Os benefícios da discórdia

A disputa entre “O Fino da Bossa” e a “Jovem Guarda” foi, na realidade, foi benéfica para a ampliação dos horizontes da música brasileira. Foi graças a Jovem Guarda que a canção nacional ganhou o som envenenado da guitarra elétrica, os três acordes do rock e o jeito de dançar batendo a cabeça. Como sempre se repete a fala do Chico Buarque em entrevista para o jornal El País: “A música brasileira não exclui, assimila”. Ou seja, os brasileiros assumiram a guitarra elétrica e os primeiros a fazerem isso foi Caetano e Gil por meio da Tropicália.

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O Fino da Bossa representava a tradição da música brasileira. O objetivo dos programas levava a música nacional para as suas origens, lembrando o samba em sua essência, com o objetivo de abandonar a bossa nova (a evolução do samba). A Jovem Guarda colocou a música brasileira em sintonia com o fenômeno internacional do rock, representado pelo som dos Beatles.

As canções da Jovem Guarda eram em sua maioria traduções de músicas internacionais, dos rocks britânicos. As músicas do Fino da Bossa eram o resgate dos compositores dos morros cariocas, traziam o samba com objetivo de lembra que ele é a identidade nacional. Devia ser puro, sem nenhum tipo de intervenção, nem a da bossa nova.
Com o tempo, o Rei cantou Bossa Nova (escute aqui) e a Pimentinha de enveredou pela estrada de santos (escute aqui).

Salve, Jorge!

Por Ricardo Frei

A história da canção brasileira é repleta de casos que desestabilizam (pra nossa sorte) polarizações, trespassam fronteiras, criam porosidades em redutos estéticos e sociais. Hermano Vianna chamou os agentes desse trânsito de mediadores culturais. Entendo que existiram (e ainda existem) várias formas de mediação. E uma delas é aquela que faz mestiçar a nossa tradição da música brasileira de dentro dela. Um caso dos mais exitosos é o de Jorge Ben Jor. O estilo híbrido do artista sintoniza com sua própria história. Filho de um homem carioca ligado aos ritos carnavalescos com uma mãe etíope entendeu o valor das misturas desde cedo. Como artista, encontrou um sotaque para sua guitarra que vai do samba ao rock, passando pela bossa nova. Como cantor, começou atuando em boates e circulando, ainda nos 1960, pelo Beco das Garrafas, reduto bossanovista histórico situado no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro. Ben protagonizou um acirramento de ânimos entre os finos bossanovistas e a turma da Jovem Guarda. Isso ocorreu porque o artista já tinha assinado um contrato para a participação em seis edições do programa o Fino da Bossa. Depois das primeiras aparições, após um convite de Erasmo Carlos, Ben Jor estreou na atração destinada à Jovem Guarda causando irritação e antipatia profunda nas hostes emepebistas. O rock já aparecia na forma de conduzir sua guitarra. E Jorge apenas seguiu sua forma sincrética de estar no mundo. Desfilando simpatia, para animar a festa, transitou pela Bossa, pela Jovem Guarda, pelo tropicalismo e pelo movimento Black Rio, sem nunca deixar de ser um cantor popular brasileiro. Salve Jorge!

Briga no mesmo time

Por Camila de Ávila

O Fino da Bossa também criou rivalidades dentro da chamada MPB. Elis e Nara Leão não se davam muito bem. Elis não era muito adepta da Bossa Nova no início da carreira. Sua voz forte e firme não combinava muito com o cantar contido e baixinho do subgênero do samba criado por João Gilberto. Já Nara, com sua voz doce e tímida, era a identidade da novidade que era o samba que mantinha a voz e todos os instrumentos na mesma intensidade.

