituir o outro, mas terão lugares semelhantes na identidade nacional). Esses pesquisadores entendem que a origem de ambos os ritmos é a mesma. O samba nasceu na periferia e representava um povo que era marginalizado, desprezado e preterido pelo Estado. O samba era tido com um ritmo menor e sem criatividade. A música era tachada como a de um povo ruim, feita para acompanhar manifestações das religiões de matriz africana, vista com preconceito (ainda hoje) e que tendiam para o mal. Além disso, o samba era vulgar, a forma de dançar era sexual e muito sensual. Outra coisa, o samba contava o que acontecia na região onde era tocado, ou seja, brigas com navalha, pernadas, capoeira, orgias, traições e assassinatos. O primeiro samba gravado é Pelo Telefone (escute aqui), o sobrinho de tia Ciata, Donga, o registrou na biblioteca nacional. “O chefe da polícia pelo telefone manda me avisar/ Que na Carioca tem uma roleta para se jogar”. Viu só, como a música falava das questões daquela sociedade, dos maus costumes e mazelas?
O funk que é o ritmo atual das comunidades de periferia. A música é tachada como pobre e de baixa qualidade. As pessoas repreendem os funkeiros porque dizem que eles fazem apologia ao crime, ao tráfico, ao estupro e a sexualização. O famoso “Rap da felicidade” (escute aqui), marco do funk nacional, composto por Cidnho, fala do cenário vislumbrado pelo povo que o compõe. “Minha cara autoridade, eu já não sei o que fazer/Com tanta violência eu sinto medo de viver/Pois moro na favela e sou muito desrespeitado/A tristeza e alegria aqui caminham lado a lado/Eu faço uma oração para uma santa protetora/Mas sou interrompido à tiros de metralhadora”.

Coisa de gente pobre, do morro, da favela. Trincheira na luta por visibilidade social. Traços comuns que unem histórias distintas. Sobrevivência, sucessos e ressignificações. Volt Mix, Tamborzão, Beatbox. Maxixe, Partido Alto, do Estácio. Termos e particularidades que marcam as histórias do Funk e do Samba, ambos cariocas. Repressão e preconceitos presentes em investidas, inclusive de ordem legal, contra essas formas populares de criação musical. Os próximos conteúdos do Escuta Só! trazem as aproximações, distanciamentos e possíveis afinidades entre dois dos maiores fenômenos culturais, identitários, musicais expressos por meio de melodia, letra e ritmos poderosos.


ps: a partir da próxima semana, o blog do Escuta Só! passará sua hospedagem para o Medium . Todo o conteúdo postado até aqui também poderá ser acessado lá. Eis nosso futuro novo endereço: https://medium.com/@escutasompb
Por Camila de Ávila (mangueirense até morrer)
Estação Primeira de Mangueira vence o Carnaval 2019 falando da
história que a história não conta
Sou a parte Mangueirense do Escuta Só, a outra metade do blog é Salgueirense (afilhada de Mangueira). Sendo assim, hoje sou “obrigada” a falar da vitória da Estação Primeira de Mangueira por aqui. O enredo campeão é “História para ninar gente grande” (escute aqui) Tentarei ser imparcial (juro que vou).

No carnaval de 2019, a Estação Primeira de Mangueira, escola fundada em 1928 por Cartola, saiu (mais uma vez) com enredo político. O objetivo do carnavalesco Leandro Vieira, que está em Mangueira desde 2016 quando ganhou homenageando Maria Bethânia, era mostrar para o Brasil quem de verdade faz a sua história. Em entrevista para GloboNews, logo depois da apuração o carnavalesco, gritando, disse: “essa vitória é das pessoas que fizeram o carnaval, dos que trabalham nos barracões. Essa vitória é do povo que fez e faz esse país de verdade”. Perguntado se o carnaval da Mangueira é um recado político ele disse: “é um recado político para o país todo que tem que entender que o carnaval é uma coisa muito importante. É um recado político também para mostrar para o presidente (Jair Bolsonaro) que o carnaval é a festa do povo, é a cultura popular, o carnaval não é o que ele acha que é. Tem que mostrar para o mundo o carnaval da Mangueira, o carnaval da arte, o carnaval da luta, o carnaval do povo, o carnaval da cultura popular”, afirmou.

