Atire a primeira viola…

Por: Camila de Ávila

O Festival da Canção de 1967 foi tão incrível que tem até um documentário que conta a sua história. Além da surpresa da campeã, a parceria de Edu Lobo com José Carlos Capinam, “Ponteio” (escute aqui). A ousadia da canção que ficou em segundo lugar, de Gilberto Gil, “Domingo no parque” (escute aqui), que levou o grupo de rock, Os Mutantes, para o palco do festival da música popular. Teve a marcante “Roda viva” (escute aqui), de Chico Buarque, que utilizou o recurso criado para as canções de festival, a desdobrada, com arranjo de Magro, do MPB4. Mas, o fato que marcou mesmo o festival foi o violão quebrado e atirado contra o público por Sérgio Ricardo. O artista defendia sua composição “Beto Bom de Bola” (escute aqui), que foi duramente vaiada pelo público a ponto do músico não se ouvir e não conseguir cantar a canção.

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Brasil, São Paulo, SP. 23/10/1967. O musico Sergio Ricardo quebra o violão durante o Festival de Musica Popular Brasileira. Foto: Arquivo/AE Pasta:40.400

A irritação de Sérgio Ricardo, nome artístico de João Lutfi, era legítima. Na primeira apresentação da canção, ela foi vaiada e, na grande final, o apresentador do Festival, Blota Jr., pediu que o público desse um voto de confiança para a canção. “Sorridente e confiante, Sérgio, com um pé sobre o banquinho, aguardava que o bulício do público se extinguisse e, diante da inquietação que existia, em vez de começar, tentou dialogar com a plateia: “Eu quero que vocês me ouçam um instante. Aqui na plateia há gente inteligente”. Quem estava no fosso falava “Canta! Canta!”. Sérgio continuou: “Vocês podem vaiar. Depois deste festival a minha música vai chamar “Beto Bom de Vaia”. A blague surtiu um efeito desastroso. Em vez de se aquietar, a plateia se excitou; surgiram vaias assustadoras e grande parte do público ficou de pé como se ouvisse uma caçoada. Na coxia, o nervosismo aumentou, e todos o compeliam a cantar de uma vez. Sérgio ainda tentou convencer o público: “Atenção.. um minutinho”. Não conseguia ser entendido, as vaias ensurdecedoras encobriam com folga o som de sua voz. Apenas o seu microfone Philips, duro e apropriado para captar somente a voz do cantor, estava aberto e, ainda sim, ele mal era ouvido pelos alto-falantes”, lembra Zuza Homem de Mello na publicação “A era dos festivais- uma parábola”. (veja a cena aqui)

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Foto Acervo Estadão.

Ele tentou cantar. Iniciou com um forte grito, que fazia parte da música, e em seguida ela entrava num sambinha. Depois a música ralentava, e foi aí que Sérgio perdeu a boa. “Não consigo nem ouvir o tom”, disse. Aí ele parou de tocar e disse: “Vocês ganharam! Vocês ganharam! Mas isso é o Brasil desenvolvido. Vocês são uns animais!”, quebrou o violão e jogou no público.

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Depois de muito tempo, 30 anos, Sérgio Ricardo, falou sobre o ocorrido no livro “Quem quebrou meu violão”: “Eles eram positivos para os novos compositores, que precisavam mostrar seus trabalhos. Eu já era conhecido e não deveria ter concorrido, mas para Chico, Gil, Caetano, Edu Lobo e outros, os festivais foram importantes. Hoje as gravadoras só pensam em retorno comercial e não em cultura. Isso é sério, porque pessoas de valor não encontram meios de divulgar seus trabalhos e os festivais cumpriam esse papel”.