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Havia ali também questões particulares, como o fato de Elis ter se casado com Ronaldo Bôscoli, tempos depois de Nara ter sido noiva do jornalista e compositor (importante lembrar que o romance da capixaba Nara Leão com Bôscoli terminou despois da traição dele com a cantora Maísa). Havia uma outra questão que deixava Elis um pouco enciumada. Em 1966, Chico Buarque havia “colocado” (termo utilizado a época para apresentar um repertório para uma cantora) algumas canções para Elis, mas ela não deu muita bola e gravou só uma, “Tem mais Samba” (escute aqui). Porém, Nara ouviu todas as canções e gravou um disco com três canções de Chico, “Olê Olá” (escute aqui), “Pedro Pedreiro” e “Madalena foi pro mar”. Elis fala sobre isso no programa Ensaio, gravado em 1973.

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Na opinião dessa pesquisadora, o problema entre as duas estava no fato de que Nara era uma mulher mais aberta. Estava no início da Bossa Nova, migrou para o chamado samba de raiz (dizem que porque queria romper com a bossa por desilusão amorosa – aquele problema com Bôscoli), foi a cantora que iniciou o Opinião e apresentou Maria Bethânia para o grande público. Tropicalista, não tinha nenhum problema com a guitarra elétrica. Ahhh, aí pegou no pé da Pimentinha. Elis chegou no Rio de Janeiro com tudo já acontecendo. Ela era a voz que todos queriam. Venceu pelo talento, pela competência e por saber escolher muito bem o repertório.
Na revista Manchete de 1967, na série “As grandes rivalidades”, Elis fez um comentário não muito simpático sobre Nara. “A verdade é que Nara Leão canta muito mal, mas fala muito bem”. Elis também não gostava muito de Nara transitar por muitos cenários da música brasileira. “(…) me irrita a sua falta de posição, dentro e fora da música popular brasileira… Iniciou na bossa nova, depois passou a cantar samba de morro, posteriormente enveredou pelas músicas de protesto e, agora aderiu ao iê, iê, iê. Negou todos”.
A questão criada pela presença da Jovem Guarda na música brasileira foi muito marcante nesta rivalidade e para se entender como as duas cantoras viam e sentiam a música nacional. Como já dito no texto “Uma questão de audiência?”, a direção a TV Record, que era a exibidora dos programas rivais, O Fino da Bossa, encabeçado por Elis e Jair Rodrigues, e Jovem Guarda, do trio Wanderleia, Erasmo e Roberto Carlos, criou um movimento intitulado Frente Única da Música Popular Brasileira, com objetivo de aumentar a audiência do programa de Elis que vinha perdendo público. Paulo Machado de Carvalho, diretor da Record, chamou seus artistas que “defendiam” a música nacional, dentre eles estava Nara Leão que, ao fim do discurso do diretor que solicitava a união deles pelo som brasileiro, pediu a palavra. Ela afirmou que participaria do programa em defesa da música nacional por ser uma funcionária da emissora, mas não gostaria de se escalada com Elis devido ao depoimento da Pimentinha para a revista Manchete. Nara mostrou sua carteira da Ordem dos Músicos do Brasil para comprovar para Elis, que ali estava, que era cantora.

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Segundo Caetano Veloso no livro Verdade Tropical: “Elis possuía um talento musical – e uma voz – com que Nara nem poderia sonhar. Mas ela ascendera da condição de cantora comercial sem sucesso para a de representante do sucesso comercial da responsabilidade estética e política via televisão, o que a deixava numa insegurança que chegava ao paroxismo quando confrontada com a trajetória de Nara: fundadora da bossa nova, aristocraticamente tranquila em suas posições políticas e ambições intelectuais, sem precisar provar nada ou exibir talentos excepcionais, Nara parecia conceder em aparecer na televisão”.

