A rivalidade

Por Camila de Ávila

O Tropicalismo foi um movimento que no primeiro momento queria abraçar muitas cabeças. Chico Buarque era uma delas. Caetano conta no livro “Verdade Tropical” que convidou Chico para as reuniões na casa do Sérgio Ricardo, mas o compositor de olhos cor de ardósia não se lembra de nada. No documentário “Uma noite em 67” (veja aqui) , dirigido por Ricardo Calil e Renato Terra, de 2010, Chico disse que devia estar bêbado quando esteve nessas reuniões e que nesse período, em que a Tropicália começava a surgir, se sentiu sozinho. Caetano, no mesmo documentário concorda com o sentimento de solidão de Chico. “O Gil conta que me chamou para umas reuniões, que eu fui, que eu tomei um porre, eu não lembro direito, é possível (risos)”, afirma Chico para a de Santuza Naves, Frederico Oliveira Coelho e Tatiana Bacal.

Chico Cae e Gil
Chico diz para a pesquisa do livro MPB em discussão, de 2005, que na época do Tropicalismo ele estava dedicado a aprender música. Foi nessa época que conheceu Tom Jobim. Foi em 1968 que Chico firmou suas primeiras parcerias com o Maestro Soberano como Retrato em Branco e Preto (escute aqui)  e Sabiá (escute aqui). “Eu comecei a estudar música e o Tom foi me indicando o caminho. Foi comigo na Lapa comprar um piano. Comecei a me interessar por música ali em 67, 68, exatamente quando veio o Tropicalismo. Então eu não estava preocupado em romper. O tropicalismo rompia com a bossa nova inclusive. E eu não estava preocupado em romper com a bossa nova, pelo contrário, eu estava compondo com o Tom, que era o meu mestre. E eu querendo aprender uma porção de coisa, porque eu achava que eu já tinha perdido tempo, que eu precisava — como precisava mesmo — me aperfeiçoar como músico, melhorar, progredir como músico. Eu estava preocupado com isso”, disse Chico.

Chico disse que o Tropicalismo desde o início já era histórico. “Eu me encontrava com o Gil e com Caetano aqui no Rio, até então muito frequentemente, e a partir de um certo momento eu deixei de ver os dois. E quando eu vi, já havia esse movimento. Mas eu não estava muito preocupado. Talvez até me faltasse uma certa ambição de querer, de dar importância àquele movimento todo. A ideia de que eu estaria trinta anos depois falando disso era absurda. Porque eu estava quase brincando de fazer música e o movimento tropicalista já se atribuía um papel histórico, como de fato veio a ter. Eu estava fora, eu estava alheio, e quando eu conheci já estava a coisa criada. Eu tinha ótimas relações com eles e não deixei de ter por isso”.

procure-saber
Porém Chico afirma que havia uma “rivalidade” criada pela imprensa. “Agora, num certo momento, havia a necessidade, principalmente por parte da imprensa de São Paulo, que dava um apoio muito grande ao movimento Tropicalista, de criar um antagonismo. Quer dizer, era um pouco como havia necessidade de se negar Noel Rosa quando se fez a bossa nova, havia necessidade de romper com um passado e um passado do tropicalismo, e o passado por um acaso era eu. (risos) Eu fiquei sendo o adversário daquele movimento. E eu não me sentia absolutamente um adversário do tropicalismo. Eu não tinha nenhuma objeção básica ao que se fazia (…), eu não tinha objeção de ordem ideológica, nada disso. Só que, de certa forma, eu fui afetado pela violência com que o movimento em torno do tropicalismo me atingiu. Ao Tom também, ao Vinícius, mas como eu sou um pouco mais novo do que eles, eu fiquei um pouco nessa posição privilegiada de adversário mais visível do movimento tropicalista (…). Do lado de cá, quem não estava no tropicalismo era automaticamente classificado como inimigo; assim, Edu Lobo e eu éramos adversários do tropicalismo. E eu nunca senti isso, nem durante, tirando o que havia de pessoal, que podia haver e havia de certo ressentimento pessoal, de mágoa”, conclui.

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