Bossa Nova e Tropicália – a mesma ideia

Por Camila de Ávila

A ideia do Tropicalismo surgiu com o objetivo de fazer mudança na música nacional. É importante entender que a última grande revolução havia corrido em 1959 com a chegada do LP Chega de Saudade (escute aqui) , que mostrou para o mundo batida intimista e completamente diferente do que se fazia antes, a Bossa Nova. Em entrevista para a pesquisadora Ana de Oliveira Caetano Veloso disse: A gente já falava nisso (renovação da música nacional) em 66. Você pode ler na contracapa do disco Domingo: “vou cantar essas canções que compus tempos atrás à vontade porque hoje estou pensando em coisas e projetos completamente diferentes.” Gil já tinha feito até umas reuniões no Rio com os outros compositores e músicos pra tentar transmitir o novo modo de ver. Ele marcou na casa de Sérgio Ricardo, chamou Edu Lobo, Chico Buarque, o irmão de Sérgio Ricardo, várias pessoas. Gil queria que todos participassem, mas o pessoal não entendeu. (…) Eu vinha conversando muito com Rogério Duarte sobre a falta de capacidade de aventura do criador de música popular no Brasil, sobre os resguardos dentro do mundo do bom gosto e do politicamente correto na época. Também sobre o preconceito contra o rock e o iê-iê-iê, que, embora não interessassem tanto em princípio, tinham uma vitalidade que a gente foi descobrindo. Bethânia já havia me chamado a atenção pra Roberto Carlos. Tudo isso entre 65 e 66”, lembrou.

Chega de saudade
O Tropicalismo “é o resultado da aproximação das personalidades de Gilberto Gil e Caetano Veloso. Sem ele eu não faria nem música, quanto mais essa coisa toda dentro da música. Ainda assim, uma vez que eu já estava dentro da música, sobretudo por causa de Gil, só desencadeei esse movimento tão responsável pela questão da música popular no Brasil porque o próprio Gil estava muito excitado pra que algo nesse sentido acontecesse. Dizer que a Tropicália é exclusivamente da minha cabeça peca contra essa verdade”, contou Cae para Ana de Oliveira. O que se pode dizer é que um entendia e completava de forma muito harmoniosa a ideias um do outro. “Tenho uma capacidade de fazer a articulação final dos elementos. Muitos foram trazidos por mim mesmo, mas muitos não. Muita coisa eu trouxe das conversas com Bethânia, muitas das conversas com Rogério, que só aconteceram porque eu sou quem eu sou, com os meus próprios pensamentos, o que eu observava e sentia. Mas a organização desses elementos todos num projeto foi intuição de Gil. Gil propôs falar. Falar dos Beatles e da cultura de massa”, explicou o santamarense.

João, Caetano e Gil
Estar com a mente aberta, ter atenção em tudo, “precisa ter olhos firmes, pra este sol, para esta escuridão” (Divino Maravilhoso não é uma canção do disco e nem do movimento Tropicalista, mas faz parte de sua ideia de modernização da canção nacional) (escute aqui) era a principal característica da Tropicalia. O olhar sem preconceito, sem medo da novidade e de arriscar foi o cerne do movimento. Para Caetano a música popular brasileira estava estagnada, “Todo mundo com medo do iê-iê-iê. De repente as pessoas não estavam ouvindo o que se passava. Eu, pra ser sincero, morava no Solar da Fossa e nem suportava televisão. Mas por causa do conselho de Bethânia procurei ver, quando podia, aos domingos, o programa de Roberto Carlos, e percebi, de fato, que Bethânia tinha razão”, observou Caetano e salientou a importância de Maria Bethânia para o movimento do qual a cantora não quis participar.
Nesse sentido, de ser um movimento que queria mexer com a música brasileira, inovar, criar e fazer tudo novo de novo, a Tropicália se iguala a Bossa Nova. Segundo Caetano, “a Tropicália foi simplesmente um esforço no sentido de defender o que era essencial na Bossa Nova”, conclui Caetano a conversa com a pesquisadora Ana de Oliveira.