A bossa do iê-iê-iê

Por Ricardo Frei

Quando se fala do embate entre Jovem Guarda e MPB, pode parecer que havia um ímpeto das duas partes num enfrentamento estético e comercial. De fato, ao pesquisarmos a história da música popular fica claro que ala “emepebista” mantinha uma disposição muito maior para a contenda. Justifica-se isso o fato de boa parte dos artistas da MPB terem uma relação de desconfiança com produções que não se filiavam à tradição da música brasileira. E, todos sabemos, que a Jovem Guarda se referenciava no rock´n roll, que já havia aportada em terras brasileira ainda na década de 1950, pelas vozes de Nora Ney, Betinho e Cauby Peixoto. Lembremo-nos que a MPB surge de um desdobramento daquilo que fora classificado como Bossa Nova nacionalista: um direcionamento estético e político que via na Bossa Nova influências outras, não brasileiras, que, por isso, tendiam a desvirtua-la. Daí, a prontidão em convocar a estilística da Bossa conjugando-a a ritmos regionalistas, aliados a uma temática popular, nacionalizando de uma vez aquilo que, embora tivesse raízes no samba, estava “contaminado” pela a Influência do Jazz. Contudo, pouco se diz que essa posição dos artistas nacionalistas afastou suas respectivas canções do gesto bossanovista, exatametente por recuperar dramaticidades e eloquências superadas pela arte de João Gilberto e Cia. Pois que em 1966, no apogeu da Jovem Guarda, consagrava-se o ritmo chamado de iê-iê-iê, entendido como um subgênero do rock dos Beatles, mas com mistura de traços do repertório cancional brasileiro. Dentre eles, o coloquialismo e uma forma despojada de canto falado muito próprios da … Bossa Nova. Naquele momento, quando boa parte dos emepebistas bradavam em suas canções, em tom heroico, sua cruzada nacionalista, Roberto Carlos conseguia estar mais próximo de João Gilberto do que de Paul McCartney.

É uma brasa, mora?

Jovem-guarda Trupe

A Jovem Guarda (escute aqui) foi muito importante para a criação de um tipo de fã: o louco. Foi com eles que os fãs, aqui no Brasil, começaram a imitar os ídolos nas roupas, nos gestos, no cabelo, no linguajar. Foi nesse período que o cabelo caindo nos olhos tornou-se um símbolo de beleza. Mas o único que tinha esse cabelo era Ronnie Von, os outros tinha que usar as inacreditáveis toucas de meia. Não sabia disso? Espera aí que vamos contar mais curiosidades da Jovem Guarda.
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1- No início, a Jovem Guarda trazia muitos covers de canções em inglês. Sendo que os primeiros a gravar na língua da última flor do lácio foi Roberto e Erasmo;
2 – Pode-se dizer que a Jovem Guarda foi forte influenciadora da Tropicália;
3 – A Jovem Guarda nunca sofreu com a censura;
4 – Por ser um movimento influenciado por artistas e canções norte-americanas, o pessoal da Jovem Guarda se preocupa com a Guerra do Vietnã;
5 – A Jovem Guarda não era um movimento político, por isso é um erro cobrar posicionamento político dos artistas;
6 – Uma forte caraterística da Jovem Guarda era o estilo dos seus artistas: roupas coloridas e cabelos compridos, de preferência lisos (a base de touca de meia);
7 – Alguns cantores sertanejos são oriundos da Jovem Guarda como Sérgio Reis e Eduardo Araújo;
8 – O BRock foi fortemente influenciado pelo movimento da Jovem Guarda;
9 – A banda que acompanhava Ronnie Von na época da Jovem Guarda era formada por Rita Lee e Os Mutantes;
10 – O cinema também fez parte da Jovem Guarda, Roberto Carlos fez cinco filmes;
11 – O assédio dos fãs era intenso e para burlar Wanderléa usava perucas, Ronnie Von tinha um sósia que entrava nos locais antes dele;
12 – Roberto Carlos teve o affair com Wanderleia;
13 – O rei, Roberto Carlos, e o príncipe, Ronnie Von, não se bicavam. O príncipe nunca participou do programa Jovem Guarda;
14 – O primeiro disco gravado por Roberto Carlos tinha duas músicas: “Fora de Tom” e “João e Maria”, compostas por Carlos Imperial e no estilo Bossa Nova. O rei imitava João Gilberto;
15 – Oficialmente, a Jovem Guarda acabou em 1968, com o programa de TV, mas o acervo musical deixa o movimento mais vivo do que nunca.

