Abertura 75 e outros mais

Por Ricardo Frei

Ao longo dos dois últimos meses nos decidamos a contar a história de uma época, de eventos, que proporcionaram um impulsionamento na produção da canção popular brasileira. Aquilo que Zuza Homem de Mello nomeou como a “Era dos Festivais” ajudou a consolidar ainda mais nossa tradição cancional, além de criar um dos enquadramentos mais importantes de nossa história musical: a MPB. A fórmula compositor popular + TV + plateia ficou consagrada. Por ser uma fórmula de sucesso, perdurou. Foram várias as tentativas que recorreriam ao prestígio daqueles certames para construir audiência midiática e, claro, carreiras. Nestes últimos conteúdos do mês, faremos uma lista que cita vários outros festivais menos conhecidos, onde se arriscaram grandes artistas da história da música. Foi também por lá que canções consagradas ganharam nossos ouvidos. Vamos lá!

Zé Ketti participou do III Festival Nacional da Música Popular Brasileira, entre junho e agosto de 1968, evento promovido pela TV Excelsior Rio. Sua samba “Você passa, eu acho graça”, dele e de Carlos Imperial estava entre as vencedoras, conquistando o quinto lugar.

O Festival Abertura, promovido pela Rede Globo, entre os meses de janeiro e fevereiro de 1975, contou com a participação de Jards Macalé, Djavan, Carlinhos Vergueiro, Clementina de Jesus, Lecy Brandão, Hermeto Pascoal, Walter Franco, Jorge Mautner, Alceu Valença, Geraldo Filme dentre outros. Os três primeiros lugares ficaram com as canções “Como um ladrão” (Vergueiro), Fato Consumado (Djavan) e Muito Tudo (Walter Franco). Hermeto Pascoal levou o prêmio de melhor arranjo. Clementina, de melhor intérprete.

O I Festival Universitário de Música Popular Brasileira, promovido pela TV Cultura de São Paulo, ocorreu entre os meses de abril e maio de 1979. Entre os participantes do certame estavam: Arrigo Barnabé, o grupo Premeditando o Breque, Mario Aydar, Celso Viáfora.  Arrigo, com sua canção “Diversões Eletrônicas”, faixa número 3 do seu celebrado álbum Clara Crocodilo, ficou com o primeiro lugar, seguido pela composição “Brigando na Lua”, defendida pelo Premê.

O Festiva 79 de Música Popular foi promovido pela TV Tupi e ocorreu entre os meses de novembro e dezembro do ano de 1979. A primeira eliminatória trouxe nomes como Marku Ribas, Diana Pequeno, Moreira da Silva, Jards Macalé, Caetano Veloso e Jorge Ben. Na segunda eliminatória, participaram Alceu Valença, Jackson do Pandeiro, Oswaldo Montenegro, Zé Ramalho, Kleiton e Kledir, Boca Livre, Mário Adnet. Na terceira e última, tivemos Elba Ramalho, Guilherme Arantes, Paulinho Boca de Cantor, Arrigo Barnabé, Dominguinhos, Fagner, dentre os artistas participantes. “Maria Fumaça” (Kleiton e Kledir), “Tira os óculos e recolhe o homem” (Moreira e Jards), “Sabor de Veneno” (Arrigo) foram finalistas. Mas as vencedoras foram “Quem me levará sou eu” (de Dominguinhos, interpretada por Fagner), “Canalha” (Walter Franco) e “Bandolins” (Oswaldo Montenegro). A curiosidade fica por conta da canção “Dona culpa ficou solteira”, de Caetano, interpretada por Jorge Ben, que ficou pelo caminho e sequer classificou para final.

Continua …

Os bastidores da vitória

Por Camila de Ávila

Em 1972, a fórmula dos festivais já não fazia tanto sucesso, a força da Ditadura militar que censurava tudo e todos fez com que a maior parte dos compositores parassem de se inscrever, e muitos outros estavam sendo perseguidos. Para esta edição do concurso, trinta canções Trinta canções foram selecionadas, e as eliminatórias foram realizadas nos dias 16 e 17 de setembro. Pela primeira vez, a final aconteceu no mesmo dia da segunda eliminatória.