Alegoria, monumentos, relíquias e provocações …

Por Ricardo Frei

Peço licença para escrever em primeira pessoa. Estou em São Paulo há poucas horas. Consolação, Angélica, São João, Ipiranga, Augusta. Nomes de vias, caminhos de versos que nos fazem transitar por um mapa sonoro onde escutamos Tom Zé, Caetano, Mutantes …

Dos cruzamentos, avistamos o trânsito, de pessoas, de signos, de sons. A mistura, o hibridismo e a sobreposição como forma e expressão poética. Um lugar que inclui e separa. Que oferece e que nega. Onde todas as coisas não é tudo. E tudo só pode ser uma paródia do que já fomos e, quem sabe, podemos ser. Em música, em teatro, em literatura. Uma oficina de alegorias.

Empilhamos relíquias tropicalistas. Bradamos: “bananas ao vento”! E aí estão:

Para escutar:

Ilustração sonora 1: Augusta, Angélica e Consolação

Ilustração sonora 2: São São Paulo

Ilustração sonora 3: Sampa

Ilustração sonora 4: Hey Boy

Para ver:

Mutantes: https://www.youtube.com/watch?v=gfs9DC4GNr0#action=share

Os 50 anos do Movimento: https://www.youtube.com/watch?v=oo4TZqcQ1-4

Revolução Tropicália: https://www.dailymotion.com/video/x21xeo0

Pra dançar tropicaliamente falando

Por Camila de Ávila

A cantora e compositora gaúcha Adriana Calcanhotto é uma pesquisadora da música. Em seu último show intitulado “A Mulher do Pau Brasil” é possível ver forte influência da Tropicália, de Oiticica e do parangolé. Em dados momentos, como disse o produtor artístico e musical de Belo Horizonte Pedrinho Alves Madeira, há menções claras à peça “O rei da Vela”, de Oswald de Andrade e produzido pela primeira vez pelo Teatro Oficina de José Celso Martinez Correa. Adriana canta Geléia Geral (escute aqui), clássico de Gil e Torquato Neto. A Tropicália deixou frutos e ainda inspira artistas, intelectuais e pessoas sensíveis à arte nacional. Em 1998, a artista cantou no disco Marítimo o parangolé de Oiticica.

Parangolé Pamplona (escute aqui)

O parangolé pamplona você mesmo faz
o parangolé pamplona a gente mesmo faz
com um retângulo de pano de uma cor só
e é só dançar
e é só deixar a cor tomar conta do ar
verde
rosa
branco no branco no peito nu
branco no branco no peito nu
o parangolé pamplona
faça você mesmo
e quando o couro come
é só pegar carona
laranja
vermelho
para o espaço estandarte
“para o êxtase asa-delta”
para o delírio porta aberta
pleno ar
puro hélio
mas
o parangolé pamplona você mesmo faz
Parangolé Adriana

Oiticica – nasce a Tropicália

Por Camila de Ávila

Mais que um movimento da música, o Tropicalismo foi um projeto de arte que mexeu, não somente com a música, mas com as artes plásticas, teatro e cinema. O termo Tropicália nasce como nome da obra de Hélio Oiticica (1937 – 1980) exposta na mostra Nova Objetividade Brasileira, realizada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ), em abril de 1967. A obra é um ambiente labiríntico composto de dois Penetráveis, PN2 (1966) – Pureza É um Mito, e PN3 (1966-1967) – Imagético, associados a plantas, areia, araras, poemas-objetos, capas de Parangolé (experiências de Oiticica com a comunidade da Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira, no Rio de Janeiro, foi criado no fim da década de 1960) e um aparelho de televisão. Segundo o próprio artista, “o ambiente criado era obviamente tropical, como num fundo de chácara e, o mais importante, havia a sensação de que se estaria de novo pisando na terra. Esta sensação sentira eu anteriormente ao caminhar pelos morros, pela favela, e mesmo o percurso de entrar, sair, dobrar pelas ‘quebradas’ de tropicália, lembra muito as caminhadas pelo morro”.