Bonecos jovem guarda
Dicionário jovenguardês:
Barra Limpa: está tudo bem
Broto: garota bonita
Broto legal: garota bacana
Cafona: feio, brega
Calhambeque: carro velho
Carango: carro
Certinha: mulher bonita
Chapa: amigo
Coroa: pessoa velha
É fogo: é difícil
É uma brasa, mora: é danada, é ótimo
Gamar: namorar, apaixonar-se
Grana: dinheiro
Mancar: desrespeitar compromissos
Mora?/Morou: Entende? Entendeu?
O tal: pessoa de destaque
Pacas; muito
Pão: homem bonito
Papo firme: conversa séria
Pra frente: moderno
Papo furado: conversa boba
Quadrado: sujeito conservador
Tremendão: rapaz bonito
Uma uva: coisa bonita

De onde veio a MPB?

Por Ricardo Frei

Entender a disputa entre Jovem Guarda e O Fino da Bossa, sem querer aqui assinalar se tal disputa era postiça, comercial, estética ou algo que o valha, ajuda-nos a entender um dos acrônimos mais mal compreendidos da cultura brasileira: MPB. Vivia-se um tempo de divisões políticas intensas, que acabavam sendo reproduzidas no campo das artes através de discursos, posturas e embates estéticos. O Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE era um dos instiladores dessa contenda. Ao definir o que era popular e nacional, o CPC, por exclusão, acabava por alinhar tudo aquilo que não cabia nessas duas definições como algo a ser rechaçado pelos artistas e pelo consumo consciente de bens culturais. Isso porque se não era nacional-popular só poderia ser algo importado de culturas outras. Algo que oferecia riscos iminentes à cultura do povo, esta prestes a ser corrompida por uma espécie de invasão estrangeira. No âmbito musical, os artistas que se alinhavam à tradição da música popular brasileira (com minúsculas) renovada pela Bossa Nova, seriam espécie de guardiães desse traço cultural. Enquanto isso, a Jovem Guarda, ao incorporar a estética jovem, rock’n roll, era entendida – por aquilo que Caetano chamou de patrulha ideológica – como o outro lado da moeda (no caso, um dólar!). Os festivais da canção dos anos 1960 foram espaços ocupados, sobretudo, para a divulgação da produção musical nacional-popular (o que não impediu Roberto Carlos, Mutantes, dentre outros de participarem do certame). Ali se celebrava a Moderna Música Popular Brasileira. Os Festivais incorporaram o termo e ajudaram a instituir o acrônimo MPB. Portanto, para falar de MPB (com maiúsculas) precisamos pensar no tempo ao qual estamos nos referindo. A MPB originária foi aquela gestada no Fino da Bossa e apresentada aos corações, ouvidos, olhos e mentes pelas telas de TV. Depois disso, MPB passou a significar coisas diversas. Uma palavra-valise capaz de receber um sem número de significados ao sabor das circunstâncias. Por ora, vamos aqui propor uma leitura para a MPB nos anos 1960: diz sobre a obra daqueles artistas aliados a um projeto nacional-popular de cultura, que se colocavam como herdeiros da Bossa Nova, do samba e dos regionalismos. O resto … era Jovem Guarda.  

Ilustrações Sonoras 1: Arrastão (Vencedora do Festival da Canção de 1965)

Ilustração Sonora 2: A Estrada e o Violeiro – de Sidney Miller com Nara Leão (Melhor Letra do Festival de 1967)

Ilustração Sonora 3: Ponteio (Vencedora do Festival da Canção de 1967)

Uma questão de audiência?

Por Camila de Ávila

Nos anos 1960, o Brasil ainda não conhecia o encanto sedutor e hipnotizante das novelas. Os canais de TV viviam de mostrar a música. Havia na grade de programação da TV Record, a mais importante e assistida da época, os principais programas de divulgação da música como o Festival da Música Popular Brasileira, O Fino da Bossa e o Jovem Guarda. Não sei se perceberam, mas a TV Record queria agradar a gregos e baianos (como canta Gil), e criou duas atrações com música, digamos, rivais. A tradição da música nacional com o Fino da Bossa e a novidade e a rebeldia do rock, com o Jovem Guarda.

