Por Camila de Ávila
Nos anos 1960, o Brasil ainda não conhecia o encanto sedutor e hipnotizante das novelas. Os canais de TV viviam de mostrar a música. Havia na grade de programação da TV Record, a mais importante e assistida da época, os principais programas de divulgação da música como o Festival da Música Popular Brasileira, O Fino da Bossa e o Jovem Guarda. Não sei se perceberam, mas a TV Record queria agradar a gregos e baianos (como canta Gil), e criou duas atrações com música, digamos, rivais. A tradição da música nacional com o Fino da Bossa e a novidade e a rebeldia do rock, com o Jovem Guarda.
O que aconteceu foi o seguinte. O programa Jovem Guarda entrou na grade da emissora para cobrir um buraco. A TV Record transmitia o futebol no domingo de tarde, porém, a Federação Paulista de Futebol proibiu que os jogos fossem transmitidos deixando um espaço vago na grade da emissora. A ideia de Paulo Machado de Carvalho, presidente da Record, foi criar um programa para os jovens, mais moderno. Apresentado por Roberto Carlos, Wanderleia e Erasmo Carlos, o programa estreou em 1965. Roberto Carlos já havia estourado em 1963 com uma versão de “Splish Splash” (escute aqui), de Bobby Darin e o DJ Murray the K, na versão brasileira de Erasmo Carlos. Por sua parte, Wanderléia tinha ganhado vários concursos de cantores de rádio e havia lançado seu primeiro compacto em 1962.
No mesmo período era veiculado na mesma emissora, porém nas quartas-feiras, o programa comandado por Elis Regina e Jair Rodrigues intitulado “O Fino da Bossa”. O programa começou a ser exibido em 1964 e contava com uma audiência espetacular. Produzido e dirigido por Manoel Carlos, o autor das novelas com as personagens Helena, e Nilton Travesso, a atração ficou no ar três anos, entre 1965 e 1967. O Fino da Bossa marcou não somente a história da televisão brasileira, como também ajudou a difundir e redefinir os rumos da música popular brasileira. Segundo o musicólogo brasileiro Ricardo Cravo Albin, “a Bossa Nova começava a enveredar pelos caminhos da ciência telúrica, das raízes da música brasileira”. O programa se baseava nisso, em trazer a tradição da música brasileira, o resgate do samba do morro (já promovido por Nara Leão).
A questão é que o programa “O Fino da Bossa” passava por um momento de “crise”. A atração começou a ter uma queda de público, enquanto o programa “Jovem Guarda” só aumentava o número de espectadores. Percebendo o clima tenso entre os programas, especialmente o de Elis Regina, conhecida por seu temperamento de pimenta, Paulo Machado de Carvalho, diretor da Record, criou o Frente Única da Música Popular Brasileira. A inspiração para o nome do movimento veio da Frente Ampla, que reunia João Goulart, Juscelino Kubistchek e Carlos Lacerda com o objetivo de defender e promover a “restauração do regime democrático”. A direção da Record viu nesse embate uma lógica mercadológica que traria publicidade para a emissora.

Mas para Elis e alguns artistas da música popular brasileira, a Jovem Guarda era uma invasão imperialista. Eles viam de verdade uma ameaça à cultura nacional representado pelo samba. Mas outros, como Nara Leão, Caetano Veloso e Chico Buarque não sentiam essa ameaça e estavam abertos para fazer o que a música brasileira faz de melhor, assimilar novas formas de fazer arte e incorporar ao seu jeito de ser. É importante lembrar que Elis e Nara Leão não tinham uma boa relação. Durante a conversa com a direção da Record sobre a Frente Única da Música Popular Brasileira, Nara afirmou não querer fazer parte do evento e que só iria participar porque era funcionária da emissora. Também discordava de Elis na declaração dada pela Pimentinha sobre seu trabalho em entrevista para a revista Manchete. No livro Verdade Tropical, Caetano Veloso diz: “Nada poderia ter sido mais profundamente político do que esse desabafo, que era na verdade o contrário de um desaforo de diva enciumada. O que ficou patente para todos foi, não que Nara tivesse exibido mesquinha competitividade de estrela perante Elis, mas que ela opusera uma análise realista dos motivos e consequências da reunião aos arroubos de autoengano a que todos tinham se rendido”.
Depois disso, houve a Passeata Contra a Guitarra Elétrica, em 1967, que contou com a participação de Elis, Jair Rodrigues, Gilberto Gil, Sérgio Cabral (pai), entre outros nomes da música brasileira. Segundo Nara Leão, a marcha parecia uma ação da Ação Integralista Brasileira (AIB).