Fio Maravilha

Foi nessa edição do festival que Raul Seixas surgiu e fez história com as canções “Let me Sing, Let me Sing” e “Eu Sou Eu, Nicuri É o Diabo”. O júri presidido por Nara Leão, foi destituído por conta das críticas da cantora à situação do país, queria que a canção de Walter Franco, intitulada “Cabeça”, ganhasse, e também a música “Nó na Cama”, de Ari do Cavaco e César Augusto, era querida por este grupo de jurados. É desse festival a canção “Eu quero é botar meu bloco na rua”, de Sério Sampaio.  Mas a escolha de um segundo júri, formada por estrangeiros, foi pela alienada canção de Jorge Ben (ainda não tinha o Jor), “Fio Maravilha” (escute aqui), defendida por Maria Alcina. A outra vencedora foi “Diálogo” (escute aqui), samba de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, interpretado por Cláudia Regina e Baden. Mas foi Fio Maravilha que entrou para história.

Jorge-Ben-Fio-Maravilha

A canção, para o momento era perfeita. A música narra uma jogada de futebol do jogados João Batista de Sales, atleta do Flamengo, time do coração de Ben Jor, que tinha o apelido de Fio Maravilha.  A música vem na ideia romana do pão e circo (não estou dizendo aqui que Jorge Ben Jor é ou foi um compositor alienado e que fazia sua canção sem preocupações políticas ou sociais – está aí Charles, Anjo 45 que diz o contrário), porque trata de um assunto que leva para a população diversão sem compromisso. Porém depois de um tempo, Fio Maravilha rendeu alguns problemas. Meses depois o jogador Fio Maravilha moveu ação cobrando indenização por uso de seu apelido e perdeu a ação. O atleta afirmou que não sabia do processo. Depois disso Ben Jor passou a cantar “Filho Maravilha”. Somente nos anos 2000, o jogador pediu desculpas para o compositor.

Nos bastidores

Como dito no segundo parágrafo do texto, o júri presidido por Nara Leão foi destituído devido ao seu posicionamento político.  Foram trocados por jurados gringos e, segundo o livro de Zuza Homem de Mello, “A era dos festivais – uma parábola” o júri presidido por Nara foi censurado. “Nos camarins o jurado brasileiro Roberto Freire berrava contra a violência de que fora vítima. Provavelmente por ser um destemido atuante em manifestações de caráter político, ele fora designado pelos companheiros do júri nacional para entrar no Maracanãzinho, penetrar nos camarins e subir ao palco para ler o comunicado que haviam redigido. Fazendo-se passar por músico de um dos grupos, Roberto entrou no palco para exercer sua arriscada e ingrata missão de arauto. Aproximou-se do microfone e estava lendo o início do manifesto quando sentiu-se agarrado. Foi violentamente arrastado pelos seguranças da TV Globo que o conduziram para atrás do palco jogando-o numa sala onde havia um grupo de policiais e um delegado que disse: “Podem bater porque ele também é comunista”. Diante da autorização os policiais se regalaram batendo para valer, com socos e pontapés, jogaram-no contra a parede, pisaram em suas costas, aplicaram uma tremenda surra deixando-o estendido no camarim com fratura nos  dois braços, no malar, em quatro costelas e uma couve-flor sangrenta em lugar do rosto. Totalmente lúcido Roberto viu quando Boni e outros diretores chegaram com  Nara, que vendo a cena disse: – Se vocês não lerem o comunicado, nós invadimos o palco e todos vamos ser espancados.”.

Diante da fala de Nara, Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho), diretor da Globo, permitiu a leitura do texto com uma censura: “Se vocês tirarem esse primeiro período (falando mal da Globo) eu mando ler”. E assim foi, enquanto o texto era lido, Roberto Freira era atendido por enfermeiros. “”Os integrantes do júri da fase nacional do VII Festival Internacional da Canção, cumprindo sua finalidade de apontar as duas composições musicais que representarão o Brasil na final internacional, decidiram indicar as seguintes concorrentes: “Cabeça”, de Walter Franco, e “Nó na Cana”, de Ari do Cavaco e César Augusto. Ao tempo que divulgam esta decisão, os membros de júri manifestam sua estranheza ante a decisão do Festival, destituindo-os sem qualquer explicação. Consideram ainda sua destituição um ato arbitrário e altamente suspeito. Rio de Janeiro, 30 de setembro de 1972”.