O que aconteceu foi o seguinte. O programa Jovem Guarda entrou na grade da emissora para cobrir um buraco. A TV Record transmitia o futebol no domingo de tarde, porém, a Federação Paulista de Futebol proibiu que os jogos fossem transmitidos deixando um espaço vago na grade da emissora. A ideia de Paulo Machado de Carvalho, presidente da Record, foi criar um programa para os jovens, mais moderno. Apresentado por Roberto Carlos, Wanderleia e Erasmo Carlos, o programa estreou em 1965. Roberto Carlos já havia estourado em 1963 com uma versão de “Splish Splash” (escute aqui), de Bobby Darin e o DJ Murray the K, na versão brasileira de Erasmo Carlos. Por sua parte, Wanderléia tinha ganhado vários concursos de cantores de rádio e havia lançado seu primeiro compacto em 1962.

 


No mesmo período era veiculado na mesma emissora, porém nas quartas-feiras, o programa comandado por Elis Regina e Jair Rodrigues intitulado “O Fino da Bossa”. O programa começou a ser exibido em 1964 e contava com uma audiência espetacular. Produzido e dirigido por Manoel Carlos, o autor das novelas com as personagens Helena, e Nilton Travesso, a atração ficou no ar três anos, entre 1965 e 1967. O Fino da Bossa marcou não somente a história da televisão brasileira, como também ajudou a difundir e redefinir os rumos da música popular brasileira. Segundo o musicólogo brasileiro Ricardo Cravo Albin, “a Bossa Nova começava a enveredar pelos caminhos da ciência telúrica, das raízes da música brasileira”. O programa se baseava nisso, em trazer a tradição da música brasileira, o resgate do samba do morro (já promovido por Nara Leão).

 

 

A questão é que o programa “O Fino da Bossa” passava por um momento de “crise”. A atração começou a ter uma queda de público, enquanto o programa “Jovem Guarda” só aumentava o número de espectadores. Percebendo o clima tenso entre os programas, especialmente o de Elis Regina, conhecida por seu temperamento de pimenta, Paulo Machado de Carvalho, diretor da Record, criou o Frente Única da Música Popular Brasileira. A inspiração para o nome do movimento veio da Frente Ampla, que reunia João Goulart, Juscelino Kubistchek e Carlos Lacerda com o objetivo de defender e promover a “restauração do regime democrático”. A direção da Record viu nesse embate uma lógica mercadológica que traria publicidade para a emissora.

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Mas para Elis e alguns artistas da música popular brasileira, a Jovem Guarda era uma invasão imperialista. Eles viam de verdade uma ameaça à cultura nacional representado pelo samba. Mas outros, como Nara Leão, Caetano Veloso e Chico Buarque não sentiam essa ameaça e estavam abertos para fazer o que a música brasileira faz de melhor, assimilar novas formas de fazer arte e incorporar ao seu jeito de ser. É importante lembrar que Elis e Nara Leão não tinham uma boa relação. Durante a conversa com a direção da Record sobre a Frente Única da Música Popular Brasileira, Nara afirmou não querer fazer parte do evento e que só iria participar porque era funcionária da emissora. Também discordava de Elis na declaração dada pela Pimentinha sobre seu trabalho em entrevista para a revista Manchete. No livro Verdade Tropical, Caetano Veloso diz: “Nada poderia ter sido mais profundamente político do que esse desabafo, que era na verdade o contrário de um desaforo de diva enciumada. O que ficou patente para todos foi, não que Nara tivesse exibido mesquinha competitividade de estrela perante Elis, mas que ela opusera uma análise realista dos motivos e consequências da reunião aos arroubos de autoengano a que todos tinham se rendido”.