 

O que se pode entender é que a Tropicalia de Oiticica era o olhar para dentro. O Brasil passa a olhar sua arte, sua cultura, sua miséria, sua riqueza. Era reconhecer o que é e o que tem. Talvez por isso a Tropicalia foi tão criticada. As imagens tropicais que fazem parte da obra remetem de forma intensa ao Brasil e suas paisagens. “O uso de signos e imagens convencionalmente associados ao Brasil não tem como objetivo figurar uma dada realidade nacional – tarefa que mobilizou parte de nossa tradição artística -, mas, nos termos do artista, objetivar uma imagem brasileira pela “devoração” dos símbolos da cultura brasileira. A ideia da “devoração”, nada casual, remete diretamente à retomada da antropofagia e ao modernismo em sua vertente oswaldiana, da qual se beneficia a obra de Hélio Oiticica”, afirma a definição do termo na Enciclopédia Itaú.

A Tropicália de Oiticica necessita da participação do espectador, o objetivo dele era o de aproximar a arte das coisas do mundo retirando a fronteira entre a arte e o que não é a arte. O que parece é que o olhar de Oiticica via a arte em tudo. “As coisas do mundo com que me deparo nas ruas, nos terrenos baldios, nos campos, no mundo ambiente, enfim – coisas que não seriam transportáveis, mas para as quais eu chamaria o público à participação – seria isso um golpe fatal ao conceito de museu, galeria de arte etc. e ao próprio conceito de ‘exposição’ – ou nós o modificamos ou continuamos na mesma. Museu é o mundo, é a experiência cotidiana”.

Diferentemente do que os críticos achavam, que a Tropicalia estava saindo do âmbito de manter-se firme na luta contra a ditadura. O movimento encontrou uma nova forma de mostrar o Brasil que o Brasil não conhecia ou rejeitava. “A crítica ao sistema de arte, e às concepções de arte nele inscritas, traz consigo uma postura ético-política, explicitada nos textos do artista e emblematicamente representada pelo Bólide – caixa 18 (1966) – Homenagem a Cara de Cavalo, bandido procurado pela polícia e amigo de Oiticica. A adesão do artista a todo tipo de manifestação de crítica e inconformismo social se revela com todas as letras por ocasião da primeira apresentação pública dos Parangolés na mostra Opinião 65, no MAM/RJ. Devido à proibição da entrada no museu de seus amigos da Mangueira, o artista realiza uma manifestação pública em frente do prédio, com todos vestidos com Parangolés”, segundo informação da Enciclopédia Itaú.

 

As principais manifestações do Tropicalismo surgiram no Teatro com Grupo Oficina – as montagens de “O rei da vela”, de Oswald de Andrade, e de “Roda Viva”, de Chico Buarque. No cinema, acompanhando a radicalização das teses do Cinema Novo em torno do lançamento do filme “Terra em Transe”, de Glauber Rocha. Nas artes plásticas, com Hélio Oiticica. Na música, o movimento encabeçado por Caetano e Gil é o único representante. A canção Tropicália (escute aqui), que está no disco de 1967 coloca de forma muito clara as observações de Oiticica sobre o olhar para dentro e a reverência à cultura nacional.

Tropicália em 3 tempos

Por Ricardo Frei

A Tropicália cumpre um papel de produzir uma espécie de balanço, de avaliação crítica da arte brasileira como um todo, e não apenas da canção popular. A própria adoção do termo Tropicália, ainda que não houvesse nenhum tipo de orientação programática, já indicava uma perspectiva ampliada. Originalmente, foi o nome dado a uma das obras de Hélio Oitica expostas na mostra Nova Objetividade Brasileira, quando de sua exposição em 1967 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Apresentava-se como uma espécie de ambiente labiríntico compostos pelo que artista chamava de Penetráveis e ladeados por plantas, araras, areias, aparelhos de TV, as capas chamadas de Parangolés, dentre outros elementos poéticos. Oiticica assim descreve o ambiente criado: “era obviamente tropical, como num fundo de chácara e, o mais importante, havia a sensação de que se estaria de novo pisando na terra. Esta sensação sentira eu anteriormente ao caminhar pelos morros, pela favela, e mesmo o percurso de entrar, sair, dobrar pelas ‘quebradas’ de tropicália, lembra muito as caminhadas pelo morro”.