O público levantou uma faixa que dizia “O júri de gringos foi dirigido” e policiais subiram as arquibancadas a fim de arrancar a faixa. Nos camarins, a imprensa tentava encontrar Roberto Freire para uma entrevista, mas as ordens do Coronel Ardovino Barbosa era “bota a imprensa pra baixo no pau”. Foi assim que a canção “Fio Maravilha” ganhou, junto da música “Diálogo”, o Festival de 1972.

Os outros festivais

Por Ricardo Frei

Já tratamos aqui de vários personagens e histórias que marcaram os festivais da canção. Sempre tentamos trazer um outro olhar, uma outra abordagem para uma fase da história da canção brasileira tão conhecida e tão estudada. Falamos de Chico, Caetano, Vandré, Edu, Dori, Nana, Nara, Elis e tantos outros artistas que frequentaram os certames e deram sentido ao que chamamos até hoje de Música Popular Brasileira. Queremos hoje iniciar uma série de postagens que buscam destacar outros festivais e outros nomes que tiveram importância especial para história da nossa música popular. Num espaço como este, que busca construir conteúdos relevantes, que pretende ser um lugar de memória, não poderíamos deixar de fora esses outros festivais.

Em 1967, o segundo FIC (Festival Internacional da Canção), promovido pela TV Globo, ajudou a estruturar a carreira de Milton Nascimento, que classificou três canções de sua autoria: “Travessia”, “Morro Velho” e “Maria, Minha Fé”. Milton já era considerado a grande revelação mesmo antes de iniciado o festival, que sofreu uma espécie de boicote dos principais nomes da MPB, por conta de uma interferência política na escolha das canções. Houve uma debandada como forma de protesto. Assim, o II FIC polarizou as atenções com o Festival da Record, que acolhia os principais nomes dos festivais até então.

Porém, isso não quer dizer que o festival da Globo estivesse totalmente esvaziado de compositores e cantores, então, prestigiados. Além das canções de Milton, contou com a presença de Pixinguinha e Hermínio Bello de Carvalho, com “Fala Baixinho”. Chico Buarque, como convidado especial, também concorreu com “Carolina”. E o baiano Gutemberg Guarabira, junto com os integrantes do grupo Manifesto, fez a plateia se entusiasmar com a canção “Margarida”, a grande vencedora da fase nacional. Ah! O FIC tinha fases nacionais e internacionais. Nesta última, fazia parte do júri nomes como o de Quince Jones e Henri Mancini, por exemplo. “Margarida” ficou em primeiro lugar na fase nacional (e em terceiro na Internacional). “Travessia”, de Milton, ficou em segundo. Chico ficou em terceiro com “Carolina”. E Vinícius de Moraes alcançou o quarto lugar com “Fuga e Antifuga”, dele e de Edino Krieger. A grande vencedora da fase nacional quase não é lembrada, embora seu compositor e intérprete tenha ganhado estrada ao lado, primeiramente, do trio Sá, Rodrix e Guarabira, e, depois, com a famosa dupla Sá e Guarabira. Mas o grande vencedor deste concurso foi mesmo Milton, que além de ter sido o artista mais premiado do festival, viu sua carreira ascender, projetando-se tanto no mercado interno, quanto no estrangeiro, com o lançamento de Courage em 1968.

Mais festivais quase esquecidos … é o que você terá por aqui nas próximas postagens!

Caetano e os festivais

Por Camila de Ávila

É estranho pensar que Caetano Veloso nunca ganhou um festival. Nem o da Record, nem o da Excelsior, nem o da TV Tupi, nem o da Globo. Mas o seu nome sempre esteve lá de forma marcante e promovendo momentos históricos. Sua melhor colocação foi em 1968, quando conquistou o terceiro lugar com a canção Divino Maravilhoso (escute aqui), interpretada por Gal Costa no IV Festival da Música Popular Brasileira.