Depois disso, houve a Passeata Contra a Guitarra Elétrica, em 1967, que contou com a participação de Elis, Jair Rodrigues, Gilberto Gil, Sérgio Cabral (pai), entre outros nomes da música brasileira. Segundo Nara Leão, a marcha parecia uma ação da Ação Integralista Brasileira (AIB).

A moderna música popular brasileira.

Por Ricardo Frei

A música popular brasileira, durante os anos 1960, exibiu-se em sons e imagens que passaram a ocupar lugar importante na estratégia de divulgação e consumo artístico no Brasil. Pouco a pouco, a televisão tornara-se o principal veículo de entretenimento, informação, disseminação de cultura. O palco estava agora ali na sala de visitas.  A TV fazia companhia e transformava a experiência. Ilusionava a presença com sua força quase hipnótica de convocação da audiência. Diante dos olhos, apresentavam-se artistas que buscavam afirmações de todas as ordens: estéticas, políticas, comerciais. Tributários do legado Bossa Nova, músicos e cantores alinhados a uma tradição musical que passa pelo samba e suas variações; pelos gêneros regionais, tal como o baião; que se entendiam portadores de uma legitimidade sonora e poética, desfilavam suas performances e canções num programa que gestou e fez parir o que veio a ser chamado de MPB (com maiúsculas): o Fino da Bossa. Por outro lado, dividindo a grade da mesma emissora (TV Record), outros artistas que capturavam com seus anseios, sensibilidades parabólicas, gestos e traços musicais da música de outros cantos do mundo, ressoavam a cultura pop, a beatlemania transformada em Iê Iê Iê, convocando uma audiência interessada na mistura, nas práticas da juventude, através de um programa chamado Jovem Guarda. Embates, reais e postiços, marcaram a convivência das duas atrações, tal como a história da moderna música popular brasileira. Durante todo o mês de maio o Escuta Só trará histórias e análise desses personagens e de suas canções.

Assista aqui trecho do programa O Fino da Bossa

Assista aqui trecho do programa Jovem Guarda

A rivalidade

Por Camila de Ávila

O Tropicalismo foi um movimento que no primeiro momento queria abraçar muitas cabeças. Chico Buarque era uma delas. Caetano conta no livro “Verdade Tropical” que convidou Chico para as reuniões na casa do Sérgio Ricardo, mas o compositor de olhos cor de ardósia não se lembra de nada. No documentário “Uma noite em 67” (veja aqui) , dirigido por Ricardo Calil e Renato Terra, de 2010, Chico disse que devia estar bêbado quando esteve nessas reuniões e que nesse período, em que a Tropicália começava a surgir, se sentiu sozinho. Caetano, no mesmo documentário concorda com o sentimento de solidão de Chico. “O Gil conta que me chamou para umas reuniões, que eu fui, que eu tomei um porre, eu não lembro direito, é possível (risos)”, afirma Chico para a de Santuza Naves, Frederico Oliveira Coelho e Tatiana Bacal.

Chico Cae e Gil
Chico diz para a pesquisa do livro MPB em discussão, de 2005, que na época do Tropicalismo ele estava dedicado a aprender música. Foi nessa época que conheceu Tom Jobim. Foi em 1968 que Chico firmou suas primeiras parcerias com o Maestro Soberano como Retrato em Branco e Preto (escute aqui)  e Sabiá (escute aqui). “Eu comecei a estudar música e o Tom foi me indicando o caminho. Foi comigo na Lapa comprar um piano. Comecei a me interessar por música ali em 67, 68, exatamente quando veio o Tropicalismo. Então eu não estava preocupado em romper. O tropicalismo rompia com a bossa nova inclusive. E eu não estava preocupado em romper com a bossa nova, pelo contrário, eu estava compondo com o Tom, que era o meu mestre. E eu querendo aprender uma porção de coisa, porque eu achava que eu já tinha perdido tempo, que eu precisava — como precisava mesmo — me aperfeiçoar como músico, melhorar, progredir como músico. Eu estava preocupado com isso”, disse Chico.

