Por: Camila de Ávila
O Festival da Canção de 1967 foi tão incrível que tem até um documentário que conta a sua história. Além da surpresa da campeã, a parceria de Edu Lobo com José Carlos Capinam, “Ponteio” (escute aqui). A ousadia da canção que ficou em segundo lugar, de Gilberto Gil, “Domingo no parque” (escute aqui), que levou o grupo de rock, Os Mutantes, para o palco do festival da música popular. Teve a marcante “Roda viva” (escute aqui), de Chico Buarque, que utilizou o recurso criado para as canções de festival, a desdobrada, com arranjo de Magro, do MPB4. Mas, o fato que marcou mesmo o festival foi o violão quebrado e atirado contra o público por Sérgio Ricardo. O artista defendia sua composição “Beto Bom de Bola” (escute aqui), que foi duramente vaiada pelo público a ponto do músico não se ouvir e não conseguir cantar a canção.

A irritação de Sérgio Ricardo, nome artístico de João Lutfi, era legítima. Na primeira apresentação da canção, ela foi vaiada e, na grande final, o apresentador do Festival, Blota Jr., pediu que o público desse um voto de confiança para a canção. “Sorridente e confiante, Sérgio, com um pé sobre o banquinho, aguardava que o bulício do público se extinguisse e, diante da inquietação que existia, em vez de começar, tentou dialogar com a plateia: “Eu quero que vocês me ouçam um instante. Aqui na plateia há gente inteligente”. Quem estava no fosso falava “Canta! Canta!”. Sérgio continuou: “Vocês podem vaiar. Depois deste festival a minha música vai chamar “Beto Bom de Vaia”. A blague surtiu um efeito desastroso. Em vez de se aquietar, a plateia se excitou; surgiram vaias assustadoras e grande parte do público ficou de pé como se ouvisse uma caçoada. Na coxia, o nervosismo aumentou, e todos o compeliam a cantar de uma vez. Sérgio ainda tentou convencer o público: “Atenção.. um minutinho”. Não conseguia ser entendido, as vaias ensurdecedoras encobriam com folga o som de sua voz. Apenas o seu microfone Philips, duro e apropriado para captar somente a voz do cantor, estava aberto e, ainda sim, ele mal era ouvido pelos alto-falantes”, lembra Zuza Homem de Mello na publicação “A era dos festivais- uma parábola”. (veja a cena aqui)

Ele tentou cantar. Iniciou com um forte grito, que fazia parte da música, e em seguida ela entrava num sambinha. Depois a música ralentava, e foi aí que Sérgio perdeu a boa. “Não consigo nem ouvir o tom”, disse. Aí ele parou de tocar e disse: “Vocês ganharam! Vocês ganharam! Mas isso é o Brasil desenvolvido. Vocês são uns animais!”, quebrou o violão e jogou no público.

Depois de muito tempo, 30 anos, Sérgio Ricardo, falou sobre o ocorrido no livro “Quem quebrou meu violão”: “Eles eram positivos para os novos compositores, que precisavam mostrar seus trabalhos. Eu já era conhecido e não deveria ter concorrido, mas para Chico, Gil, Caetano, Edu Lobo e outros, os festivais foram importantes. Hoje as gravadoras só pensam em retorno comercial e não em cultura. Isso é sério, porque pessoas de valor não encontram meios de divulgar seus trabalhos e os festivais cumpriam esse papel”.

