Para quem estava na avenida, como eu estava, percebeu que o carnaval da Mangueira foi um ato de resistência. A Mangueira, carinhosamente (porque chama o Brasil de “meu nego” e “meu dengo”), falou para os brasileiros que quem lutou e luta pela liberdade, igualdade e por um país melhor são aqueles que são marginalizados e esquecidos. A letra do samba, composto por Ronie Oliveira, Márcio Bola e Silvio Mama, Deivid Domênico, Tomaz Miranda e Danilo Firminio, trouxe nomes como Marias, Mahins, Marielles, Malês, Dandara os heróis do barracões, mulheres, tamoios e mulatos.
Foto: Antonio Scorza / Agência O GloboO que a Escola de Samba da primeira estação de trem da cidade do Rio de Janeiro disse foi que o Brasil precisa esquecer o seu complexo de vira-lata e se empoderar. Sim. Nós, os brasileiros, temos a força da miscigenação que forma a nossa nação e desejamos a justiça de Xangô, cantado pelo Salgueiro. O Brasil que está no retrato não nos interessa mais. O Brasil almejado por Mangueira vai ouvir a voz de quem de fato o faz. A voz das índios, negros e pobres.
Por Ricardo Frei

O tempo nos impregna de ideias. Os ventos circulam fazendo esbarrar em nós sua direção e força. Os ânimos nos guiam. E as palavras são capturadas para uso contínuo de um vocabulário de época. Tudo isso compõem a trama literária e musical que “ouviservamos” naqueles tempos de abertura política. Momentos que excederam o ano de 1979. O espírito da época foi cultivado antes e além. Tomando então a canção como testemunha do tempo, podemos dizer de várias temporalidades, de visões distintas, de expressões ora mais densas e dramáticas, ora efusivas e luminosas capazes de se fazerem soar por aí.
Optamos por trazer a este último conteúdo sob o mote da anistia um álbum portador de desejos felizes, brilhantes, que sem ignorar a angustia do exílio, a saudade, a escuridão política prestes a se dissolver em feixes iluminados, quis entregar ao universo fluídos bons, festivos e dançantes.
Gilberto Gil é o responsável por lançar Realce no mundo. O disco é de 1979 e encerra a trilogia “RE”: Refazenda, Refavela e Realce. Ponto de síntese, Realce (escute aqui) exibe o exercício de um compositor que envereda por culturas distintas, processando seus traços e os tornando próprios e particulares.
Já em Refavela, lançado em 1977, Gil se entregou ao movimento de uma geração black inspirada pelo orgulho e poder negros que se amplificava nos Estados Unidos deste a década de 1960. Dois anos mais tarde, tocado pelo desdobramento musical da Soul Music do Norte, Gilberto Gil nos apresenta Realce, disco e canção envolvidos por arranjos e composições afinados com os tempos da discotèque.

Víamos ali um nordestino a ostentar sua história, suas raízes, unidas à espécie de Tecnopop que daria o tom da música praticada ao longo dos anos 1980. A pluralidade escancarada de Gil incentivou leituras apenas festivas e feéricas principalmente do hit que dá nome ao álbum. Contudo, mesmo num momento mutuofágico de consumir e devolver traços culturais diversos a um público que não estava mais restrito às fronteiras brasileiras, Gil não deixou de lado sua postura crítica, mesmo que em forma de Disco Music. É o que revela seu Manifesto Realce:
Realce,
uma maneira de dizer
a luz geral.
Denominar o brilho anônimo,
como um salário mínimo
de cintilância
a que todos tivessem direito.
Como a noite de discotèque
após o dia de trabalho.
Realce, uma maneira de dizer
o bem-estar.
Denominar o prazer coletivo,
o êxtase do simples
caminhar contra o vento
de qualquer um.
Como o domingo de futebol
após a semana da fábrica.
Realce, uma maneira de dizer
o Deus louvar.
Denominar o santo sem altar,
como nos templos profanos
dos terminais de trens e aviões,
onde todos estão pra nada,
indo ou vindo para tanta coisa.
Realce, cada um por si,
Deus por todos.
Nas palavras de Gil, a canção Realce é um naco de cintilâncias necessário àqueles que se viam submetidos a uma ordem política e econômica perversa. Um salário mínimo de prazer. E essas prefulgências musicais serviam não apenas como alento, mas também como anúncio otimista de que tempos melhores viriam. Exilados estavam então não somente políticos, ativistas, intelectuais, artistas, religiosos, mas também o tempo da felicidade, da festa, todos ávidos por uma anistia ampla, geral e irrestrita. E os primeiros anistiados foram os ouvidos, que puderam fruir a atitude, o posicionamento político sem o tom taciturno e austero próprios das canções que pediam liberdade e anistia. Em Realce (disco e canção), estava tudo lá, mas em forma de festa, misturada à fidelidade que Gil ostenta às suas raízes nordestinas. Tem samba? Tem! Tem garota do barbalho também! Tem até superhomem, meninas marinas baianas, negras, rubro-negras, o candomblé, Caymmi e Bob Marley. Tem Bahia, fé, alegria e valentia em seu disco-rebento.