Cae Festival

Em 1966, Caetano ganhou pela canção “Um dia”, que foi defendida pela cantora Maria Odette, o prêmio de melhor letra. No livro de Zuza Homem de Mello, “A era dos festivais – uma parábola musical”, é narrado que “o jurado Roberto Freire foi jantar no Gigetto e, vendo Caetano Veloso numa das mesas, aproximou-se para lhe dar os parabéns pelo prêmio de melhor letra. Eis que ouviu: ‘Não precisa me dar parabéns. Só quero parabéns quando ganhar o primeiro lugar’”.

Caet Veloso festival

Em 1967, Caetano iniciou sua apresentação sob vaias e conseguiu dobrar o público deixando sua canção “Alegria Alegria”, uma de suas músicas mais celebradas até hoje, em quarto lugar daquela edição da competição musical. Mas foi em 1968 que Caetano fez o discurso que entrou para a história. “A apresentação de “É proibido proibir” acabou se transformando num happening acaloradíssimo naquela noite de domingo, 15 de setembro de 1968. Na final paulista do FIC, realizada no Teatro da Universidade Católica de São Paulo, a música de Caetano foi recebida com furiosa vaia pelo público que lotava o auditório”, segundo texto do site tropicalia.com.br, um projeto de Ana de Oliveira. “O provocativo Caetano apareceu vestido com roupas de plástico brilhante e colares exóticos. Entrou em cena rebolando, fazendo uma dança erótica que simulava os movimentos de uma relação sexual. Escandalizada, a plateia deu as costas para o palco. A resposta dos Mutantes foi imediata: sem parar de tocar, viraram as costas para o público”.
3.-proibido
Sobre o discurso, Nelson Rodrigues, entusiasta da ditadura disse: “Quis cantar, e esmagaram seu canto (…) Súbito, os brios de Caetano Veloso se eriçaram mais que as cerdas bravas do javali. Ele começou a falar. Era um contra 1500. E um que dizia a sua feroz mensagem nos trajes mais impróprios para o seu rompante. Sim, estava de peruca, plumas, batom, salto alto etc. E disse as verdades que estavam mudas, sim, as verdades que precisavam ser ditas – urgentes, inadiáveis e santas verdades (…) Tivemos, pela fúria de Caetano Veloso, um momento da consciência brasileira”.

MPB

Por Ricardo Frei

Já dissemos aqui no Escuta Só sobre como o acrônimo MPB se efetiva como identificador de um produto artístico e musical na década de 1960. Como é possível perceber, os festivais traziam, sem abreviação, o termo Música Popular Brasileira em seus títulos. Naquele momento, parecia mesmo ser uma tarefa mais simples identificar o que era e o que não era uma música brasileira de cunho popular. Em suma, para ser popular e brasileiro naquele momento, os “árbitros” e estetas recorriam a alguns parâmetros. Para compor o universo da MPB, a canção e os artistas, dentre outras coisas, precisavam deixar evidente sua inspiração nacionalistas diante das influências estrangeiras que invadiam nossos ouvidos. Também era necessário deixar evidente seu vínculo com a produção do universo do samba, tomando como marco fundamental as transformações da década de 1920, e ainda admitir alguns elementos regionalistas (o frevo, as cirandas, o baião) como signo de um olhar integrador das manifestações consideradas como legítimas do povo brasileira. Estava colocado aí o chamado projeto nacional popular. A dificuldade encontrada nas décadas seguintes para identificar o que seria a tal MPB, na verdade, apenas mostra a dinâmica das rotulações e das modificações estéticas/comerciais que qualquer atividade própria de uma cultura experimenta ao longo do processo histórico. O popular, até então, não dizia de uma facilidade de acesso ao conteúdo da obra, nem mesmo a uma espécie de índice de consumo. Ao longo do tempo a MPB se transformou. A pergunta sobre o que define a tal MPB persiste como algo de difícil resposta. Podemos, contudo, dizer que a MPB hoje é uma sigla que carrega consigo a história de triagens e misturas orientadas por um projeto original de se fazer canções. Para se considerar um cantor de MPB não basta rotulações próprias, tags ou autodeclarações (embora tais estratégias sejam legítimas). Cada vez mais, parece que a forma que temos de associar um artista e sua obra ao universo da MPB passa por uma identificação de associações e influências históricas que sejam capazes de incorporar traços das produções que originariamente surgiram com os sambas do início do século XX, foram transformadas pela Bossa Nova, ganharam voz nos certames televisivos da década de 1960, misturaram-se com as coisas daqui e de alhures via Tropicália e, enfim, seguiram em frente. A cada década experimentamos uma nova MPB, que atualiza e garante a importância daquelas canções de festivais como referências necessárias ao vigor da nossa música popular.