Tony e a BR-3

Tony e a BR-3

Por Ricardo Frei

Dos festivais televisivos da década de 1960, surgiu aquilo que chamamos de MPB. Ali estava uma espécie de segunda geração da Bossa Nova, que acrescentou aos elementos estéticos da inovação proposta por João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, pitadas de regionalismos, um punhado de política, outro tanto de aspectos de uma posição crítica nacional-popular. Engana-se quem pensa que não havia ali lugar para manifestações outras que não essas ligadas ao universo do samba e dos regionalismos brasileiros. A própria Tropicália, desde dentro, utilizou os festivais para propor sua forma alegórica e crítica de reinventar a canção, de fazer soar as relíquias do Brasil, recorrendo a sonoridades do pop e do rock internacionais. Depois de uma década de festivais, já no ano de 1970, o V Festival da Canção da TV Globo teve como vencedora a canção “BR-3”. O intérprete: um homem de um metro e noventa e quatro centímetros de altura, cabelo black power, que ocupou o palco com um presença absolutamente contrastante com aquela dos adeptos do recato bossanovístico: Tony Tornado. Sua exuberância também o distinguia dos happenings tropicalistas. Sua voz soava o gospel, o soul e o funk norte americanos. O corpo e seu jeito de dançar (mimetizando James Brown) estavam em absoluta sintonia com o seu gesto vocal. A música havia sido oferecida a Simonal e também a Tim Maia, mas foi depois de escutar Tony como crooner em um inferninho de Copacabana que Tibério Gaspar, um dos autores de “BR-3”, escolheu quem defenderia a canção no palco do festival. Tony saiu vencedor. E uma composição inspirada no soul americano, sem pretensões políticas, foi ovacionada por uma plateia entusiasmada, que dois anos antes vaiara – nada mais, nada menos – que Chico Buarque e Tom Jobim, por entenderem “Sabiá” como uma obra menos politizada do que a “Pra Dizer que Não Falei das Flores” de Vandré. Eram sinais de um tempo fechado que parecia se abrir, ao menos musicalmente, frente às vozes que vinham de longe.

A peleja de 1966

Por Camila de Ávila

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O Festival da Canção de 1966 teve na competição canções como “Um dia” de Caetano Veloso, “A Banda” (escute aqui) de Chico Buarque, “Disparada” (escute aqui) de Geraldo Vandré e Théo de Barros, “Ensaio geral” de Gilberto Gil, entre outras belíssimas canções. Na primeira eliminatória, a parceria de Vandré e Théo de Barros foi a mais aplaudida. Defendida por Jair Rodrigues, acompanhado pelo Trio Marayá e Trio Novo que contava com uma instrumentação inovadora para época: viola caipira, percussão e uma queixada de burro. Na segunda eliminatória a espera era pela canção de Chico Buarque que seria defendida por Nara Leão. A promessa é que ela cantaria à frente de uma bandinha de coreto do interior, com tuba e bumbo. A apresentação não foi boa, porque a pequena voz de Nara foi apagada pelo som da banda (na segunda apresentação, Chico cantou a canção acompanhado somente de seu violão e em seguida Nara entrou com a bandinha). Mesmo assim a música foi muito aplaudida, graças a grande torcida por Chico Buarque.

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De acordo com o livro “A era dos festivais – uma parábola” de Zuza Homem de Melo, estava claro a preferência do público por duas canções: “’A banda’, que revivia a pureza de espírito das cidades do interior nos anos 1930 e a moderna moda de viola ‘Disparada’, que pintava com cores nunca antes percebidas a vida de um boiadeiro que era rei”, diz o pesquisador. “Enquanto a plateia mais politizada torcia por ‘Disparada’, na outra ponta estavam os que só queriam saber de ‘A Banda’”. A imprensa, a opinião pública e os participantes estavam divididos.

Ao fim da peleja, os jurados decidiram pela vitória de “A banda”. A canção de Chico conquistou sete votos enquanto “Disparada” ganhou o voto de cinco jurados. Porém, algo não deu certo. Chico Buarque se recusou a receber o prêmio. “Enquanto o júri estava decidindo, Chico Buarque, já desconfiado de iria ganhar, ouviu alguém afirmar: ‘Você ganhou’. Parecia uma grande notícia, mas Chico foi para perto de Paulinho de Carvalho (diretor do festival e da TV Record) e disse: – Olha aqui, não deixa eu ganhar de ‘Disparada’. Eu não posso levar esse prêmio sozinho”, lembra Zuza nas páginas da mencionada publicação. Paulinho de Carvalho propôs a Chico que dividisse o prêmio. Chico topou e nenhum compositor soube desse acerto naquela hora. “Chico pediu que pelo amor de Deus não se contasse como fora o final da apuração: tinha consciência de que ‘Disparada’ era melhor”.

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Segundo Zuza, “A banda” é uma canção de harmonia simples e intuitiva. “Era a favorita do público por ser uma marcha fácil de cantar, festiva e contagiante, em que batem palmas ingenuamente”, diz. “Contudo, ‘A banda’ não era uma obra-prima. ‘Disparada’ é uma obra-prima no trabalho de Vandré, Théo, da música sertaneja (…). Sua construção é irretocável na letra e na música”.