Assim, depois de muita luta, sob várias formas e em diferentes trincheiras, Gil, embalado pelo seu interesse por meditação e filosofia oriental, conclui e declara que agora, uma vez tudo feito, resta-nos confiar na “ação da não ação”:
Não se incomode
o
que a gente pode, pode
o
que a gente não pode, explodirá
a
força é bruta
e a
fonte da força é neutra
e
de repente a gente poderá
Em Realce, a esperança e a confiança, antes na corda bamba de sombrinha, samba sob a inspiração disco e a benção de um eterno Deus Mu dança.
Por Camila de Ávila

Enfim a liberdade e o direito de falar tudo o que se pensa e deseja havia chegado e a música brasileira cantou isso. A canção de Chico Buarque, escrita em 1970, “Apesar de você” (escute aqui), acabava de ser liberada pela censura. “Cálice” (escute aqui), parceria com Gilberto Gil, também passou a ser ‘bebida’, em 1978, ambas saíram no disco da samambaia. A liberdade de falar e ser estava ali, ao alcance das mãos.
É dessa época a série da Rede Globo “Malu Mulher” que, de acordo com a definição do “Memória Globo”, “retratava a condição da mulher brasileira no final dos anos 1970 através do cotidiano de Malu, uma socióloga paulista, divorciada e mãe de uma menina de 12 anos”. A lei do divórcio acabava de ser regulamentada, em dezembro de 1977, e a série retratava uma mulher emancipada. A canção tema da atração, estrelada pela atriz (hoje bastante controversa politicamente) Regina Duarte, é “Começar de novo” (escute aqui), gravada por Simone, no disco “Pedaços”, de 1979. “O assunto liberação, vida nova de uma mulher recém-separada que tenta sair de uma condição de dependência, foi habilmente desenvolvida por Vitor podendo ser aplicada a qualquer pessoa, independente de sexo”, observa Zuza Homem de Mello e Jairo Severiano no livro “A canção no tempo – 85 anos de músicas brasileiras Vol. 2: 1958-1985”. “Nas entrelinhas, Vitor deixou uma releitura, dizendo que nós brasileiros precisávamos recomeçar uma nova vida, sem as garras, molduras, escoras, esporas (citação ao General Figueiredo, na época presidente do Brasil, oficial de cavalaria e que disse que preferia cheiro de cavalo a cheiro de povo) do Regime Militar vigente”, disse Ivan Lins no seu site oficial.
“Começar de novo
E contar comigo
Vai valer a pena
Ter amanhecido
Sem as tuas garras
Sempre tão seguras
Sem o teu fantasma
Sem tua moldura
Sem tuas escoras
Sem o teu domínio
Sem tuas esporas
Sem o teu fascínio”
Inspirada na comédia norte-americana de 1978, “An Unmarried Woman”, de Paul Mazursky, Malu Mulher foi ideia do diretor Daniel Filho e teve o apoio na produção de roteiro da socióloga Ruth Cardoso (1930 -2008), esposa de Fernando Henrique Cardoso. José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, então diretor artístico da emissora, viu na abertura política do país a oportunidade de explorar temas polêmicos na teledramaturgia. Com o sucesso do programa, a TV Globo lançou Mulher 80 (veja aqui), um especial musical que falava do papel das mulheres na Música Popular Brasileira, com depoimentos de cantoras como Maria Bethânia, Gal Costa, Rita Lee, Elis Regina, Zezé Motta, Simone, entre outras.