Festival ou “The Voice”

Por Camila de Ávila

O Festival da canção de 1967 apresentou para o público disputas acirradas e deixou para cancioneiro popular belas canções. Dentre elas está a música de Dori Caymmi e Nelson Motta, “O cantador”, que foi defendida por Elis Regina, que levou o prêmio de melhor intérprete.

No documentário “Uma noite em 67”, os compositores da canção contam causos sobre o festival. Nelson Motta, além de estar no festival como competidor, era o jornalista responsável pela cobertura do evento. Nelson conta que quando viu Caetano Veloso subindo ao palco, para defender sua canção “Alegria Alegria”, sob intensas vaias, seu lado mal sorriu. “Havia uma rivalidade, muito estimulada pela Record, que tinha praticamente o monopólio dos musicais. O forte na televisão eram os musicais e não as novelas, como hoje. E a Record tinha sob contrato 90% da música brasileira(…). E olha que situação. Estou lá assistindo o festival numa tripla situação: como jornalista, como amigo do Caetano e como concorrente, afinal de contas minha música tava ali na final. Quando entrou o Caetano e aqueles argentinos do Beach Boys, rock’n roll, foi uma vaia fenomenal. Para você ver que o ser humano não vale nada, eu pensei assim: ‘Meu Deus. Menos uma’. Eu não vaiei, mas não me incomodei que tivessem vaiado. (…) Aí o Caetano Veloso foi dobrando o povo, a vaia se tornando aplauso e mais aplausos, quando vi, provando que o ser humano vale alguma coisa, eu estava aplaudindo e ovacionando o meu concorrente”.

dori caymmi e elis

Sobre a canção “O cantador”, Dori Caymmi, compositor da música, diz o arranjo apresentado na competição não era o que ele queria. “Parece uma pilantragem, né? Que é o que o Simonal falava”, diz. “’O cantador’ é uma música que eu fiz no estilo tão toada, tão relax, e a gravação da Elis era uma coisa muito… eu não sei te dizer… a palavra medíocre não é, mas é tão errada. Aí eu tive que tocar violão pra tentar consertar e para aparecer também, para você mostrar a fachada nos festivais, o seu rosto. A canção tinha mudanças de tons, coisa apelativas, que não tinha nada a ver com a minha música. Tirou todo o espírito da canção. Não achava que a Elis foi a melhor intérprete do festival não. Se bem que eu acho que ela era a grande cantora do Brasil na época e será sempre”.

O primeiro de Vandré.

Por Ricardo Frei

O primeiro festival da canção de âmbito nacional foi organizado e exibido pela TV Record no ano de 1960. Ganhou o nome de Festa da Música Popular. A vencedora foi “Canção do Pescador”, de autoria de Newton Mendonça. Newton, parceiro de Tom Jobim em clássicos da bossa nova, tal como “Samba de uma nota só”, “Desafinado” e “Meditação”, morrera, aos 33 anos, havia pouco mais de um mês. O certame inaugural quase não é lembrado. Quem retoma o fôlego para consolidação do prestígio dos festivais é a TV Excelsior, que em 1965 lançou o      I Festival Nacional da Música Popular Brasileira da TV Excelsior, cuja vencedora foi nada mais, nada menos que “Arrastão”, canção de Edu Lobo e Vinícius de Moraes, interpretada por Elis Regina. No ano seguinte, o II Festival da TV Excelsior viria a premiar um dos principais cartazes da era dos festivais e, também, um dos mais polêmicos: Geraldo Vandré.

As eliminatórias aconteceram nas cidades de Guarujá (palco do primeiro festival em 1960), Porto Alegre, Recife, Ouro Preto e Ipanema. Foi em Ouro Preto que a cantora Tuca defendeu a canção Porta Estandarte, autoria de Vandré. Classificada para a final ganhou o certame batendo canções de compositores que viriam a se firmar como grandes nomes da MPB. Boa Palavra, de Caetano Veloso, e Cidade Vazia, de Baden Powell, interpretado por Milton Nascimento, por exemplo, ficaram respectivamente em quinto e quarto lugar geral do concurso.