Chico disse que o Tropicalismo desde o início já era histórico. “Eu me encontrava com o Gil e com Caetano aqui no Rio, até então muito frequentemente, e a partir de um certo momento eu deixei de ver os dois. E quando eu vi, já havia esse movimento. Mas eu não estava muito preocupado. Talvez até me faltasse uma certa ambição de querer, de dar importância àquele movimento todo. A ideia de que eu estaria trinta anos depois falando disso era absurda. Porque eu estava quase brincando de fazer música e o movimento tropicalista já se atribuía um papel histórico, como de fato veio a ter. Eu estava fora, eu estava alheio, e quando eu conheci já estava a coisa criada. Eu tinha ótimas relações com eles e não deixei de ter por isso”.

procure-saber
Porém Chico afirma que havia uma “rivalidade” criada pela imprensa. “Agora, num certo momento, havia a necessidade, principalmente por parte da imprensa de São Paulo, que dava um apoio muito grande ao movimento Tropicalista, de criar um antagonismo. Quer dizer, era um pouco como havia necessidade de se negar Noel Rosa quando se fez a bossa nova, havia necessidade de romper com um passado e um passado do tropicalismo, e o passado por um acaso era eu. (risos) Eu fiquei sendo o adversário daquele movimento. E eu não me sentia absolutamente um adversário do tropicalismo. Eu não tinha nenhuma objeção básica ao que se fazia (…), eu não tinha objeção de ordem ideológica, nada disso. Só que, de certa forma, eu fui afetado pela violência com que o movimento em torno do tropicalismo me atingiu. Ao Tom também, ao Vinícius, mas como eu sou um pouco mais novo do que eles, eu fiquei um pouco nessa posição privilegiada de adversário mais visível do movimento tropicalista (…). Do lado de cá, quem não estava no tropicalismo era automaticamente classificado como inimigo; assim, Edu Lobo e eu éramos adversários do tropicalismo. E eu nunca senti isso, nem durante, tirando o que havia de pessoal, que podia haver e havia de certo ressentimento pessoal, de mágoa”, conclui.

Sem pastiche, com paródia.

Por Ricardo Frei

Muito se diz sobre a face crítica, moderna e alegórica da Tropicália. O que, de fato, significa isso?

Primeiro, precisamos esclarecer que aquilo que se convencionou chamar Tropicália foi um gesto de revisão cultural que não se limitou ao âmbito musical. Ali, também estavam: poetas, dramaturgos, artistas plásticos, cineastas, músicos de formação erudita. O Tropicalismo reuniu o que havia de mais radical numa confluência de vanguardas. A música popular, por ser a porção mais visível, dado sua exposição midiática, cumpriu uma espécie de função de porta-voz não-oficial daqueles anseios. Pela voz do tropicalismo musical, fazia-se soar um gesto modernista que empilhava as relíquias do Brasil em forma de ruínas, de escombros. Ao dar luz à face reprimida da cultura brasileira, os tropicalistas assumiam sua característica alegórica. Isso podia aparecer em forma de troça, de blague, ou apenas incorporando aquele traço desprezado pelo crivo cultural. Ao fazer isso, não se deve pressupor um retorno acrítico de elementos pertencentes à nossa formação. O fato de muitas vezes aquilo que chamavam kitsch ser apresentado sem a capa de paródia, não aniquilou o incômodo gerado por sua proximidade: o simples fato de se chamar Vicente Celestino (ou Lindonéia) ao proscênio já causava incômodo suficiente para ratificar a feição crítica tropicalista. E ao deglutir Celestino, deixaram-se modificar antropofagicamente por ele, num gesto “canibalista” nada aleatório.

Para escutar:

Ilustração musical 1: https://www.youtube.com/watch?v=y0ySUT0yTzo
Ilustração musical 2: https://www.youtube.com/watch?v=x1CpTE0GCzU
Ilustração musical 3: https://www.youtube.com/watch?v=C2dbCiH3nrc