Quando o tema da música começa a mudar

Por Camila de Ávila

Alguns não acreditam, mas no Brasil houve um período em que os militares administraram o país. Tudo começou no ano 1964, quando, por meio de um golpe militar (não uma revolução gloriosa como pregam alguns), os militares tomaram o governo provisoriamente. Mas esta administração provisória durou 21 anos. Bem, o nosso assunto aqui é que os artistas (sempre eles) queriam poder falar e deixar seus pensamentos livres e, por isso, começaram a criar canções e peças teatrais que denunciavam os mandos e desmanados do regime totalitário.

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Uma das armas utilizadas por eles foram os Festivais da Canção que nada mais eram que um concurso anual de canções originais e inéditas criado em 1965, sendo realizado ininterruptamente até 1969. A ideia veio do Festival de Sanremo, que é considerado um dos mais importantes eventos de musicais do mundo, realizado desde 1951 até hoje.
A primeira vencedora dos Festivais foi uma parceria de Edu Lobo com Vinícius de Moraes, defendida por Elis Regina. “Arrastão” (escute aqui) criou com um novo formato de música conhecida como a MPB (em maiúsculas), além disso, ela tinha uma característica que ficou conhecida como desdobrada, criada pela intérprete sob a direção do bailarino norte-americano Lennie Dale. Segundo Zuza Homem de Melo a desdobrada era o que uma canção de competição deveria ter. “Além de ressaltar a marcação da frase, a desdobrada causava um dinamismo tão invulgar que o público era levado a aplaudir ali mesmo, antes de a música terminar. A técnica caiu como uma luva na interpretação de uma cantora como Elis, que, sabendo como criar e explorar a dinâmica de uma canção deu um novo destino ao seu visual e ao da própria música popular brasileira na televisão”. Vale lembrar que foi neste momento que Elis ganhou o apelido de “hélice Regina”, porque ficava girando os braços com força quase levantando voo.

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Importante falar sobre o tema da canção. Em 1965, a música nacional ainda vivia os auspícios da Bossa Nova, que cantava “o amor, o sorriso e a flor”. Quem estava saindo dessa temática começa a se inserir na cultura nacional resgatando o samba do morro. “Arrastão” surge como uma saga praiana que fala do trabalhador braçal. Ou seja, estava surgindo um novo personagem na música nacional.

Nova MPB: outro nível de vínculo.

Por Ricardo Frei

A Nova MPB, essa que surge com o no início dos anos 2000, traz algumas particularidades que nos ajuda a compreender por que tipo de renovação a MPB, aquela surgida nos 60´s, anda experimentando. Um traço fundamental é que o mainstream já não figura como o grande responsável por alavancar aquelas carreiras. É pela via independente, inspirados, sobretudo, na forma como a chamada vanguarda paulista se consolidou no fim dos anos 1970, que essa geração se lança. Rômulo Fróes, espécie de porta-voz não oficial da Nova MPB, diz em várias entrevistas que ser independente é um traço mais importante para aqueles músicos do que qualquer referência estética. Não que ela inexista. Ela aparece em outro traço marcante da obra destes novos emepebistas: o diálogo criativo com a tradição da música popular. E este diálogo se dá muito francamente não apenas com a vanguarda já citada, mas também com o gesto tropicalista original. Isso que pode ser francamente percebido nas regravações, na composição de repertório, tal como na mix de influências musicais que soam nas canções. Além disso, também revelam outro nível de vínculo que extrapola a mera influência. Muitos dos nomes que integram a Nova MPB são filhos de outros nomes consagrados sob o acrônimo em sua versão mais antiga. É o caso, por exemplo, de Dani Black, filho de Tetê Espíndola; Anelis Assumpção, filha de Itamar Assunção; Tulipa Ruiz, filha de Luiz Chagas (Banda Isca de Polícia); Mariana Aydar, filha de Mário Manga (Premê); Tim Bernardes, filho de Maurício Pereira (Os Mulheres Negras) e por aí vai …

Nome pesa?

Por Camila de Ávila

O que é a linhagem familiar? Quando se carrega o sobrenome Caymmi pode ser uma benção ou um fardo. A benção é no que tange as portas da carreira artística e musical já estarem abertas e sem julgamentos. O fardo vem na mesma direção. O peso do sobrenome pode ser cruel. Comparações e cobranças muito severas. O que Alice fez para mudar isso? Criou uma estrada diferente da do Clã e se tornou uma artista singular.