A obra reverberou no cinema de Glauber Rocha, no teatro de Zé Celso e Grupo Oficina e na música, arregimentando eruditos e populares. Do mesmo lado, misturados, se encontravam a Bossa Nova, o rock e a música experimental. Estavam ali, reunidos, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Nara Leão, Mutantes, Tom Zé, Rogério Duprat, Júlio Medaglia, Rogério Duarte dentre outros. A literatura também se fazia presente pelas tintas de Torquato Neto, Capinam, irmão Campos, Décio Pignatari, além da influência quase ubíqua, que não se resumiu ao universo das letras, dos modernistas Mário e Oswald de Andrade.

De fato, hoje, queremos apresentar aos ouvidos ao menos três momentos importantes e fundamentais para compreender como tudo isso se revelou em canções. Entendendo a Tropicália como um movimento de crítica à cultura brasileira, convidamos vossa escuta a conhecer momentos de radicalização dos procedimentos estéticos tropicalistas. Partindo do marco zero, o disco Tropicália ou Panis et Circencis, convidamos o leitor a escutar Araçá Azul, disco lançado em 1972, com canções de Caetano Veloso arranjadas por Duprat (escute aqui). Talvez seja esse o ponto máximo de radicalização dos procedimentos estéticos-cancionais. O fracasso nas vendas não condicionou a crítica, que valorizou a criatividade, a ousadia e a  potencialidade dos recursos sonoros ali apresentadas. Passemos, então, ao álbum Tropicália 2, quando Caetano e Gil se encontraram para comemorar 25 anos do movimento, em 1993 (escute aqui).  O experimentalismo também se encontra presente, além de um gesto atualizador do próprio movimento. E, por último, vale a escuta de Tropicália: lixo lógico de Tom Zé, gravado em 2012 (escute aqui). Nele, o gesto tropicalista se revigora, mas não apenas musicalmente. A experimentação, a crítica cultural, política, e a radicalização estética se reapresentam para, mais uma vez, revigorar o gesto carnavalizante, alegórico e modernista da prolífica Tropicália.

Ideias opostas do movimento

Por Camila de Ávila

A Tropicália surgiu em um momento em que o mundo fervia, em todos os sentidos. Segundo o pesquisador e radialista Getúlio Mac Cord, na publicação “Tropicália – um caldeirão cultural”. “a tropicália foi um legítimo produto dos ‘anos loucos’. Sua erupção se dá no final da década de 1960, quando viver era estar exposto. E exposto a opostos: dos rigores da ditadura à luta armada. Do amor livre pregado pelo movimento hippie, à revolta dos estudantes (…) Do Festival de Woodstok à música de protesto e aos festivais da canção no Brasil. Enfim, viver era defrontar-se com tudo que estava mudando a cara do mundo”. Sendo assim, o movimento tentou mostrar essas ideias opostas do mundo.

Woodstok filtro
A Tropicália tentou trazer para a música brasileira sua tenra identidade bem como misturar com o que vinha acontecendo de novo e vinha de fora. O historiador Carlos Calado observa que “diferentemente da Bossa Nova, da qual era discípulos assumidos, os tropicalistas tinham pouco a ver com a criação de novas formas musicais. Utilizando estilos e formas já existentes no repertório da música brasileira, o movimento estava mais interessado em expor e implantar uma nova atitude. Antes de tudo, sua invenção era crítica”.

O que Carlos Calado e Getúlio Mac Cord querem dizer é que a Tropicália trouxe para o Brasil canções esquecidas e mostrou a sua importância, como também apresentou novas composições que traziam a coisa da absorção de conteúdo que o brasileiro possui, a mistura de culturas e sua assimilação. Como exemplo do resgate, pode-se lembrar da segunda faixa do disco “Tropicália ou Panis et Circenses”, “Coração Materno” (escute aqui), de Vicente Celestino. “Coração Materno” (escute aqui), também é um filme de 1951, o terceiro de Gilda Abreu, e foi um fracasso de bilheteria. A canção é uma tragédia, uma tristeza, mas um clássico da música considerada cafona, brega ou pelo menos bizarra.