Outra canção da dupla Vitor Martins e Ivan Lins é o samba “Desesperar jamais” (escute aqui). Lançado no disco “A noite”, de 1979, a música fala sobre o aprendizado “desses anos”, que houve muitas “perdas e danos”, “muitos desenganos” e motivos para chorar. Mas a partir daquele momento ia “vai fazer valer o dito popular”. A grande sacada da música vem quando Vitor e Ivan afirmam que se for feito da maneira correta, não se repetirá o que foi ruim. “Cutucou com jeito, não levanta mais”. Outro recado é o não deixar a história se perder, “nada de esquecer”. Atualmente Ivan troca algumas palavras da canção quando a interpreta em seus shows. “Chegou a hora de fazer valer o voto popular”, ou “saber votar/ desesperar jamais”, “reivindicar/ desesperar jamais”. A expressão na letra “fazer valer o dito popular” está ligada à ideia de fazer valer o desejo popular de votar, de liberdade de expressão.
No disco “Vida”, de Chico Buarque, mencionado no texto deste blog “Canta, canta uma esperança”, está a canção “Não sonho mais” (escute aqui), composta para o filme “República dos assassinos”, de Miguel Faria Jr., lançado em 1979, estrelado por Tarcísio Meira . Para o autor do livro “Análise Poético-musical”, Gilberto de Carvalho, Chico disse que “é uma letra violenta pra burro”. A canção é uma travesti falando para um policial, seu amor, sobre o sonho que teve (veja o trecho do filme).
“Hoje eu sonhei contigo
Tanta desdita, amor
Nem te digo
Tanto castigo
Que eu tava aflita de te contar
Em toda a letra são relatadas violências físicas e psicológicas parecidas com as torturas da ditadura. Mas tudo como num sonho na voz de um marginalizado. A forra também está na canção, como um sentimento de vingança.
“Ao pé da ribanceira
Acabou-se a liça
E escarrei-te inteira
A tua carniça
E tinha justiça
Nesse escarrar
Te rasgamo a carcaça
Descemo a ripa
Viramo as tripa
Comemo os ovo
Ai, e aquele povo
Pôs-se a cantar”
O filme relata a história do Esquadrão da Morte, grupo de paramilitares armados (policiais, terroristas e justiceiros) que conduzem execuções assassinatos e desaparecimentos de pessoas. Geralmente esses grupos são associados com a violenta repressão política sob ditaduras, estados totalitários e regimes similares. É comum terem o apoio do Estado. Sendo assim, quando na canção a personagem fala da violência que deseja desferir contra o amor policial, ela coloca na forma de sonho para já se defender. Seguindo uma linha de interpretação para o período em que a canção foi escrita e para o tema do filme, pode-se entender que a música mostra a violência do tempo da ditadura e a forra é o momento da anistia. O desejo de não sonhar mais, é o clamor pelo fim do período de chumbo. “Não sonho mais” (ouça a versão da canção dom Elba Ramalho)mostra a vingança de um povo oprimido por anos e que agora pode ousar sonhar com a forra. Pode falar o que sente e o que desejava fazer com o opressor.
Por Ricardo Frei
Enfim, aquela gente que partiu num rabo de foguete, começava a voltar. Inclusive, Betinho (1935-1997), o irmão do Henfil (1944-1988), sociólogo e ativista que personificou na trama poética da canção todos aqueles que se viram obrigados a partir. Iluminava-se o insistente breu de uma noite que já durava anos. Os feixes que amplificavam a claridade incidiam convictos no solo do Brasil e pavimentavam o fim da escuridão democrática.
A paisagem musical daqueles instantes de 1979 fizera soar grandes clássicos. Contudo, a canção, página aberta a confissões e berros, mensageira generosa de inconfidências, estava ali pronta para ter seus elos de melodia e letra acionados por qualquer portador que por ela quisesse dizer.
Foi o que fez Chico Mário (1948-1988), outro dos irmãos de sangue de Henfil e Betinho, ao lançar Terra, seu primeiro disco. Era 1979 e a anistia já se percebia no ar, como aquele cheiro de conversa na beira de fogão que Chico nos faz sinestesicamente sentir com sua canção Exílio:
Adeus, minha terra
Adeus,
este chão
Cheiro
de conversa, beira de fogão
Roça,
vento a casinha, abençoou
Minha
vida todinha suas redes
Embalou
(…)
Adeus,
companheiros
De
vida neste mundo
Não
saio por que quero
Voltarei,
me desespero
Se
choro, choro mudo
Engolindo
o coração
Mas
a vida passageira, leva minha aflição.

Neste LP, Chico Mário cantou o exílio, mas também sua redenção. O sonho virtualizado no reencontro poético exibe-se em relatos que nos convidam a participar e comungar um estado de alegria, de euforia. Os dobrados das bandas, signo de uma rigidez marcial, entregavam-se festivos à cidade amanhecida de esperança na canção Bandeiras ao Alto:
A cidade
amanheceu
Em festa a banda
Tocava o dobrado
O povo correndo, apaixonado
Sentiam no peito
Coragem e medo.
Bandeiras
ao alto é dia
Bandeiras ao alto é hora
Alegria
geral,
Pula, grita, fala, chora.
(…)
As canções de Chico Mário talvez não façam parte de um hinário da anistia. Tampouco, encontram-se elencadas no rol das mais tocadas ou repercutidas. O que, claro, não interrompe, nem cala, sua força de missiva melódica.