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A música de Alice é experimental, forte e nada convencional. Alice ousa cantar o que é de seu avô, o grande Dorival, e, em shows, a banda de pagode Molejo. A jovem canta clássicos da mpb e faz parceria com Pablo Vittar (artista ainda muito rejeitada e julgada).
Formada em artes cênica pela PUC-RJ, Alice faz de suas apresentações mais que um show, são instalações estéticas em que a artista se entrega a cada canção de forma única e visceral. Sem medo do risco, Alice parte para o desconhecido mundo da música nova sem deixar de ovacionar a canção feita de forma tão singular por sua família.

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Em seu último disco, Electra (escuta a canção Diplomacia do novo disco), lançado em maio deste ano (2019), Alice faz uma viagem nas canções esquecidas do cancioneiro nacional e dá uma roupagem inédita, arranjos (somente do piano de Itamar Assiere) trabalhados e uma ousada estética. Segundo o crítico musical Mauro Ferreira, “em Electra, com segurança vocal que a põe em primeiro plano no time de cantoras da geração 2010 da música brasileira, Alice Caymmi enfia a faca no peito de repertório que sangra feridas abertas”, afirma o jornalista destacando a pesquisa de repertório da cantora, a interpretação dramática e a afinação e timbre que só um Caymmi pode ter.

O novo Tim

O garoto ainda não completou 30 anos e é considerado um dos grandes compositores de sua geração. Tim Bernardes faz parte da banda de rock paulistana “O terno”, fundada em 2009. O grupo é  uma das referências da música independente brasileira e é uma das fundadoras do selo RISCO.

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Mas o que impressiona em Tim Bernardes é a sua forma de compor. Desde o lançamento do primeiro disco com o trio paulistano, Tim Bernardes teve as suas composições elogiadas. Não à toa, coleciona parcerias com David Byrne, Tom Zé e Paulo Miklos. O menino fala de amor de uma forma verdadeira, intensa, densa e quase rasgando os pulsos. Tim fala de tristeza e alegria como se ali, no momento em que está escrevendo a canção fosse o último da sua vida. Em seu disco solo, “Recomeçar” (escuta aqui), lançado em 2017, Tim mostrou seu quarto, como muitos dos artistas dessa nova geração da mpb, o artista se mostra inteiro e parece que fala exatamente do que sente, e não de um personagem ou de alguém imaginado. As letras das canções, bastante elogiadas pelo público e crítica especializada, são reflexões solitárias sobre desilusões amorosas e esperanças. O álbum tem 13 faixas, todas compostas por Tim, que também é o responsável pelos arranjos orquestrais de cordas, sopros e harpa.

Como disse Paulo Miklos no show “A gente mora no agora”, realizado no Teatro do Minas Tênis Clube, Tim Bernardes é especial. “É impressionante como um menino que ainda está na casa dos 20 anos componha com tanta verdade, sensibilidade e falando de coisas que ele ainda não viu com propriedade e inteligência”, afirmou Miklos.

Assistir ao show de Tim Bernardes é um mergulho na penumbra. O álbum Recomeçar, disponível nas plataformas digitais, é um risco. Uma viagem para dentro de si, suas dores e desejos. Tim, como poucos, consegue, sentado, sob luz baixa e compenetração, quase na penumbra do palco, levando o público para uma viagem ao interior de cada um.

Música coletiva

Por Camila de Ávila

“Apresento aqui outra Nova MPB, que não vê a última como antiga ou caduca, mas que se desvencilha de suas amarras para dar sentido, hoje, à tradição: Rômulo Fróes, Filipe Catto, Dani Black, J. Hooker … e mais”.

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Sim, muito mais. Uma dessas novidades trás o frescor de um novo formato de banda e que não há um líder, mas uma colaboração. O coletivo 5 a seco, formado em 2009, hoje tem em sua formação Leo Bianchini, Pedro Altério, Pedro Viáfora (filho de Celso Viáfora), Tó Brandileone e Vinicius Calderoni. Todos cantam, todos tocam, todos compõem e todos possuem a mesma importância dentro da banda. A primeira formação contava com Dani Black (filho de Tetê Espíndola) que saiu da banda ainda em 2009 dando lugar a Leo Bianchini. Em dez anos de carreira o coletivo gravou três trabalhos: o DVD Ao Vivo no Auditório Ibirapuera, em 2011, com participações de artistas consagrados da música popular brasileira como Lenine, Maria Gadú, Chico César e o já ex-integrante Dani Black. O álbum inicialmente foi disponibilizado lançaram o disco Policromo, em 2014, gravado em 17 dias em uma fazenda-estúdio no interior de São Paulo. O álbum Síntese, lançado em 2017, encerra (por enquanto) a carreira do coletivo.