Outra canção muito importante do disco é “Baby” (escute aqui), composta por Caetano Veloso a pedido de Maria Bethânia que não quis gravar a música. No título, a música já apresenta a inovação por ser uma palavra em inglês. Caetano contou que Bethânia havia pedido coisas muito pontuais na letra da canção. “Tratando-se de Bethânia tenho certeza de que havia também uma razão factual e muito pessoal para tão precisas especificações. Fiz a música procurando recriar a cultura de cançonetas e camisetas e, ao mesmo tempo, o clima pessoal de Bethânia. Julguei o resultado perfeitamente representativo da estética”. Como é sabido, Bethânia não quis participar do disco coletivo, sendo assim, ficou para Gal gravar. A canção gerou desconforto entre os puristas da música popular brasileira. “Saímos do estúdio (depois de grava Baby) para um restaurante que frequentávamos na rua Augusta, para jantar em clima comemorativo. Geraldo Vandré, que estava em outra mesa, veio até a nossa e, ao perceber nosso entusiasmo pela gravação, pediu que Gal lhe cantasse a canção recém gravada. Quando tinha ouvido o suficiente para ter uma ideia do que era, ele a interrompeu bruscamente batendo na mesa e dizendo: ‘Isso é uma merda’. Gal calou-se assustada e eu, indignado, disse a ele que saísse dali. Ele ainda quis argumentar dizendo que estávamos traindo a cultura nacional, mas não permiti que ele concluísse o discurso e, gritando, exigi que nos deixasse, ressaltando que ele ao menos devia ter sido cortês com Gal, cujo canto suave ele interrompera de forma tão grosseira”. Esse é um dos acontecimentos que culminou na inimizade de Caetano e Vandré.

Cae e Gal filtro
A Tropicália também tinha uma ligação com a Jovem Guarda, pelo fato de usar em seu som elementos do rock trazidos pelos garotos do iê, iê, iê, como a guitarra elétrica. Mas, muitos críticos acreditam que o movimento de Caetano e Gil contribuiu com o fim do programa de Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléia. João Máximo jornalista, escritor, pesquisador e crítico musical é um dos que afirma esse pensamento. Porém, Erasmo Carlos diz que o Tropicalismo “era uma Jovem Guarda com mais consciência das coisas e nos deixou num branco total”.

A mistura

Por Ricardo Frei

O gesto tropicalista impregnou a canção brasileira de uma capacidade de incorporar tendências, repertórios e motes diversos, elegendo a pluralidade como um caminho legítimo e coerente ao fazer artístico. O elogio à mistura já vinha de antes, de tentativas como a de Gilberto Freire, que fez a louvação da resultante cultural do encontro das três raças.  Um universo de possibilidades se abriu após 1967. Isso explica a rica paleta sonora que podemos escutar nos anos 1970. A tropicália abriu portas, olhos e ouvidos para um universo dos mais ricos, capaz de receber e acolher a diversidade cultural do país. Lendas, histórias, costumes, realidades distintas, fosse urbana ou suburbana, do norte ou do sul, daqui e de lá de fora, Vicente Celestino e Beatles, encontraram pouso na forma tropicalista de se fazer ouvir. Não veio organizada como movimento. Tampouco, durou no tempo. Foi um gesto rápido e intenso, sem programação ou objetivos traçados a priori.  Como um happening, instituiu uma espécie de “lei” que permite aos nossos cancionistas misturar, transigir, deglutir o que não é nosso e torná-lo próprio, popular, brasileiro. Frente ao gesto apolíneo, contido e enxuto da Bossa Nova, a tropicália surge dionisíaca, parodística, carnavalizante.

