Por Camila de Ávila
A ideia do Tropicalismo surgiu com o objetivo de fazer mudança na música nacional. É importante entender que a última grande revolução havia corrido em 1959 com a chegada do LP Chega de Saudade (escute aqui) , que mostrou para o mundo batida intimista e completamente diferente do que se fazia antes, a Bossa Nova. Em entrevista para a pesquisadora Ana de Oliveira Caetano Veloso disse: A gente já falava nisso (renovação da música nacional) em 66. Você pode ler na contracapa do disco Domingo: “vou cantar essas canções que compus tempos atrás à vontade porque hoje estou pensando em coisas e projetos completamente diferentes.” Gil já tinha feito até umas reuniões no Rio com os outros compositores e músicos pra tentar transmitir o novo modo de ver. Ele marcou na casa de Sérgio Ricardo, chamou Edu Lobo, Chico Buarque, o irmão de Sérgio Ricardo, várias pessoas. Gil queria que todos participassem, mas o pessoal não entendeu. (…) Eu vinha conversando muito com Rogério Duarte sobre a falta de capacidade de aventura do criador de música popular no Brasil, sobre os resguardos dentro do mundo do bom gosto e do politicamente correto na época. Também sobre o preconceito contra o rock e o iê-iê-iê, que, embora não interessassem tanto em princípio, tinham uma vitalidade que a gente foi descobrindo. Bethânia já havia me chamado a atenção pra Roberto Carlos. Tudo isso entre 65 e 66”, lembrou.

O Tropicalismo “é o resultado da aproximação das personalidades de Gilberto Gil e Caetano Veloso. Sem ele eu não faria nem música, quanto mais essa coisa toda dentro da música. Ainda assim, uma vez que eu já estava dentro da música, sobretudo por causa de Gil, só desencadeei esse movimento tão responsável pela questão da música popular no Brasil porque o próprio Gil estava muito excitado pra que algo nesse sentido acontecesse. Dizer que a Tropicália é exclusivamente da minha cabeça peca contra essa verdade”, contou Cae para Ana de Oliveira. O que se pode dizer é que um entendia e completava de forma muito harmoniosa a ideias um do outro. “Tenho uma capacidade de fazer a articulação final dos elementos. Muitos foram trazidos por mim mesmo, mas muitos não. Muita coisa eu trouxe das conversas com Bethânia, muitas das conversas com Rogério, que só aconteceram porque eu sou quem eu sou, com os meus próprios pensamentos, o que eu observava e sentia. Mas a organização desses elementos todos num projeto foi intuição de Gil. Gil propôs falar. Falar dos Beatles e da cultura de massa”, explicou o santamarense.

Estar com a mente aberta, ter atenção em tudo, “precisa ter olhos firmes, pra este sol, para esta escuridão” (Divino Maravilhoso não é uma canção do disco e nem do movimento Tropicalista, mas faz parte de sua ideia de modernização da canção nacional) (escute aqui) era a principal característica da Tropicalia. O olhar sem preconceito, sem medo da novidade e de arriscar foi o cerne do movimento. Para Caetano a música popular brasileira estava estagnada, “Todo mundo com medo do iê-iê-iê. De repente as pessoas não estavam ouvindo o que se passava. Eu, pra ser sincero, morava no Solar da Fossa e nem suportava televisão. Mas por causa do conselho de Bethânia procurei ver, quando podia, aos domingos, o programa de Roberto Carlos, e percebi, de fato, que Bethânia tinha razão”, observou Caetano e salientou a importância de Maria Bethânia para o movimento do qual a cantora não quis participar.
Nesse sentido, de ser um movimento que queria mexer com a música brasileira, inovar, criar e fazer tudo novo de novo, a Tropicália se iguala a Bossa Nova. Segundo Caetano, “a Tropicália foi simplesmente um esforço no sentido de defender o que era essencial na Bossa Nova”, conclui Caetano a conversa com a pesquisadora Ana de Oliveira.


















Foto: Instituto Moreira Salles