Este foi o primeiro passo para Vandré se tornar uma referência da música brasileira nos anos 1960. Nas palavras de Zuza Homem de Mello: “de todos os participantes do II Festival da Excelsior, quem mais se beneficiou foi inegavelmente Geraldo Vandré. Seu desejo de fazer canções identificadas com os anseios e os valores culturais do povo de seu país passou a ser viável e, principalmente, reconhecido (…) Em suma, Vandré passou a encarnar, por um período, o compositor dos festivais, aquele que dizia o que as torcidas queriam ouvir”. E essa sintonia entre Vandré, festival, público e clima de opinião estava tão bem alinhada que em defesa de Vandré e de uma arte politicamente engajada, o festival, um dia, vaiou Chico Buarque e, imagine, Tom Jobim.

Sinal e boca fechados…

Por Camila de Ávila

“Sinal Fechado” (escute aqui), que passa sensação de urgência, foi composta pelo sambista carioca Paulino da Viola para o que seria o último Festival da Canção da TV Record em 1969. No ano anterior (e no post anterior) a vencedora havia sido “Sabiá” (escute aqui), de Chico Buarque e Tom Jobim, lírica e carregada de críticas ao regime militar que comandou o Brasil entre 1964 e 1985. A música de Paulinho da Viola surge como um alento aos momentos tão pesados do país. Será?

paulinho da viola maio 1969

De acordo com Zuza Homem de Mello a crítica que “Sinal Fechado” apresentava é profunda. “Na letra de “Sinal Fechado”, a dificuldade do diálogo, o isolamento na cidade, a necessidade de fuga e o final sem fim, refletem a mordaça da comunicação. Para a historiadora Ângela de Castro Gomes, é a melhor das músicas de festival com conotação política, elaborada em pleno regime militar. Paulinho, que jamais pretendeu fazer uma música retratando esse período, fez questão de dar esse caráter pesado ao lirismo da composição através do arranjo e de sua interpretação fria”, afirma no livro “A era dos festivais – uma parábola”, da editora 34.

Zuza conta, no mencionado livro, que a música surgiu de um sonho do compositor. “Paulinho embarcava num ônibus e via alguém lá na frente com quem desejava falar. Como o ônibus estava muito cheio, tinha que se comunicar por sinais, que eram correspondidos. O veículo parava exatamente no mesmo ponto, como se tivesse se movimentado e, ao mesmo tempo, permanecido no mesmo lugar. A pessoa saltava, enquanto ele, ainda de dentro, tentava inutilmente continuar a comunicação”.

(Texto retirado do semanário #Momentos.Musicais)

 

De novo o mesmo embate

Por Camila de Ávila

Em 1968 os ânimos no país estavam acirrados. A coisa não estava boa, o Regime Militar estava deixando suas marcas de forma mais intensa e sem nenhum disfarce. Agressões, torturas, censura, fechamento de escolas, teatros, cinemas, tudo isso e muito mais. Perseguições, as pessoas não podiam conversar nas ruas que eram vigiadas por vizinhos de classe mediana medrosos de um comunismo que nunca existiu no país ou no mundo. A forma de falar o que se pensava ainda se fazia por meio das canções. Eis que na grande final houve uma disputa muito intensa entre Chico Buarque, dessa vez acompanhado de Tom Jobim, versus, Geraldo Vandré. De novo.

As canções eram “Pra dizer que não falei das flores” (escute aqui), mais conhecida como “Caminhando”, e “Sabiá” (escute aqui). A grande questão é que as músicas eram bem diferentes, mas falavam da mesma coisa. Ambas as canções faziam coro numa crítica ferrenha e densa contra a ditadura militar. Porém uma é lírica e poética, a outra é panfletária e agressiva. Para um período em que as pessoas queriam ser ouvidas a qualquer custo, a poesia de Sabiá não cabia. Sendo assim, a força da retórica de Caminhando, era muito mais representativa que a canção de Tom e Chico.