Ilustração sonora: Coração Materno, de Vicente Celestino por Caetano Veloso (escute aqui)

A Tropicália e a Antropofagia

Por Ricardo Frei

A Tropicália chegou alardando a Revolução Caraíba de Oswald. Num universo estético e político marcado por posicionamentos polarizados, emepebistas empunharam uma luta contra o que entendiam como estrangeirismos musicais.  A guitarra elétrica pagou o pato e se transformou em símbolo de uma suposta invasão cultural que corromperia a cultura popular. Na prática, essa atitude acelerou o despertar tropicalista. Sim! Antes de ser incorporada, anos mais tarde, ao repertório ampliado do que conhecemos historicamente como MPB, a Tropicália naquele momento posicionou-se contra um radicalismo, contra uma politização da estética, que tomava conta de parte considerável dos principais herdeiros da Bossa Nova. Colocou-se em posição diametralmente oposta aos emepebismo militante, que trazia consigo a convicção de ser ele o portador da autenticidade musical popular brasileira. E, para isso, enrijeceram a forma, constrangeram conteúdos e recuperaram excessos líricos, rompantes dramáticos, antes alijados exatamente pela própria Bossa.  

A passeata de julho de 1967, sob a alcunha de “passeata da MPB”, bradava o slogan “Defender o que é nosso”. Sob a influência modernista e antropofágica, impactados por Beatles, ressabiados com aquele embate postiço, Caetano e Nara, boquiabertos, assistiam tudo da janela do Hotel Danúbio e diziam: “Que horror! Parece manifestação do Partido Integralista”.  A ação foi encabeçada por Elis e instigada por motivos comerciais e também políticos. O programa O Fino da Bossa (assista aqui), por onde desfilavam os principais nomes da MPB, começava a perder espaço para A Jovem Guarda de Roberto Carlos (assista aqui). Ambos pertencentes à grade da TV Record. Se a perda de audiência indicava, para além dos impactos comerciais, também perda de prestígio, de cartaz, e um alerta de intromissão cultural aos emepebistas, para a Record o embate só alimentava ainda mais sua programação. Um fogo amigo e bem-vindo, no caso. Aquela cisão não fazia sentido ao espírito tropicalista de Caetano, Nara, Gil e demais integrantes do gesto tropicalista que trazia em si a vacina antropofágica contra qualquer tipo de catequese.  Poderiam muito bem responder ao slogan da passeata com trecho do manifesto de Oswald: “Só me interessa o que não é meu”. E só assim, por vias de assimilação, poderíamos misturar influências, repertórios e toda uma tradição popular. A lei do antropófago legitima ao seu modo nossa miscigenação. O que atropelava a verdade da música popular não era apenas a roupa, mas também uma atitude excludente que negava as influências, o passado em busca de uma assepsia musical que a empobrecia. Pois a tropicália carnavalizou e uniu, via antropofagia, Vicente Celestino, João Gilberto, Beatles, guitarra, pandeiro, cultura e contracultura numa profusão de vozes, letras e sons que dariam o tom da MPB dali em diante: um lugar de confluência, que abriga a diversidade e o elogio à mistura. Por isso, Geleia Geral (escute aqui) passou a ser uma espécie de síntese sonora do pensamento tropicalista.

Pão e circo ou a ruptura com o estabelecido

Por Camila de Ávila

Se você parar para pensar, a primeira canção da Tropicália pode ser “Alegria Alegria” (escute aqui), de Caetano Veloso, que ficou em quarto lugar do Festival da Canção de 1967. Segundo relato do próprio Caetano no livro “Verdade Tropical”, a canção surgiu porque ele queria fazer algo parecido com a canção “A Banda” (escute aqui), de Chico Buarque. Que é uma canção que não fala de política, que tem uma mensagem leve e de alegria (se você prestar atenção dá para cantar A Banda na melodia de “Alegria Alegria” e virce-versa). Caetano ainda diz no livro queria se ver “livre” de Alegria Alegria como ele pensa que Chico está livre de A Banda. Mas a canção de Cae é muito forte e ficou para história por ser a primeira a falar de coca-cola, Brigitte Bardot, jornais e revista. A canção falava da cultura pop. O prenuncio da Tropicália.