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Pode-se dizer que o coletivo agrega elemento de indie rock e de jazz ao suingue da música nacional. Além disso, as letras das canções do 5 a seco são leves, sem serem fúteis, falam de amor, de beleza, da sociedade, numa linguagem moderna, atual, sem medo de ser simples e sem deixar de ser rebuscado. Em “Feliz pra cachorro” (escute aqui), por exemplo, a música deixa claro que ser feliz como o animal de estimação é o sonho e a inveja de qualquer um. A música é simples, direta e forte. A canção é feliz e dançante. O solo de pandeiro no início traz um pouco da influência da dita mpb sobre o grupo e, logo em seguida, os acordes da guitarra deixam claro que muito mais que samba, que Brasil, há no coletivo uma abertura para ouvir e seguir o que a música tem de melhor. Lembre-se caro leitor: a música brasileira assimila.

Novo renovo.

Por Ricardo Frei

Definir MPB (com maiúsculas) é uma dessas tarefas difíceis. Na tradição da música popular brasileira – este termo que ao ser escrito parece sempre vir com hifens – num determinado momento, o acrônimo foi decisivo para aglutinar aspectos estéticos, comerciais e políticos. Dali em diante, como tradição que se move pelo curso da história, o termo foi, por vezes, ressignificado. Ampliou sua capacidade de suportar tendências, estilos e outras variáveis. Em determinados momentos, quando alguma de suas características de identificação fraquejou, algo apareceu como meneios de novidade e renovação. O frescor de outras condutas e elaborações conseguiram manter a tradição de pé e soando. Na entrada do século XXI, movidos por uma postura independente do mainstream, alinhados com o gesto tropicalista dos anos 1960, e movidos por produções de canções, uma geração de novos artistas, novamente, fora identificada como portadora do renovo da música brasileira. Apresento aqui outra Nova MPB, que não vê a última como antiga ou caduca, mas que se desvencilha de suas amarras para dar sentido, hoje, à tradição: Rômulo Fróes, Filipe Catto, Dani Black, J. Hooker … e mais.

Nova mpb?

Por Camila de Ávila

Pode-se dizer que a renovação mpb (em minúscula mesmo) iniciou seus passos nos anos 1990 (agora já tem uma nova geração que surgiu na virada dos anos 2000), com a chegada de nomes como Lenine, Arnaldo Antunes, Paulinho Moska, Zeca Baleiro, Marisa Monte, Chico Cesar, entre outros. O disco “Olho de Peixe”, de 1993, de Lenine em parceria com o percussionista Marcos Suzano (lembrando que este é o segundo álbum de Lenine, o primeiro, Baque Solto, foi lançado em 1983).

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O disco é considerado por especialistas um dos mais importantes da música brasileira e confirma a posição de Lenine como exímio compositor e violonista e Marcos Suzano com um dos mais inspirados percussionistas do Brasil. “Olho de Peixe foi a afirmação de que o nosso caminho estava certo. Quando o gravamos, havia produtores interessantes, inteligentes, porém nem sempre eles eram os donos da verdade. A gente bateu o pé de que a coisa era por ali. E era mesmo”, conta Suzano. “Olho de Peixe é um disco de silêncios, ele tem muitas pausas. E pouquíssimos overdubs (gravações adicionais), foi feito praticamente ao vivo no estúdio. Nele, não havia uma discrepância entre a gravação e o que a gente conseguia resolver nos shows”, explica Lenine. Estão nesse trabalho canções como “O último pôr do sol” (Lenine e Lula Queiroga), “Caribenha nação/ Tuareguê Nagô” (Lenine e Bráulio Tavares), “Leão do norte” (Lenine e Paulo César Pinheiro) e “Miragem do porto” (Lenine e Bráulio Tavares).

A sonoridade proposta por este belíssimo trabalho de Lenine e Suzano foi entendida por seus contemporâneos e, a partir daí iniciou uma nova forma de pensar a música nacional, trouxe uma oxigenação no fazer a música nacional. Mais aberta para novos sons, novas formas de compor. A maneira como Lenine, Zeca Baleiro, Chico César, Marisa Monte, Carlinhos Brown escrevem as canções é bem diferente de nomes como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo e outros grandes da “velha” mpb.

Agora fica uma pergunta: há um compositor que passa de forma hibrida pelas gerações? Você sabe dizer quem é?