Quando foi anunciada vencedora, Sabiá levou uma vaia tão grande que as cantoras Cynara e Cybele, do Quarteto em Cy, não conseguiam se ouvir. O Maracanãzinho estava cheio de pessoas furiosas com o festival que foi vencido, segundo o público da época, por uma canção alienada. Quando Vandré cantou o seu segundo lugar, as pessoas gritavam que o resultado do concurso havia sido uma marmelada e neste momento ele cunhou uma das frases mais famosas do período: “Gente, gente! A vida não se resume a festivais”.

Despois de cantá-la, Vandré passou a ser perseguido. De acordo com o livro de Zuza Homem de Mello o artista saiu do país através da fronteira com o Paraguai, totalmente disfarçado. Do Paraguai foi para o Chile e de lá para Paris, onde ficou por um bom tempo. “… voltou ao Brasil com a ajuda de um coronel do exército que articulou sua volta. Fez então um pronunciamento renegando qualquer ligação com os adversários da ditadura militar”, conta Zuza. Nos anos 1990, Vandré cantou, em um almoço no Rio de Janeiro, algumas canções que havia composto a pouco. Dentre elas estava a música Fabiana. “Ao ser preguntado pelo título, respondeu: ‘Fabiana’. Por certo dedicada a uma namorada, deduziram. Não respondeu Vandré: “É uma homenagem à FAB”.

Edu Lobo: o maior “cartaz”.

Por Ricardo Frei

É curioso pensar que, dentre os vários artistas que firmaram seus “cartazes” por meio da participação em festivais, Edu Lobo permaneça como um dos menos conhecidos do público geral. Filho do jornalista e compositor Fernando Lobo, amigo de Vinícius de Moraes, Edu formou-se sob forte influência da bossa nova e das escutas afetivas de uma Recife da infância, onde passava suas férias escolares. Sua carreira profissional se inicia na década de 1960 atrelada em boa medida às peças teatrais e ao movimento politicamente engajado que se colocava como desdobramento dos princípios bossanovísticos. Suas canções fizeram parte da trilha sonora de peças como Arena Conta Zumbi, Os Azeredos Mais os Benevides, Opinião, Deus lhe Pague, Berço do Herói, obras escritas por autores que abertamente militavam contra a ditadura militar. Isso competiu de maneira direta para que Edu entrasse no rol dos músicos politicamente engajados. Foram estes músicos que ocuparam, sobremaneira, o palco dos festivais. E Edu pode ser considerado como um dos personagens mais importantes dessa fase da MPB. Dentre os vários artistas que passaram pelos festivais, Edu Lobo está entre os mais assíduos e importantes, ao lado de Chico e Vandré.  Se somarmos todos os festivais das TVs Excelsior, Globo, Record e Rio, entre 1965 e 1968, auge das competições, apenas o II Festival Nacional de Música Popular Brasileira da TV Record (1966) e o III Festival Internacional da Canção da TV Globo (1968) fizeram as finalíssimas sem contar com uma canção de Edu Lobo. Neste último não foram classificadas para as finais as canções “O Sonho” (Egberto Gismonti) e “Maré Morta” (Edu Lobo e Ruy Guerra), tomadas como injustiçadas pela crítica. Em outras duas oportunidades foi o ganhador da Viola de Ouro: Arrastão (Edu Lobo e Vinícius de Moraes) venceu o I Festival Nacional da Música Popular Brasileira (TV Excelsior, 1965) e Ponteio o III Festival da Música Popular Brasileira (TV Record, 1967). “Memória de Marta Saré” (Edu Lobo e Guarnieri) levou o segundo lugar – júri popular e especializado – no IV Festival da Música Popular Brasileira (TV Record, 1968). E, assim, não seria exagero dizer que Edu foi o maior “cartaz” dos festivais dos anos 1960. Tornou-se ídolo jovem antes mesmo de experimentarmos aquilo que passou à história como a “Chicolatria”. Foi alvo de fofocas, teve a vida invadida por colunistas sociais.  Jornais de época apontavam: “Edu Lobo é o nosso Bob Dylan”. Com uma personalidade forte, e avesso a tudo isso, mudou-se para o exterior para estudar composição e regência. Assim, construiu uma pausa estratégica em sua carreira. Retoma seu prestígio com a produção de trilhas para teatro, formando com Chico Buarque a dupla de compositores, para muitos, perfeita!