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O primeiro e único disco do movimento recebeu o título de “Tropicália ou Panis et Circenses”. É o primeiro álbum conceitual da história da música brasileira. “Tropicália ou Panis et Circenses” é um manifesto que tenta trazer para a música brasileira o resgate de suas raízes, bem como ampliar a sonoridade da canção tupiniquim inserindo em seus arranjos instrumentos até então odiados pela clássica mpb como elementos do rock (tão mal visto pelos puristas da mpb), psicodelia e a guitarra elétrica. O movimento deu um passo importante para a evolução da música brasileira universalizando a canção. A Tropicália é a ruptura e tinha como integrantes pessoas ligadas à música, artes plásticas, cinema e teatro como Torquato Neto, Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Os Mutantes e Tom Zé, Hélio Oiticica, Glauber Rocha e José Celso Martinez Corrêa, entre outros.

cae e gil
Vamos falar aqui da canção que dá um dos títulos ao único disco do movimento: “Tropicália ou Panis et circenses”, da gravadora Polygram/Phillips. De Caetano e Gil, “Panis et circenses” (escute aqui) lembra uma frase da história. Na Roma antiga, para manter o povo “feliz e obediente” foi adotada a política do panem et circenses, ou pão e circo. A expressão foi cunhada pelo humorista Juvenal (que esteve no mundo por volta do ano 100 d.c.) no texto “Sátira X”. Muito clara, panem et circenses significa: deixe o povo alimentado e com entretenimento que nada será questionado por ele. O circo era as lutas dos gladiadores, e ao fim das sessões, eram distribuídos pão. A dominação da população por meio do entretenimento vazio e raso com uma “iguaria” ao fim da festa.

A música se mostra como um protesto e uma crítica à sociedade hipócrita da época (ou atual?), já que insere na população acostumada a ouvir e ver as mesmas coisas, distintos sons e artistas com novas roupas, comportamentos e, principalmente, sem medo de experimentar a liberdade e o que estava fora da janela enquadrada (como veio dizer Adriana Calcanhotto 24 anos depois em uma canção sobre a cegueira). A canção é uma ode à manipulação da sociedade pouco educada e que não sente a necessidade de ser melhor preparada para o mundo, um povo acomodado, medíocre, de classe média (ou mediana). Afinal de contas, para que querer mais se eu tenho comida e entretenimento? Se eu tenho arroz com feijão e a novela das 9h? Se sou muito bem informada pelo jornal Nacional e tenho acesso aos enlatados norte-americanos? Se eu tenho McDonald’s (sou uma discípula fervorosa do Big Mac) e Netflix?

A canção é interpretada pelos Mutantes e foi arranjada pelo maestro Rogério Duprat (1932-2006), e tem como objetivo criticar o comportamento da sociedade diante do regime ditatorial que durou entre 1964 e 1985. Há um erro na tradução da expressão para o latim do qual Caetano lamenta no livro “Verdade Tropical”. A canção também foi gravada em 1983, pelo Boca Livre no disco “Boca Livre”, e em 1996, pela cantora Marisa Monte, no disco “Barulhinho bom”, no mesmo ano Paulinho Moska CD “Triângulo sem bermudas – Uma homenagem à trois”, tributo aos Mutantes, em 2012, Gil a interpretou novamente no disco “Concerto de Cordas & Máquinas de Ritmo”.

A voz que canta “Panis et circenses” é de uma pessoa que tenta sair da mesmice. Alguém que quer cantar, iluminar, plantar, construir, matar, sentir a vida com todos os seu sentimentos e contradições. Diferentemente das pessoas da “sala de jantar” que só se preocupam em nascer e morrer, sem ter uma vida entre esses dois acontecimentos. A canção mostra de forma muito clara (ou não) a apatia da sociedade diante dos fatos, das ações e dos acontecimentos do mundo. Na sala de jantar, onde elas têm pão, literalmente a comida, e o circo, na sala de jantar é onde a maior parte das TVs ficam nas casas, são alimentadas, entretidas e, por fim, ou como o desejo do mandatário, manipuladas.