O mesmo acontece com a obra pouco conhecida de Raul Ellwanger, compositor que teve relativa projeção com sua participação nas finais do festival da canção da TV Excelsior em 1968. De volta ao Brasil no ano de 1979, o cancionista e militante político gaúcho apruma sua estreia no mercado fonográfico com o disco Teimoso e Vivo. No ano seguinte, o LP é relançado para trazer participações de Wagner Tiso, Beto Guedes e de sua conterrânea Elis Regina (1945-1982). O álbum reverbera a angustia, as experiências do homem desterrado, e nos convida vasculhar a vida em exílio daquele recém-anistiado. É um testemunho que exibe as várias faces de uma mesma experiência decorrida tanto no mundo da vida, como em outro quimérico. Ao menos três canções trazem depoimentos importantes que decantam o tema sobre o qual estamos nos debruçando aqui. Teimoso e Vivo também é nome de canção, cuja teima está em vencer e resistir ao tempo, à noite, trazendo consigo a memória daqueles que quedaram no caminho:
Apesar de tudo
Sou
teimoso e insisto
Sou
teimoso e visto
A
pele dos soldados mortos
Neste carrossel de espanto
Que
carrego dentro dos olhos
Toco
melodias
Que
me ressuscitam
E sempre tenho que trocar as velas
Rebentadas
ao vento
Com
remendos colhidos
Dos
violentos trapos do tempo
(…)

Te procuro lá é uma parceria de Ellwanger com o poeta e também militante político, Ferreira Gullar. Longe ficou de ser escutada aos montes. Isso, porém, não cala a voz que diz cantando. Aqui, outra abordagem revela a face de um mesmo degredo, de uma mesma cisma:
Pode mudar de país
Pode
mudar de planeta
Pode
mudar de nariz
Pode
ir pro fundo do mar
Que
eu te procuro, eu te procuro
Eu
te procuro lá
Eu
te procuro, eu te procuro
Eu
te procuro lá
A canção O Pequeno Exilado tornou-se o grande destaque do LP. Ela trazia a presença e a voz de Elis Regina e a entregava ao proscênio sonoro da obra. A mesma Elis do Bêbado e a Equilibrista cedia de forma doce, gentil e materna seu gesto de intérprete ao acalanto de um miúdo que viveu o desterro ainda criança. Uma homenagem de Ellwanger a Charles Metzger, filho de um casal com quem o artista conviveu durante seu exílio na Argentina:
Navegas, navegas, navegas
Lá do outro lado do oceano
Na palma da mão já carregas
Vinte mil léguas de sonhos
Seguindo o teu pai que te leva
A bordo dos teus nove anos
Pequeno exilado sem pátria
Navegas teu barco de engano
Menino crescido sem terra
Teu único plano, o primeiro
É ver terminar tanta espera
É ser cidadão brasileiro
Elis, incidentalmente, aponta a doçura onde soa melancolia e luto. Nina quem escuta, como se os pegasse no colo, embalando-os com a cantiga tão popular de Caymmi:
Boi, boi, boi
Boi da cara preta
Ainda, Elis assume o primeiro plano da interpretação como alguém que sorrindo segura a mão de uma criança e a faz seguir confiante estrada afora sob a certeza de quem conhece a história e o caminho de cor:
Vem cá conhecer nossa história
Malandros, calçadas e festas
Vozes de todos os cantos ocuparam o tecido musical para cantar canções de gritar liberdade na esperança de ver terminar tanta espera, de fazer viajar 20 mil léguas seus sonhos e fé.
Escute aqui as canções:
Exílio – https://www.youtube.com/watch?v=4fHz1yYvOIw
Bandeiras ao alto – https://www.youtube.com/watch?v=RKPL0oHN-A4&t=67s
Teimoso e Vivo – https://www.youtube.com/watch?v=ajgihK3FdgU&feature=youtu.be
O Pequeno Exilado – https://www.youtube.com/watch?v=xPl8UgUOZk4
Te procuro lá – https://www.youtube.com/watch?v=3ixjF8gKN5w