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Por ser uma canção de Caetano e Gil, artistas reconhecidos na época por suas participações nos Festivais de Música Popular, “Panis et circenses” alcançou muitas pessoas que estavam na sala de jantar, provocando em algumas uma inquietação e em outras, certa raiva, para outras, nem cócegas, pois passou batido a mensagem da música. O compositor e pesquisador José Miguel Wisnik, em um dos textos do livro “Sem receita: ensaios e canções”, afirma que “o movimento tropicalista fez da canção de massa o lugar em que a ferida se expõe e se reflete com todo o poder explosivo do que ela guarda recalcado, de irresolvido e também do potencialmente afirmativo”.

A principal observação é que a canção continua sendo mais atual que nunca (infelizmente, pois passaram 50 anos de sua composição e a sociedade continua hipócrita e mediana). A letra de Caetano e Gil mostra a necessidade de uma ruptura com os costumes alienados, ultrapassados e preconceituosos da família burguesa (conhecida pelas bandas das alterosas como a Tradicional Família Mineira), em favorecimento de um desejo de nascimento das liberdades individuais, necessidade de viver de forma plena e a quebra dos modelos preestabelecidos. O que “Panis et circenses” vem mostrar é uma forma livre de vida de forma a fazer com que a voz que canta a música acorde e sinta a vida pulsar. Experimentar, viver e sentir sem preconceitos, julgamentos e medos. O problema é que há ainda muitas pessoas na “sala de jantar”.

Preconceito musical

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Você sabe como o morro chega no asfalto? Por meio da música. A arte é algo que é impossível ignorar e esconder. Um atento Vinícius de Moraes, nos idos da década de 1950, foi o primeiro a dizer isso. “O morro não tem vez/ E o que ele fez/ Já foi demais/ Mas olhem bem vocês/Quando derem vez ao morro/ toda cidade vai cantar” (escute aqui), e cantou.

Samba Instituto Moreira Sales                                                 Foto: Instituto Moreira Salles

O Brasil é um país em que a miscigenação está há anos luz de qualquer outro. Não adianta negar, o futuro da humanidade é a mistura e, por aqui, nas terras tupiniquins, estamos bem à frente neste quesito. Mas, uma pequena elite, um grupo de pessoas fortes nas questões econômicas não querem deixar essa miscelânea acontecer e, por isso, propagam a segregação. Fora daqui também é percebido o levante de políticas e pensamentos conservadores que trancam as portas para os que consideram menor e pior.

Em 2002, Elza Soares cantou no seu maravilho “Do cóccix até o pescoço”, que “A carne mais barata do mercado é a carne negra” (escute aqui), composição de Marcelo Yuka, Seu Jorge e Wilson Cappellette que a letra chega a doer como uma chibata. Mas o que assusta é que a música mais apreciada, querida e que define a nação, o samba, nasceu desse povo marginalizado. Dos negros, dos moradores de aglomerados e favelas. Interessante, né?

Não há no Brasil, ou no mundo, manifestação artística pior ou melhor, há apenas diferentes apreciadores. Como Adriana Calcanhotto, não gosto do termo “bom gosto musical” porque gosto é muito particular. É obvio que há canções mais elaboradas e outras menos, mas isso não quer dizer que seja melhor ou pior. Mesmo porque a música tem que tocar a alma e o coração. É muito subjetivo, entende?

funk

O funk é um ritmo mal visto por uma elite “intelectual”. Mas por que? Qual o problema do funk? O problema é quem esse ritmo representa. É importante entender que a música é o mostra o pensamento e o comportamento da sociedade e, há sim, uma grande parte da população que se vê representada por esta canção. O que você tem que fazer? Respeitar e ouvir. Só isso.
Não. Você não é obrigado a gostar de nada. Afinal de contas, gosto cada um tem o seu. Mas você deve respeitar e entender. Isso é obrigatório.